O governo Lula deve discutir, em maio, no Conselho Nacional de Política Energética, o aumento da mistura de etanol na gasolina de 30% para 32%. A medida responde à alta do petróleo provocada pela guerra de agressão contra o Irã, após os bombardeios dos Estados Unidos e de “Israel” e o fechamento do Estreito de Ormuz.
A decisão pode reduzir a dependência da gasolina importada. Mesmo sendo produtor de petróleo e contando com a Petrobrás, o Brasil importa cerca de 15% da gasolina que consome. Com a mistura em 32%, essa importação poderia cair aproximadamente 5%. O problema é que o País tem petróleo, refinarias, etanol, biodiesel, engenheiros e pesquisa, mas o trabalhador segue pagando no posto um preço amarrado ao dólar, ao barril internacional e às crises provocadas pelo imperialismo.
A crise atual não nasceu com a guerra no Irã. A guerra apenas revelou uma fraqueza antiga. O ponto decisivo mais recente foi o governo de Michel Temer, que adotou o Preço de Paridade de Importação (PPI). Com essa política, os combustíveis passaram a acompanhar o petróleo internacional, o dólar e os custos de importação. Na prática, o Brasil passou a cobrar combustível como se importasse tudo, mesmo produzindo petróleo e tendo refinarias construídas com dinheiro público.
Esse sistema favorece importadores, acionistas e especuladores. A Petrobrás produz no Brasil, mas o preço acompanha o exterior. Uma guerra no Oriente Próxima, uma alta do dólar ou uma manobra das bolsas de valores aparecem rapidamente na bomba. Bolsonaro aprofundou esse caminho com a venda da BR Distribuidora, transformada em Vibra Energia, e da refinaria Landulpho Alves, entregue ao grupo Mubadala.
A venda da BR retirou da Petrobrás seu principal braço de contato com o consumidor. Antes, a empresa atuava da exploração à distribuição. Depois da privatização, as margens cresceram. A refinaria baiana mostra a mesma política: foi vendida por US$1,8 bilhão, embora estimativas apontassem valor superior a US$3 bilhões, e a Bahia passou a registrar gasolina acima da média nacional.
Entre janeiro de 2019 e fevereiro de 2022, mais de 60 ativos da Petrobrás foram vendidos. O objetivo era reduzir a empresa à extração, sobretudo no pré-sal, e abrir o refino, a distribuição e a indústria para grupos privados. Esse é o caminho de um país atrasado: exportar óleo cru, importar derivados ou aceitar preços definidos por importadores.
A Petrobrás ainda opera 10 refinarias no Brasil, com capacidade líquida de 1,851 milhão de barris por dia, e desenvolve combustíveis como o Diesel R. O problema, portanto, não é técnico, mas político. A empresa é teoricamente gerida pelo governo, mas segue como sociedade de economia mista, com ações negociadas na Bolsa, inclusive em Nova Iorque. Em vez de servir plenamente ao desenvolvimento nacional, é pressionada por acionistas estrangeiros.
Temer e Bolsonaro aprofundaram o desmonte, mas a contradição já existia. Nos primeiros governos Lula, não se avançou na estatização completa da Petrobrás nem na redução da dependência dos acionistas privados. Depois do golpe contra Dilma Rousseff, essa abertura foi usada para impor o PPI, vender ativos e fatiar a empresa.
A contradição aparece nos dividendos. Em 2024, a Petrobrás lucrou R$36,6 bilhões e anunciou R$75,8 bilhões aos acionistas; no mesmo ano, distribuiu R$102,6 bilhões em dividendos.
A guerra no Irã deixou claro o absurdo nacional: o Brasil tem petróleo, tecnologia, refinarias e biocombustíveis, mas o trabalhador paga no posto o preço ditado pelo dólar, pela guerra e pelos interesses privados.



