Em artigo publicado pela Gazeta do Povo, o reacionário Ives Gandra Martins, ex-ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST), apresenta a tese de que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) estariam “decepcionados” com os rumos do governo Lula. O texto sugere que a Corte, após ter agido como o baluarte da “democracia” em 2022, buscaria agora um distanciamento profilático para evitar contaminações pelos escândalos de corrupção e pela paralisia política do Executivo. No entanto, essa interpretação é de um cinismo absoluto. O que ocorre não é uma decepção moral, mas o descarte de uma peça que já cumpriu sua função no tabuleiro do regime.
Para entender o suposto “distanciamento” atual, é preciso restabelecer a verdade sobre a aliança de 2022. O STF e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não garantiram a eleição de Lula por apreço ao programa do PT ou por convicções progressistas. O Judiciário agiu para preservar a estabilidade do regime político e os interesses do imperialismo, que viam em Jair Bolsonaro um elemento de desestabilização perigoso e imprevisível.
Lula foi utilizado pelo STF como um “amortecedor” social. O regime precisava de uma figura com autoridade popular para pacificar o País após a turbulência bolsonarista, permitindo que a “ditadura da toga” se consolidasse como o verdadeiro poder moderador. O STF usou Lula para normalizar medidas de exceção — como a censura prévia e as prisões arbitrárias — que, sob um governo de direita, sofreriam muito mais resistência.
O aspecto mais trágico dessa relação é a ilusão alimentada pelo próprio Lula e pela cúpula do PT. O presidente acreditou, de forma quase infantil, que estava usando o STF a seu favor. Imaginou que Alexandre de Moraes e a estrutura arbitrária da Corte seriam seus guarda-costas pessoais contra a extrema direita.
Ao apoiar entusiasticamente o cerceamento das redes sociais e as condenações draconianas do 8 de janeiro — que chegaram ao absurdo de impor 15 anos de prisão a manifestantes por pichações com batom —, Lula forneceu ao STF as ferramentas para uma ditadura judicial sem precedentes. O resultado foi o oposto do pretendido: em vez de sufocar o bolsonarismo, essa política desmoralizou a esquerda e permitiu que o bolsonarismo se apresentasse como a única força de oposição real ao “sistema”. Agora que o monstro criado pelo STF está plenamente alimentado, ele não precisa mais do “escudo” de Lula.
Dizer que o STF está “decepcionado” com o governo é um truque para apagar as impressões digitais dos magistrados sobre os erros da gestão. Os ministros percebem que o governo Lula fracassou, incapaz de aplicar medidas de impacto.
A suposta decepção dos ministros revela a fragilidade de uma política que se recusou a mobilizar o povo e preferiu governar através de acordos com seus inimigos.
O STF não está decepcionado; ele está satisfeito por ter sobrevivido à crise de 2022 e por ter saído dela com poderes imperiais, em grande parte graças à capitulação da esquerda.
A lição que fica para os trabalhadores é clara: não se combate a extrema direita ou se governa um país dependendo da “boa vontade” de juízes que, por definição, são os defensores da ordem que oprime o povo.





