Polêmica

‘Tecnofeudalismo’: um delírio teórico que já nasceu morto

O Tecnofeudalismo é uma teoria criada por uma esquerda pequeno-burguesa que tem medo do fim do capitalismo e cria dele uma mutação

Tecnofeudalismo

Existe gente fantasiando a economia, e isso fica explícito no artigo O sigiloso sucessor do capitalismo, de Emir Sader, publicado no Brasil 247 nesta quinta-feira (7). O articulista escreve que “com esse subtítulo, o ex-ministro da economia da Grécia, Yanis Varoufakis, publicou seu principal livro: Tecnofeudalismo”.

Adiante, Sader acrescenta que “na sua concepção, o capitalismo estaria morto, no sentido de que sua dinâmica já não dirige as economias atuais. Esse papel passou a ser desempenhado, na sua concepção, por algo fundamentalmente diferente, que chama de ‘tecnofeudalismo’”.

O capitalismo está em uma crise profunda, mas está muito longe de poder ser considerado morto.

No terceiro parágrafo, Sader escreve que “no centro da sua visão há uma ironia que pode parecer confusa: a de que o que teria matado o capitalismo seria o próprio capital. Não o capitalismo como o compreendemos desde o início da era industrial, mas o que seria uma nova forma de capital, uma mutação surgida nas duas últimas décadas, muito mais poderosa que sua predecessora”.

É de Marx a conclusão de que as contradições internas do capitalismo – a tendência do lucro a zero – que seriam seu fator de ruína. É uma ilusão completa a ideia de que existe uma “nova forma de capital”, e pior ainda que se possa considerar “mais poderosa que sua predecessora”. A recente guerra contra o Irã, o bloqueio no Estreito de Ormuz, mostrou o que realmente move a economia mundial, de modo que o “tecnofeudalismo” já nasceu morto.

Antes ainda da agressão contra o Irã, o imperialismo já tinha voltado seus canhões contra a China, cujo desenvolvimento industrial está colocando em xeque a hegemonia do grande capital.

Causas improváveis

Sader diz que duas são as causas primordiais desse poderio: “1) a privatização da internet, levada a cabo pelas grandes tecnológicas norte-americanas e chinesas; e 2) a maneira como os governos ocidentais e os bancos centrais responderam à grande crise financeira de 2008”.

A “privatização da internet” está calcada na produção, precisa vender serviços ou anúncios para se manter. E que respostas governamentais temos vistos às crises? O de sempre: o endividamento estatal. Na crise de 2008, que ainda não foi debelada, foram despejados trilhões de dólares de dinheiro público no mercado para estancar momentaneamente a quebradeira no sistema financeiro.

Muitos têm acredito que as novas tecnologias são uma resposta, mas uma bolha muito maior do que a crise do subprime de 2008 está se formando.

“Seu livro”, continua Sader, “aborda o que o capitalismo faz de si mesmo. A mutação do capital, que ele chama de ‘capital na nuvem’, demoliu os dois pilares do capitalismo: os mercados e os lucros. Ambos continuam onipresentes, mas já não exercem o controle de antes.”

Não existe “capital na nuvem”, é preciso que haja lastro e conversibilidade, ou como se viu na primeira década deste século, a qualquer momento a bolha estoura.

Quando o lucro e os mercados foram demolidos? As empresas de tecnologia visam o lucro e têm seus valores estipulados no mercado. O problema é que esses valores são estimados em ganhos futuros que não estão se realizando.

A “explicação” dada é de que “o que aconteceu nas duas últimas décadas é que o lucro e os mercados teriam sido expulsos do epicentro do sistema econômico e social, foram deslocados para as suas margens e foram substituídos. Os mercados, o meio do capitalismo, foram substituídos, na sua visão, por plataformas de comércio digital, que parecem mercados, mas que não o são, e que podem ser melhor entendidas se forem consideradas feudos”.

Uma explicação sem pé nem cabeça. O fechamento provisório no Estreito de Ormuz, a interrupção da circulação de 20% do petróleo mundial curvou o imperialismo, que teve de interromper a agressão contra o Irã.

Essa commodity mostrou a circulação de mercadorias ainda está na base da economia mundial, e é fundamental para que o mercado financeiro continue operando.

Outro absurdo é dizer que “o lucro, o motor do capitalismo, teria sido substituído por seu predecessor feudal, a renda. Em concreto, uma forma de renda que deve ser paga para ter acesso a essas plataformas e, em geral, à nuvem, o que ele chama de ‘renda da nuvem’”.

A terra no feudalismo era algo concreto, palpável, era dela que se tirava o sustento, o arrendamento produzia riqueza e poder político. O acesso às plataformas é uma espécie de aluguel. O YouTube, o Facebook, dependem da venda de anúncios, basicamente é um serviço, não são, nem de longe, “uma mutação do capitalismo”.

É uma verdadeira piada a concepção de que os donos do grande capital “teriam se convertido em vassalos de uma nova classe feudal, os proprietários do capital na nuvem”.

Achismos

Sader, ainda sobre a tese de Varoufakis, diz que “no tecnofeudalismo, uma nova classe dominante obteria seu poder da propriedade de um capital na nuvem, cujos tentáculos enredam todo o mundo”. E que “o capital na nuvem se define, fisicamente, como a acumulação de maquinaria conectada em rede, software, algoritmos baseados em IA e hardware de comunicações que percorrem todo o planeta e realizam uma ampla variedade de tarefas, novas e antigas”. Tudo isso existe em função de quê? Se não forem produzidas mercadorias, como se poderá remunerar os serviços que as empresas de tecnologias oferecem? As pessoas não comem ou vestem bytes.

Existe uma ilusão de que “milhões de pessoas não assalariadas (servos da nuvem) [estão] a trabalhar grátis (e frequentemente de maneira inconsciente) para repor o estoque de capital na nuvem (por exemplo, subir fotos e vídeos no Instagram ou no TikTok, ou colocar críticas de filmes, restaurantes e livros)”.

O que importa é o tráfego, o número de visualizações, mas isso já acontecia nas televisões, que cobram mais pelos anúncios no horário nobre; assim faz a imprensa, que cobra mais pelos anúncios nas capas ou páginas ímpares.

Essas teorias malucas têm um como pano de fundo o fato da esquerda liberal não aceitar o fim do capitalismo. Então, precisa criar “mutações”, “transformações” que o mantêm vivo. Mas isso está fora de questão, pois a crise se aprofunda a cada dia.

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