Polêmica

Sionistas são quem banalizam o Holocausto

Jornalista força a barra e compara Bolsonaro a Hitler. A banalização do Holocausto acaba tendo um efeito contrário, virou carta marcada

8 de janeiro

Antes de debater sobre o artigo O Holocausto de Bolsonaro, escrito por Alex Solnik, e publicado no Brasil 247 nesta quarta-feira (13), é preciso fazer uma introdução.

Norman Finkelstein, cientista político norte-americano, publicou em 2000 seu famoso livro A Indústria do Holocausto: Reflexões sobre a Exploração do Sofrimento Judeu. O autor, que é filho de sobreviventes do Gueto de Varsóvia e dos campos de concentração, argumenta que a memória do Holocausto nazista foi transformada em uma ferramenta ideológica e financeira.

Finkelstein faz uma distinção crucial entre o evento histórico (o extermínio de judeus pelos nazistas) e o que ele chama de “O Holocausto” (com letras maiúsculas). Para ele, “O Holocausto” é uma representação ideológica tardia, construída décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial para servir a interesses políticos específicos.

Segundo Finkelstein, até 1967 (Guerra dos Seis Dias), o Holocausto não ocupava um lugar central na vida pública dos EUA ou da comunidade judaica americana. Após a vitória de Israel em 1967, o país tornou-se um aliado estratégico fundamental para os EUA no Oriente Médio. Foi aí que a elite judaica americana passou a utilizar o “Holocausto” para imunizar Israel de críticas e para justificar políticas externas dos EUA, apresentando Israel como uma vítima perpétua.

Norman Finkelstein critica a ideia de que o Holocausto é um evento “único” e incomparável a qualquer outro crime na história humana. Ele argumenta que essa insistência na excepcionalidade serve para colocar o sofrimento judeu acima de outras tragédias (como a escravidão ou o colonialismo), o que, em sua visão, acaba por banalizar o próprio sofrimento que se pretende honrar, no que tem razão.

Naturalmente, Finkelstein foi, apesar de ser judeu, acusado de antissemitismo, de minimizar o sofrimento das vítimas e de fornecer munição para “negacionistas” do Holocausto, embora Finkelstein nunca tenha negado a realidade do genocídio.

O autor defende que o Holocausto deve ser estudado como um fato histórico racional, e não como um dogma religioso ou uma moeda de troca política.

Um bigodinho em Bolsonaro

Alex Solnik diz que “a defesa de Jair Bolsonaro pediu revisão da sua sentença. Alega não haver provas de que tramou um golpe de Estado. Muito menos mandou invadir e quebrar os prédios dos Três Poderes”, o que é um fato. Não há provas e o julgamento foi uma verdadeira farsa.

Adiante, o articulista diz que “guardadas as devidas proporções e sem querer misturar alhos com bugalhos, devo lembrar à douta defesa que Adolf Hitler não criou os campos de concentração, nem as câmaras de gás, nem mandou seus subordinados jogarem os judeus nos campos, nem os enviarem às câmaras de gás. Não há um documento assinado por ele com essas ordens. Quem criou os campos de concentração foi Heinrich Himmler. Quem encaminhava as grávidas para as câmaras de gás era Joseph Mengele. Eles não consultaram Hitler para saber se deviam fazer isso.”

Apesar do alerta, Solnik não guarda as devidas proporções e ainda mistura as coisas. Hitler era um chefe de Estado, comandou as invasões e a política de guerra. Não está em questão, portanto, se foi ou não consultado para a criação de campos de concentração.

É completamente sem sentido a afirmação de que Himmler e Mengele não precisavam consultar Hitler, pois “as ordens de exterminar os judeus emanaram do [livro] ‘Mein Kampf’”. Alegar que no livro “os judeus eram culpados pela situação de penúria da Alemanha e corrompiam a raça puramente germânica ao se casarem com alemães ou alemãs” também não serve, pois os judeus sofreram perseguições muito antes do nazismo.

Defesa de golpistas

Solnik escreve que “Bolsonaro atravessou os quatro anos de seu mandato presidencial culpando “o outro lado” pela situação do país e demonizando o STF, que permitia que ‘o outro lado’ ganhasse dele com ‘urnas corrompidas’. Sem ‘o outro lado’ e sem o STF, o país teria dias gloriosos.” O que se pode dizer sobre isso é que Jair Bolsonaro é ingrato, pois sem o Supremo não teria sido eleito.

Foi graças à intervenção de Gilmar Mendes que Lula não pôde ser ministro de Dilma Rousseff e assim o atiraram no colo de Sérgio Moro. Foi a negação do habeas corpus que colocou o petista na cadeia. Graças nobres juízes, Lula foi impedido de concorrer à eleição (mesmo não tendo sido condenado em última instância), foi impedido de dar entrevistas, ou de aparecer no material de propaganda de Fernando Haddad. Jair Bolsonaro tinha que agradecer.

A função de Solnik, ao criticar a postura do ex-presidente com relação ao Supremo, é tentar apagar a paternidade do mandato deste que agora é acusado de tramar um golpe. Se Bolsonaro tentou dar um golpe (o que é falso), o Supremo participou de um golpe efetivamente.

As consequências do golpe contra Dilma Rousseff colocaram no poder Michel Temer, um verdadeiro Judas Iscariotes político, que devolveu milhões de brasileiros para a miséria, para o desemprego. Foi ele que, com a política de teto de gastos vem amarrando o próprio governo Lula. Isso não pode ser esquecido.

Não bastasse tudo isso, o Supremo, que Alex Solnik defende, aparece relacionado ao caso Banco Master.

Banalização

O jornalista escreve que “[Jair Bolsonaro] jamais disse, explicitamente, aos seus subordinados: ‘Vamos dar um golpe de Estado’. Jamais disse à população: ‘Quebrem o prédio do STF’. Mas os seus fiéis seguidores entenderam seus recados”, então, onde está a tentativa de golpe? Pessoas desarmadas quebrando vidros, relógio, móveis, pichando estátua de batom estão tentando derrubar um governo? Seria inédito na história da humanidade.

Solnik afirma que Bolsonaro “teve cúmplices, tal como Hitler, que teve Himmler, Mengele, Goering, Goebbels e outros”. Diz ainda que “os cúmplices nazistas e os bolsonaristas agiram em nome dos dois líderes, sob seu comando”, apesar de ter dito anteriormente que Bolsonaro não comandou.

Ao comparar Bolsonaro com Hitler, Solnik acaba banalizando o horror nazista contra os judeus, e cumpre assim um desserviço. A carta do Holocausto, de tanto ser jogada,  ficou marcada e perdeu seu efeito.

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