Análise da 3ª

Rui Costa Pimenta: ‘é muito difícil que o PT se separe de Moraes’

Presidente do PCO afirmou que escândalo envolvendo ministros do STF tende a pesar sobre disputa presidencial e a aprofundar crise do governo Lula

Na edição desta terça-feira (14) do programa Análise da 3ª, da Rádio Causa Operária, Rui Costa Pimenta afirmou que o caso do Banco Master tende a ocupar um lugar central na disputa eleitoral de 2026 e a aprofundar a crise política em torno do governo Lula. Ao comentar o pedido de indiciamento de ministros do Supremo Tribunal Federal no âmbito da CPI do crime organizado no Senado, Pimenta declarou que o episódio não encerra a crise, mas aponta para seu agravamento.

Segundo ele, o escândalo atinge em cheio a articulação entre o PT e o STF, construída nos últimos anos em nome da chamada defesa da democracia. Para Pimenta, essa vinculação tornou-se agora um problema político de grandes proporções para o próprio governo.

“Não há dúvida nenhuma de que o inquérito do Banco Master vai ser um ponto-chave na eleição. Os comentários da maior parte da imprensa que o Lula largou a mão do Alexandre de Moraes, prevendo que a coisa vai incidir sobre a eleição. Não há dúvida, isso daí já é um sinal. Apesar de que o Lula fez isso de uma maneira muito desajeitada, dando o conselho ao ministro de como escapar da crítica da mulher dele ter recebido 80 milhões de reais do Banco Master.”

Ainda sobre esse ponto, Pimenta disse que o PT terá dificuldades para se desvincular de Alexandre de Moraes, uma vez que o partido, o governo e os ministros indicados por Lula ao Supremo sustentaram o magistrado durante todo o período anterior. Na avaliação dele, isso enfraquece a campanha petista e dá novo peso às denúncias já em circulação.

“O juiz justiceiro apontado aí como baluarte da democracia, um homem que foi considerado por muita gente como sendo o pilar de defesa do regime político brasileiro, democracia e estado de direito, colocou um monte de gente na cadeia por coisas absurdas. Ele comandou todo um processo, é muito difícil que o PT consiga se separar nitidamente do Alexandre Moraes. A biografia do Alexandre Moraes está intimamente ligada com o PT.”

Ao tratar do cenário eleitoral, Pimenta afirmou que a polarização entre o PT e o bolsonarismo continua sendo o eixo da disputa, mas avaliou que o governo Lula chega ao processo sob desgaste. De acordo com ele, a burguesia busca alternativas, ao mesmo tempo em que pressiona pela retirada de Lula da corrida presidencial.

“O Banco Master é um problema sério para o Lula na eleição, seríssimo. E nós ainda temos o inquérito do INSS, não se tem falado nisso, mas ele está aí. Tem dados sobre o filho do Lula, que vão aparecer também na eleição. Quer dizer, a situação do PT é delicada. O Lula tem procurado estabelecer um amplo arco de aliança com elementos direitistas, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul. Mas vai ser suficiente isso daí para superar a crise que a candidatura Lula está passando? Essa é a pergunta que fica.”

Em outro momento do programa, Pimenta comentou as declarações do advogado Marco Aurélio de Carvalho sobre a tentativa de Fernando Haddad de estabelecer uma frente com o PSDB em São Paulo. Para ele, o partido tucano já perdeu a relevância que teve no passado e hoje representa apenas setores descartados pela própria burguesia.

“O PSDB de São Paulo é uma pálida sombra do que ele foi no passado. O PT aqui em São Paulo procura criar uma frente ampla com aquilo que o Trótski chamou de sombra da burguesia. São políticos burgueses que a burguesia já descartou. O PSDB é esse partido. O partido dos políticos burgueses que foram descartados pela burguesia.”

Pimenta também atacou os elogios feitos por Haddad ao PSDB e afirmou que a experiência tucana representou uma etapa de aprofundamento da política de submissão do País ao imperialismo.

“Os elogios que o Haddad faz ao PSDB são inacreditáveis. O PSDB foi a pior coisa que aconteceu no Brasil. Economicamente foi pior. O que o regime militar começou e encaminhou, foi bastante coisa a favor do imperialismo, o Fernando Henrique Cardoso elevou às alturas nunca antes imaginadas.”

Ao comentar a nova declaração de Lula de que será candidato, Pimenta afirmou que o presidente recuou diante da pressão política e tentou dar uma resposta pública à crise, mas avaliou que isso não altera os problemas enfrentados pelo governo. Na análise dele, o balanço dos anos petistas é negativo e não oferece base sólida para uma campanha tranquila.

“Eu acho que ele está preocupado com o aumento da pressão. O PT vai tentar reverter essa situação com o Lula. Sem dúvida nenhuma. Eu acho que, como sempre aqui, opera muito o otimismo do PT. O PT é otimista e ele não deixa de ser otimista, mesmo quando o barco afunda. O governo do PT foi um governo muito insatisfatório. Não há grandes realizações, o governo foi medíocre, muita gente do próprio PT considera que o governo do Lula foi uma decepção.”

