Hélio Rocha

Possui graduação em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2013). Atualmente é repórter de meio ambiente e direitos sociais em Plurale em Revista e correspondente em Pequim.

Coluna

Silêncio entre as árvores

“Não é um drama explosivo, mas uma meditação visual sobre solidão, perda e reconciliação tardia”

Sonho de Trem, dirigido por Clint Bentley e estrelado por Joel Edgerton no papel do lenhador Robert é Felicity Jones como sua esposa, é um daqueles filmes que parecem pequenos por fora e imensos por dentro. Minimalista, intimista e profundamente contemplativo, ele constrói sua narrativa quase em silêncio, acompanhando a rotina de um homem que vive à margem — não por exclusão social direta, mas pela própria natureza de sua profissão. Lenhador, Robert pertence a um clube restrito de trabalhadores que passam semanas isolados na mata, cortando madeira, convivendo mais com o som do machado do que com vozes humanas.

Essa distância não é apenas geográfica; é emocional. Ele casa, forma família, constrói uma casa num bosque afastado daquele onde trabalha — mas mantém, ainda assim, uma vida paralela ao mundo. A conexão que possui com a esposa e os filhos é moldada pela ausência constante. O isolamento é parte da identidade dele, quase um código de honra silencioso. O filme, em seu primeiro terço, é descritivo: mostra o ritmo da madeira sendo cortada, a luz entrando pelas árvores, o cheiro implícito da serragem e da terra úmida. Nada de carros, nada de televisão, nada de rádio — embora o século XX avance lá fora, com aviões cruzando céus invisíveis e cidades crescendo, nada disso penetra o universo do protagonista.

A fotografia assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso — concorrendo ao Oscar de Melhor Fotografia — é absolutamente deslumbrante. Cada plano parece uma pintura: contrastes entre luz e sombra, verdes profundos, o dourado do entardecer recortando a silhueta do lenhador. Não há exagero técnico; há precisão estética. A câmera respeita o tempo do personagem, e isso é decisivo para o impacto do filme. Tudo é contido, mas nada é frio. A beleza da floresta não é cenário, é extensão do estado interior de Robert.

Então vem a tragédia.

A solidão depois do fogo

Ao retornar de uma viagem de trabalho, Robert avista a fumaça. O incêndio devora a área onde vive sua família. Quando chega, já não há nada: a casa foi reduzida a cinzas, e os corpos desapareceram no fogo. Não há despedida, não há ritual, não há luto possível. A partir daí, Sonho de Trem muda de natureza. O que era bucólico e contemplativo torna-se um estudo sobre a solidão absoluta.

A solidão estrutural da profissão — aquela que ele sempre aceitou como parte da vida — agora se soma à solidão da perda. Não há suporte psicológico, não há vizinhança, não há comunidade que o acolha. Ele decide permanecer ali, morando nos restos reconstruídos da casa, como se a espera pudesse trazer de volta aquilo que o fogo levou. Anos se passam. O mundo moderno avança fora de quadro, mas o filme insiste no silêncio da floresta. O isolamento torna-se quase patológico. É a solidão da incapacidade de resolver o trauma, da ausência de reparação emocional.

No meio desse percurso, Robert constrói uma amizade discreta com uma mulher que também vive afastada da cidade. Há momentos de ternura, mas ele nunca consegue atravessar completamente o muro que construiu ao redor de si. O luto se transforma em identidade. A floresta deixa de ser abrigo e passa a ser prisão.

E então, quase aos 80 anos, algo muda. Não por milagre, não por intervenção externa grandiosa. Simplesmente por exaustão existencial. Robert decide ir à cidade — pela primeira vez em décadas. O contraste é sutil, mas poderoso. Ele descobre aviões, descobre o ruído do mundo, descobre que há máquinas que voam. A cena final, com ele dentro de um avião, é simbólica sem ser óbvia. Não se trata de tecnologia; trata-se de libertação. Pela primeira vez, ele se permite sair da condição de ermitão e reconciliar-se com a própria vida. Não com o passado — porque o passado não volta — mas com a possibilidade de continuar.

Vale a pena

Sonho de Trem é um filme curto, introspectivo e profundamente bonito. Não é um drama explosivo, mas uma meditação visual sobre solidão, perda e reconciliação tardia. Vale muito a pena, especialmente pela fotografia extraordinária de Adolpho Veloso: cada quadro é luz e sombra dialogando com o estado emocional do protagonista. É um filme que exige silêncio do espectador — e, em troca, oferece uma experiência sensível e duradoura.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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