Endividamento da população

Servidor precisa viver com ‘salário do futuro’

“Sem reajuste digno, o governo empurra o servidor para o crédito longo. Ele pagará muito mais juros ao banco”, afirma o economista Paulo César de Souza

Sem qualquer proposta para a reposição das perdas salariais acumuladas de mais de 15% desde 2019, segundo os cálculos dos sindicatos, o governo federal colocou em vigor na última semana um pacote de medidas que amplia o prazo do crédito consignado para servidores públicos de 96 para 120 meses – o equivalente a 10 anos.

Em paralelo, entrou em vigor a redução da margem consignável de 45% para 40% da renda bruta. Para especialistas, a combinação é perversa: “sem reajuste digno, o governo empurra o servidor para o crédito longo. Ele pagará muito mais juros ao banco”, afirma o economista Paulo César de Souza.

Com os salários congelados e a inflação corroendo o poder de compra, muitos servidores recorrem ao consignado para sobreviver. Agora, com o teto de 40%, a margem de manobra diminui. Para conseguir novo crédito, o trabalhador será forçado a alongar prazos antigos ou aceitar contratos de uma década.

Quanto mais longo for o prazo do contrato mais os bancos ganharão. Isso porque cobram juros por mais tempo sobre o mesmo dinheiro, com risco quase zero (desconto automático em folha).

A justificativa do governo para a redução da margem de 45 para 40% é a de que seria uma medida para proteger o servidor do superendividamento. Na realidade, uma medida paliativa que pressiona o servidor a contratar dívidas mais longas e com isso, pagar mais juros aos bancos. “É uma política que beneficia o sistema financeiro”, denuncia Rudinei Marques, presidente da Confederação dos Trabalhadores do Serviço Público (CONDSEF).

“Governo negocia com banqueiros, não com servidores. Sem reposição, a necessidade de crédito vira dependência. E o governo, ao invés de corrigir o salário, amplia o prazo da dívida para 10 anos. O servidor pagará até 2036”, conclui Marques.

Os trabalhadores devem exigir a reposição integral das perdas salariais e denunciar que as medidas do governo vão piorar ainda mais a atual situação de endividamento crônico dos servidores públicos e dos trabalhadores e que servem apenas para favorecer o parasitismo dos bancos.

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