Pimenta declarou ainda que o problema do INSS e as notícias sobre ligações de pessoas próximas ao filho de Lula com viagens e despesas de alto valor tendem a permanecer no centro da disputa, independentemente do desfecho jurídico dos casos. Segundo ele, o impacto eleitoral não depende apenas de prova formal, mas da maneira como os fatos aparecem diante do eleitorado.

“Na hora da eleição, o que vale são as aparências. Eleição não é um julgamento. Não tem a ver com a lei. Tem a ver com a aparência. Tem a ver com a maneira como as coisas são apresentadas e assimiladas pelo eleitorado. A manipulação eleitoral se baseia nessas aparências.”

O presidente do PCO também abordou a situação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, mencionado nas discussões sobre o caso Banco Master. Para Pimenta, a indicação de Gonet por Lula foi um dos erros centrais do governo na composição dos órgãos do Judiciário e da repressão estatal.

“A primeira coisa que é preciso falar sobre Paulo Gonet é que esse foi um dos erros mais importantes nas indicações que o Lula fez para os órgãos públicos. Paulo Gonet é um lavajatista. O Lula colocou na Procuradoria-Geral da República um lavajatista. O simples fato de ter sido pedido um indiciamento já é grave, já joga lenha na fogueira do escândalo que envolve os ministros, o Paulo Gonet e tudo mais.”

No bloco seguinte, ao responder perguntas enviadas pelos ouvintes, Pimenta afirmou que o PT não conseguiu fazer uma campanha séria contra o caráter entreguista do bolsonarismo. Segundo ele, o partido preferiu insistir em denúncias secundárias, sem apresentar ao povo um debate mais profundo sobre a política econômica da direita.

“O PT nunca faz campanha séria. É tudo picuinha. Isso daí não muda a opinião das pessoas. A posição do bolsonarismo é entreguista, via inclusive as declarações do Flávio Bolsonaro. A política que ele está propondo é uma política neoliberal, pró-imperialista. Agora, cadê a campanha? As declarações econômicas do Flávio Bolsonaro mereceriam uma campanha séria, um debate sério na população. O PT não faz.”

Pimenta também criticou Jones Manoel, que anunciou sua saída do PCBR, e afirmou que sua conduta expressa carreirismo político e adaptação ao regime eleitoral. Segundo ele, a construção de um partido revolucionário não pode estar subordinada ao projeto individual de eleger um parlamentar.

“Primeiro a gente precisaria ver se o Jones Manoel é comunista, porque, na minha opinião, ele é apenas Jones-Manuelista. Ele é partidário dele mesmo. Um partido revolucionário não é construído para eleger deputado. Se ele puder eleger deputado, muito que bem. O partido revolucionário deve ser construído para organizar a vanguarda revolucionária. O deputado não muda nada. O País não vai mudar por causa de eleições.”

Na parte internacional do programa, Pimenta comentou a derrota de Viktor Orbán na Hungria e afirmou que o resultado representa uma vitória do imperialismo europeu sobre um governo que vinha se chocando com a política da União Europeia em torno da guerra na Ucrânia.

“Viktor Orbán foi derrotado pelo imperialismo. O Viktor Orbán é um candidato de direita, até de extrema direita, mas o outro candidato é o candidato do imperialismo europeu. Não há dúvida nenhuma sobre isso. O ponto central da disputa na Hungria foi esse. É uma vitória do imperialismo, sem dúvida nenhuma.”

Por fim, ao tratar da situação no Golfo Pérsico e das declarações de Donald Trump sobre o Estreito de Ormuz, Pimenta afirmou que a posição norte-americana demonstra fraqueza diante da vitória iraniana no conflito recente. Segundo ele, a ameaça de ampliar o bloqueio da região revela que o imperialismo não conseguiu impor sua política ao Irã.

“Ele não conseguiu desobstruir o estreito, que é o principal problema dele. Então ele vai obstruir mais ainda. Agora mostra também a situação crítica do imperialismo. Isso mostra falta de alternativas. É uma demonstração de fraqueza extraordinária do imperialismo. Se o estreito permanecer bloqueado, nós vamos ter uma crise mundial de proporções inéditas.”

Na mesma resposta, Pimenta afirmou que a tentativa de abordar embarcações em alto-mar constitui um ato de pirataria e sustentou que a crise aberta pela ofensiva contra o Irã terminou por expor a incapacidade dos Estados Unidos de alcançar seus objetivos.

“Os iranianos falaram corretamente que essa decisão dele é um ato de pirataria. Ele vai abordar os navios em pleno mar e vai sequestrar o navio. É um ato de pirataria. Eu acho que a decisão do Trump só confirma aquilo que nós falamos, que o Irã saiu vitorioso no enfrentamento.”

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