Na edição dessa quinta-feira (6) do programa Análise Internacional, Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), analisou o envolvimento direto da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na guerra contra a Rússia, a situação do imperialismo diante do Irã, a campanha da imprensa sobre um suposto desarmamento do Hamas e a situação das Forças Armadas brasileiras.
Transmitido todas as quintas-feiras, às 12h30, pelo canal do Diário Causa Operária no YouTube, em parceria com o canal Arte da Guerra, o programa também contou com a participação do comandante Robinson Farinazzo e foi apresentado por João Jorge Pimenta e Victor Assis.
‘É uma guerra da OTAN contra a Rússia’
A participação cada vez maior da OTAN na guerra da Ucrânia foi um dos principais assuntos do programa. Para Pimenta, as informações sobre a integração entre as forças ucranianas e a estrutura militar da organização confirmam que o conflito deixou há muito tempo de ser uma simples guerra entre Rússia e Ucrânia.
“Essa denúncia que foi feita é muito interessante, ela confirma o que os russos falaram e o que nós temos falado. É uma guerra da OTAN contra a Rússia. E confirma também que a estrutura política e militar da Ucrânia não se sustentaria sem o apoio do imperialismo. Quer dizer, fica completamente desmascarada a coisa. Agora, o imperialismo em geral não tem alternativa senão fazer o que eles estão fazendo. O colapso da Ucrânia significaria uma derrota muito grande para o imperialismo, uma desmoralização política e militar. Então eles têm que dar sustentação até onde eles conseguirem para a continuidade da guerra. Agora fica claro: não é Rússia contra Ucrânia, é a OTAN. A Ucrânia se transformou num país que está completamente dominado pelo imperialismo, em todos os sentidos.”
Segundo o presidente do PCO, uma derrota ucraniana representaria tamanho golpe político e militar para o imperialismo que os países da OTAN são obrigados a sustentar a guerra enquanto puderem.
A intervenção direta da organização também aumenta o risco de um confronto aberto com a Rússia.
“Essa ingerência da OTAN, essa presença em grande escala da OTAN, coloca o problema da guerra da Rússia contra os países imperialistas, particularmente a União Europeia, que é quem está mais diretamente envolvida. Mas os Estados Unidos estão envolvidos também. E uma guerra com essas características seria uma coisa muito desastrosa. Eu acho que é como o comandante falou: a gente caminha para essa guerra. O imperialismo procura derrotar a Rússia por meio de ações que não levem até o conflito militar direto, mas a coisa caminha nesse sentido. Só o colapso da Ucrânia impediria, na minha opinião, essa guerra e a contenção dos russos. Porque, da maneira como há ingerência da OTAN na guerra, os russos já poderiam ter retaliado. Eles estão se contendo.”
Irã deu ‘xeque-mate’ no imperialismo
A situação no Estreito de Ormuz e em Bab-el-Mandeb também foi discutida. Pimenta chamou atenção para o fato de que, mesmo com todos os recursos militares dos Estados Unidos, o imperialismo não conseguiu romper o bloqueio imposto pelo Irã e pelo Iêmen.
“A gente sempre tem a ideia, porque nós temos uma vasta experiência, de que o imperialismo tem recursos, apesar de que nós também caracterizamos que o imperialismo está numa crise muito grande. Então, você olha com uma certa cautela aquilo que parece ser um verdadeiro xeque-mate que os iranianos deram na região. Fecharam o Estreito de Ormuz. Os norte-americanos estão lá já numa guerra que já dura uns três meses, não conseguiram abrir o estreito, o impasse continua. E o Iêmen fechou o outro estreito, o de Bab-el-Mandeb. Quer dizer, estrangularam completamente a possibilidade de exportação de petróleo das monarquias do Golfo Pérsico.”
O dirigente do PCO ressaltou ainda que o Irã poderia adotar medidas muito mais duras contra as monarquias árabes aliadas dos Estados Unidos, especialmente contra sua infraestrutura petrolífera.
