O artigo A esquerda ‘woke’ e o terror, de Denis Lerrer Rosenfield, publicado no Estado de S. Paulo nesta segunda-feira (4), é um daqueles textos nos quais os sionistas, completamente desmoralizados, tentam impingir aos outros a pecha de “terroristas”. Os executores de Deir Yassin, Tantura, Sabra e Chatila, do bombardeio da escola infantil em Minab, dentre tantos, não são os terroristas, mas quem a eles resistem.
Uma das principais características dos sionistas é a falsificação dos fatos, por isso Rosenfield inicia seu texto dizendo que “um traço distintivo da teocracia iraniana reside não apenas em sua tentativa de restabelecimento de costumes pré-modernos que se considerariam ultrapassados, impostos contra os portadores de hábitos discordantes, mas em sua tentativa, digamos, modernizadora, de uma aliança com a esquerda, arvorando-se em defensora de uma bandeira anti-imperialista”.
O Irã é uma república islâmica, não uma teocracia, começa aí o falseamento. Quanto aos costumes, o país tem feito importantes aberturas e só não avança mais em razão das sanções econômicas impostas pelo “mundo civilizado” que, inclusive, ameaçou devolver o país à Idade da Pedra.
Com relação à pretensa aliança com a esquerda, é natural que isso tenha ocorrido, uma vez que o país se tornou o principal opositor da dominação sanguinária imperialista no Oriente Médio.
Segundo Rosenfield, “tal aliança já ocorreu quando da derrubada do xá do Irã até que os aiatolás decidiram eliminar essa mesma esquerda que os tinha apoiado. A esquerda, em particular laica e marxista, foi literalmente assassinada aos milhares, numa repressão cuja crueldade deixou claro que seriam os clérigos xiitas os líderes desse processo revolucionário”.
Temos aí dois pontos: 1) por que haveria interesse da esquerda em se juntar inicialmente à revolução islâmica, senão o fato de ser brutalmente perseguida e morta pelo xá colocado no poder pelos Estados Unidos e Reino Unido?; 2) foi a esquerda que apoiou o Iraque na guerra contra o Irã e se assim tornou inimiga da revolução, mas isso o autor precisa omitir, ou talvez nem saiba.
Rosenfield diz que “quando da aliança visando à derrubada do xá, incluindo liberais dizimados nesse mesmo processo, a bandeira política era a de uma luta anticolonial, que ganhou progressivamente contornos anti-imperialistas e antiocidentais”.
Ocorre que o xá Pahlavi foi um ditador imposto ao Irã, subiu ao poder após um golpe contra Mohammed Mossadegh, eleito democraticamente, mas que cometeu o crime de nacionalizar o petróleo iraniano. A queda do xá foi, sim, uma luta anticolonial.
“Alguns intelectuais ocidentais”, diz Rosenfied, “assim, tornaram-se cúmplices do próprio esmagamento da esquerda que diziam defender em seus países de origem”. O erro infantil do autor, que é professor de Filosofia – coitados de seus alunos –, é colocar toda a esquerda sob um mesmo guarda-chuva. Além disso, o esmagamento da esquerda é anterior, obra do governo apoiado por “Israel” e pelo imperialismo.
Outro erro de Rosenfield, talvez por não ler apropriadamente o que tem escrito a maioria da imprensa de esquerda, é dizer que “a luta da esquerda contra a colonização em nome da autodeterminação dos povos ganha atualmente outro contorno, sob a forma da esquerda woke identitária”.
A esquerda woke, ao contrário do que diz o autor, é contra o governo iraniano, assim com foi contra a vitória do Talibã. É pró-imperialista. Rosenfield acaba chicoteando seus aliados. O que dizem os identitários? Que são a favor do “povo” iraniano, mas que não apoiam a “ditadura teocrática dos aiatolás”, exatamente a classificação utilizada pelos sionistas, como o articulista.
O problema das redes
Rosenfield, que apoia os genocidas que bombardeiam crianças, diz que “a teocracia iraniana elimina com tiros nos olhos e órgãos genitais os que a criticam e se opõem a ela” e afirma ainda que “os mortos se contam em dezenas de milhares de pessoas e, no entanto, os gritos de liberdade não ecoam nesta nova esquerda.”
Para o azar do articulista, as redes sociais já fizeram o trabalho de o desmascarar. Os agentes do Mossad e da CIA em solo iraniano (reconhecidos pelo imperialismo) foram devidamente capturados e estão sendo executados. Os milhares de mortos que esses mercenários provocaram foram principalmente civis e agentes de segurança brutalmente assassinados, carbonizados e até mesmo decapitados.
Os esquerdistas, na visão de Rosenfield, “não deixam de ser hilários, pois criticam o projeto zionista colonialista, quando, em 1948, foi um projeto de esquerda para os trabalhistas israelenses que logo conquistaram o poder e, para a direita, de luta anticolonial contra os ingleses. A União Soviética, sob a liderança de Stalin, foi o primeiro país a reconhecer a existência do novo Estado. Seu armamento veio da antiga Checoslováquia”.
O trabalhismo “israelense” foi apenas uma fachada, pois é de conhecimento público que a ideia sempre foi colonizar a Palestina, por isso a defesa do alinhamento com alguma potência estrangeira para viabilizar o processo: de início a Coroa Britânica e em seguida os Estados Unidos.
É preciso agradecer a Rosenfield por esclarecer que, sim, Stálin foi um traidor que apoiou, e foi fundamental, para o estabelecimento desse Estado colonialista no Oriente Médio.
Rosenfield faz um esforço cômico de tentar ligar Khamenei ao wokismo, mas faz uma citaçãosobre a irmandade muçulmana no Egito, que ele acusa de “depois de ganhar eleições no Egito, começou sua operação de repressão e silenciamento das oposições, terminando por conduzir a um amplo levante popular que, sob a liderança militar, derrubou aquele regime”. – grifo nosso.
Até a vitória de Morsi, não havia eleições no Egito, o país estava há décadas sob a ditadura de Hosni Mubarak, aliada de “Israel” e EUA. O primeiro governo eleito foi logo derrubado por um golpe militar orquestrado e apoiado por esses mesmos países. A defesa da democracia de Rosenfield é bastante seletiva.
Latindo na porta errada
Rosenfield reclama do wokismo nas universidades americanas, da “aliança islamo-esquerdista na França”, e de um pretenso “suicídio antiocidental”. Mas a questão não é essa, pois o repúdio a “Israel” cresce entre os liberais, cresce entre a juventude que apoia, sim, o Hamas.
No entanto, isso não é obra dos wokes, que apenas confundem o ambiente, é fruto da circulação de informação nas redes sociais e na crise do próprio imperialismo.
O cidadão norte-americano está cansado de financiar os sionistas enquanto eles mesmos sofrem com uma economia em franco declínio.
Ao criticar os identitários, alegando ser um “triste fim para uma esquerda que se dizia universal e redentora da humanidade”, Rosenfield acaba batendo justamente naqueles que impedem que a esquerda se radicalize de verdade.





