Análise Internacional

Rui Costa Pimenta: ‘imperialismo foi obrigado a recuar’

O cessar-fogo entre Irã e EUA expôs a derrota da ofensiva imperialista, segundo o presidente do PCO; ataque do sionismo ao Líbano agravou a crise

No programa Análise Internacional, do Diário Causa Operária, transmitido nesta quinta-feira (9), Rui Costa Pimenta afirmou que o cessar-fogo de duas semanas anunciado após os combates entre o Irã, os Estados Unidos e “Israel” expressa um recuo do imperialismo norte-americano. Segundo ele, a escalada militar tornou-se insustentável para os EUA, que recuaram depois de não conseguirem impor sua ofensiva ao país persa

De acordo com Pimenta, o elemento central da situação é que o imperialismo interrompeu sua atividade militar sem alcançar seus objetivos, ao mesmo tempo em que o governo norte-americano passou a emitir versões contraditórias sobre o acordo.

“Em primeiro lugar, fica evidente que o imperialismo norte-americano foi obrigado a recuar. A situação de confronto com o Irã começou a ficar insustentável para ele. Ele recuou. Foram apresentadas as exigências do Irã que o governo norte-americano teria aceitado. Depois ele desmentiu essa afirmação dizendo que não teria aceitado essas exigências. (…) Mas a questão-chave é a seguinte: o imperialismo foi obrigado a interromper a sua atividade militar. Da declaração bombástica do Trump de que acabar com uma civilização, nós tivemos aí um recuo evidente, um recuo incontroverso.”

Ainda segundo o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), a imprensa burguesa procura apresentar a situação como uma derrota iraniana ou como um cessar-fogo sem peso político, mas, para ele, isso encobre um fato decisivo: o fracasso da agressão contra o Irã. Pimenta afirmou que o imperialismo não conseguirá conviver de maneira estável com esse resultado e classificou a derrota como extremamente significativa

Ao comentar os termos apresentados no programa como base do acordo, os participantes citaram garantia de não agressão ao Irã, manutenção do controle sobre o Estreito de Ormuz, fim dos conflitos regionais, retirada de tropas norte-americanas da região, reparações de guerra, reconhecimento do direito iraniano ao enriquecimento nuclear e suspensão de sanções impostas pelos EUA, pela AIEA e pela ONU. Para Pimenta, a única vantagem do imperialismo em aceitar essas condições seria evitar uma crise ainda maior, sobretudo em torno do estreito, peça central do comércio internacional de petróleo

Pimenta também rejeitou a tese de que o Irã teria cometido um erro ao aceitar a trégua. Segundo ele, Teerã manteve intacta sua capacidade militar e sabe que não pode depositar qualquer confiança na palavra dos dirigentes imperialistas, uma vez que a própria guerra começou em meio a negociações.

“Não, acho que não faz sentido isso. O Irã mantém o seu poder de fogo. Lógico que os iranianos sabem que o imperialismo não merece a menor confiança, não existe a possibilidade de acreditar na palavra dos dirigentes imperialistas, nunca cumpriram nada. Basta ver que esse conflito começou no meio de uma negociação. O Trump estava negociando com o Irã e no meio da negociação, sem qualquer aviso, atacaram, que é outra coisa criminosa. (…) Foi o imperialismo que buscou o acordo, não o Irã. Por algum motivo, o imperialismo recuou. Ele não estava aguentando a situação. Então, mesmo que a situação não se consolide totalmente, não há dúvida de que o que nós estamos vendo aqui é uma vitória do Irã sobre o imperialismo.”