“O Irã não fez o que ele poderia fazer, que seria uma política muito mais dura do que ele está empregando nesse momento, que é destruir as instalações das monarquias, principalmente as instalações energéticas, petroleiras. Ele poderia fazer isso com relativa facilidade. Eles estão fazendo um bloqueio, quer dizer, é uma guerra que eles travam que, na realidade, até certo ponto, é de baixa intensidade, é controlada. E isso só ressalta o fato de que a situação do imperialismo e dos seus aliados lá é muito grave.”
Na avaliação de Pimenta, caso um acordo seja concluído, as monarquias do Golfo ficarão ainda mais dependentes da correlação de forças estabelecida pelo Irã.
“A hora que o imperialismo concluir um acordo, os países do Golfo vão ficar numa situação muito delicada, porque na realidade eles vão estar na mão dos iranianos”, afirmou.
A crise também beneficia diretamente os principais aliados internacionais de Teerã.
“O que está acontecendo lá é uma vitória do trio mais odiado pelo imperialismo: China, Rússia e Irã. Os iranianos estão comprando armas da Rússia, da China, quer dizer que eles não estão enfrentando problema de suprimento, eles têm a sua própria indústria e ainda estão comprando armas de fora, estão vendendo o petróleo deles. É um desastre para o imperialismo. Por isso que o acordo é tão difícil. O Trump quer ver se ele sai do conflito com alguma coisa que permita a ele dizer que foi uma vitória, mas na verdade é uma derrota impressionante.”
‘É mentira descarada’ que Hamas aceitou desarmamento
Na discussão sobre a Palestina, João Jorge Pimenta mencionou notícias segundo as quais o Hamas teria aceitado entregar suas armas como parte de um acordo. Rui Costa Pimenta classificou a informação como falsa.
Segundo ele, o que chegou a ser discutido foi a possibilidade de recolhimento das armas pesadas sob custódia de uma autoridade palestina independente, e somente depois do cumprimento integral do acordo.
“É mentira isso. A imprensa, para variar, a grande imprensa nacional, internacional, a imprensa do imperialismo, é muito mentirosa, é uma mentira descarada. Nós sabemos, por fontes do próprio Hamas, que não aconteceu absolutamente nada disso. No acordo que o Hamas fez um tempo atrás, não está previsto o desarmamento do Hamas. Está prevista a possibilidade de o Hamas recolher, sob a custódia de uma autoridade palestina independente, as suas armas pesadas, como sinal de fim do confronto. Então, quer dizer, não há nem no acordo uma proposta de desarmamento total do Hamas. Só que o Hamas enfatizou que, a menos que sejam cumpridas integralmente todas as cláusulas do acordo, nem essa medida de recolher as armas é possível.”
Pimenta denunciou a notícia como parte da campanha para desmoralizar a resistência palestina.
“Eles estão lá lutando contra esse monstro, que é o sionismo, ou seja, todo o imperialismo. Perderam inúmeros combatentes. E o que impede o sionismo de evacuar completamente os territórios palestinos é a resistência armada”, afirmou.
Respondendo depois a uma pergunta do público sobre a Cisjordânia, o presidente do PCO voltou ao problema das armas e das consequências do desarmamento palestino.
“O mundo em que nós vivemos não é um mundo pacífico, ele é um mundo violento, brutal até e, em grande medida, selvagem. Se você não quiser ser completamente esmagado, você precisa se armar. Todo mundo que pensa minimamente sabe disso. Veja o debate no Irã sobre o problema da bomba atômica. Quantas pessoas não falaram que, se o Irã tivesse a bomba atômica, essa agressão do imperialismo, se não dá para dizer que não teria acontecido, teria sido muito mais difícil.”
Para Pimenta, a posição do Hamas é resultado da própria experiência dos palestinos.
“Quem está desarmado é, digamos assim, voluntário para ser esmagado. Por isso que o Hamas falou que não vai abrir mão das armas. Ele só abriria mão das armas se se constituísse uma Força Armada palestina, em Gaza. Sem isso daí, não tem jeito”, disse.
Ele comparou a resistência em Gaza com a situação na Cisjordânia e atribuiu a liberdade de ação do sionismo na região à política de Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, também apoiado pelo PT.
‘Para que servem as Forças Armadas brasileiras?’
A declaração do ministro da Defesa sobre uma eventual invasão norte-americana ao Brasil também entrou no debate. Pimenta afirmou que o problema não é apenas militar, mas fundamentalmente político.
“A declaração do ministro da Defesa não é uma questão exclusivamente militar, é uma questão política. O ministro da Defesa deveria falar que, se o Brasil for invadido, seja por quem for, o País vai resistir à invasão. Aí ele poderia falar que o País está despreparado. Agora, falar que se os Estados Unidos forem invadir ele vai abrir o portão é uma declaração muito desmoralizante, na minha opinião. Depois, a resistência de um país à violência de um outro país não se dá apenas em termos diretos. Você pode organizar a resistência popular. Você pode fazer o que o pessoal hoje em dia chama de guerra assimétrica.”
Pimenta afirmou que uma declaração como essa põe em dúvida a própria função das Forças Armadas.
“Quando uma autoridade vem e fala assim: ‘eu vou abrir o portão’, a gente fica perguntando para que servem as Forças Armadas brasileiras. Seriam o quê? Um cabide de emprego? Eu achei a declaração impossível. Não fosse o fato de que isso aqui tudo é uma grande avacalhação, ele já teria sido exonerado”, declarou.
Trump abriu crise no próprio movimento
Uma pergunta do público tratou de uma eventual candidatura do jornalista norte-americano Tucker Carlson à Presidência dos Estados Unidos. Para Pimenta, a possibilidade revela a crise produzida por Donald Trump dentro do próprio movimento que o levou à Casa Branca.
“Isso aí mostra que o Trump criou uma crise no seu próprio movimento e fez com que uma parcela do movimento trumpista se deslocasse para a esquerda. A questão da guerra é uma questão essencial. Eu acho que o Trump não tinha disposição de fazer isso, mas ele se iludiu com relação às consequências de trair o próprio programa que ele defendeu na eleição. E agora ele deve estar muito preocupado com o futuro político dele. Esse Tucker Carlson foi uma das pessoas que ajudou a eleger o Trump. Foi um apoio importante. E agora ele está se posicionando para correr por fora, defendendo o programa, não a pessoa. É um desdobramento muito interessante que a gente não vê na esquerda norte-americana, a de conseguir romper com o Partido Democrata.”
Nicarágua e a ingerência imperialista
Pimenta também comentou a campanha segundo a qual a Nicarágua acabaria com as eleições. A denúncia surgiu em torno de uma sugestão do presidente Daniel Ortega de que os golpistas pagos pelo imperialismo não possam participar das eleições.
O presidente do PCO criticou setores da esquerda que reproduziram as acusações da imprensa contra o governo nicaraguense.
“O pessoal sai atirando sem saber o que está acontecendo. Como a imprensa direitista fala o que quer e faz campanha contra a Nicarágua, uma parte da esquerda pequeno-burguesa vai lá e começa a jogar tinta na Nicarágua, mesma coisa com a Venezuela. É uma política capituladora diante do imperialismo. Essa lei que o governo da Nicarágua está procurando aprovar, não sei se já aprovou, existe no Brasil. Só que não vale nada. No Brasil você não pode ser apoiado por organizações estrangeiras na eleição, isso daí é muito claro.”
Pimenta defendeu que organizações estrangeiras não possam intervir na política nacional.
“Não poderia ter essas ONGs internacionais interferindo na política nacional. De jeito nenhum. Tanto que em vários países elas foram proibidas, não é só na Nicarágua, foram proibidas na Rússia, por exemplo. Isso é uma infiltração estrangeira dentro do país”, disse.