Outro ponto tratado no programa foi a crise do governo Donald Trump. Pimenta avaliou que o presidente norte-americano colheu um fracasso histórico, abriu espaço para a ofensiva de seus adversários e agora não encontra uma saída política para o impasse criado pela guerra. Segundo ele, Trump tentou conciliar sua demagogia “anti-guerra” com a pressão do aparato imperialista e acabou assumindo uma política que não era originalmente a sua, com resultado desastroso

“O governo Trump perdeu o rumo, não sabe o que fazer”, afirmou Pimenta, ao lembrar que o próprio mediador paquistanês declarou que os pontos apresentados pelo Irã haviam sido aceitos, enquanto Trump passou a negar o acordo sem explicar quais termos teria de fato aprovado

A crise foi aprofundada, segundo os participantes, pelo ataque lançado pelo sionismo contra o Líbano poucas horas depois do cessar-fogo. No balanço lido durante o programa, foram mencionados 150 ataques aéreos coordenados contra Beirute, o sul libanês e o Vale do Becá, com 254 mortos e pelo menos 1.165 feridos em estado grave, segundo órgãos libaneses citados na transmissão.

Para Pimenta, a operação mostrou que o governo de Netaniahu procurou obter algum resultado militar antes que o cessar-fogo se impusesse de maneira mais firme. Ao mesmo tempo, disse ele, a ação agravou o desgaste internacional do sionismo.

“Se fosse apenas para desfazer o acordo, qualquer ataque serviria. Mas eles fizeram um ataque (…) o maior ataque que já foi realizado contra o Líbano. Dá impressão de que é assim: vamos fazer um ataque de grandes proporções antes que a gente seja impedido de atacar. (…) Vários países falaram que o Líbano deveria ser incluído nos acordos. E o ataque piorou ainda mais a imagem do sionismo internacionalmente.”

Ao tratar da relação entre os EUA e “Israel”, Pimenta rejeitou a tese de que o sionismo controlaria o imperialismo norte-americano. Segundo ele, os EUA dependem do Estado sionista como instrumento de repressão regional, embora não controlem integralmente cada um de seus movimentos. Nessa mesma parte do programa, ele afirmou que parte importante da esquerda brasileira adotou uma posição convergente com a ofensiva imperialista ao apoiar mobilizações internas contra o regime iraniano, mesmo após Donald Trump reconhecer o envio de armas a forças atuantes no país

“Uma boa parte da esquerda (…) apoiou as manifestações que foram realizadas. Só que no meio dessa guerra, o Trump reconheceu que ele mandou armas para pessoal no Irã. Quer dizer, aquilo foi uma tentativa de insurreição organizada pelo imperialismo, reconhecida pelo próprio Donald Trump contra o regime iraniano. (…) A esquerda, o Netaniahu e o Trump querem derrubar o regime iraniano.”

O programa também abordou o aprofundamento da crise no interior do bloco imperialista. Ao comentar a notícia de que Trump cogitava retaliar países da OTAN pela falta de apoio contra o Irã, Pimenta disse que a própria ameaça revela o isolamento norte-americano e o fracasso da tentativa de organizar uma ação conjunta do bloco atlântico.

“Mas o fato de ele ir atrás da OTAN, de ele verbalizar esse tipo de ameaça, mostra o tamanho da crise. Por que ir atrás da OTAN? Ele não conseguiu nada, ficou desamparado, queria uma operação conjunta com a OTAN contra o Irã. Não conseguiu nada no Irã, está saindo derrotado. Então agora ele está procurando os bodes expiatórios.”

Na parte final, Pimenta relacionou a guerra no Oriente Médio à crise mais ampla do imperialismo. Ao comentar as discussões sobre comércio entre Rússia e China fora do dólar, ele afirmou que a ruptura com a ditadura da moeda norte-americana é uma necessidade política para países que enfrentam a pressão imperialista. No caso do Irã, segundo ele, os ataques econômicos mostraram que não há independência real sem independência financeira.

Ele também comentou a situação da América Latina e afirmou que o Brasil tende a ser cada vez mais pressionado pelos EUA. Segundo Pimenta, o País teria condições materiais superiores às do Irã em vários aspectos, mas seu regime político permanece amplamente dominado pelo imperialismo. Como exemplo, citou o projeto de Tabata Amaral em defesa do sionismo e disse que o Congresso Nacional está submetido a essa política.

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