Pré-candidato à Presidência

Rui Costa Pimenta: ‘a Internet é uma revolução’

Militante há mais de 40 anos foi sabatinado pelo Kritikê Podcast na noite desta quinta-feira (28)

Nesta quinta-feira (28), os estúdios do Kritikê Podcast — cuja premissa é mostrar “o que as empresas não mostram” — receberam Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à presidência da República, para uma longa sabatina.

Esta será a quinta vez que o líder trotskista tenta concorrer ao Palácio do Planalto, tendo enfrentado uma impugnação no passado. Questionado se os objetivos da legenda mudaram desde a década de 1990, Rui Costa Pimenta foi categórico ao defender a solidez programática de sua agremiação em contraste com o pragmatismo eleitoral vigente:

“Sim, nós somos um partido que tem um programa definido. Nós não fazemos política de ocasião. Então, nesse sentido, se uma pessoa pegar a nossa propaganda eleitoral em 2002 e pegar a nossa propaganda hoje, vai ver que é muito semelhante, guardada, logicamente, a mudança nos acontecimentos.”

Para o dirigente, a grande transformação não ocorreu no PCO, mas sim na própria realidade material do país, sugerindo que o modelo institucional nascido após a ditadura militar atingiu o seu limite.

“Eu acho que nós estamos em uma encruzilhada. Há um esgotamento do regime político de 1988. Isso é muito visível. A gente vê que o surgimento do bolsonarismo é um sintoma desse esgotamento do regime.”

Com uma trajetória de mais de 40 anos de militância, Pimenta relembrou o isolamento das décadas passadas e celebrou o alcance do Partido nas redes sociais.

“A internet é uma revolução. Por muito tempo você era obrigado a falar para um auditório de 15 pessoas. Quando a situação era muito significativa, você falava para 100, 200 pessoas. Agora, eu falo na Internet para 10.000 pessoas. É uma mudança muito significativa.”

Contudo, se a capacidade de difusão de ideias cresceu, o diagnóstico do pré-candidato sobre a organização da classe operária brasileira é de refluxo, o qual ele atribui, em parte, à política adotada pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Segundo o dirigente, o longo período de gestões petistas no governo federal resultou no enfraquecimento das bases sindicais:

“Isso daí acarretou uma diminuição das lutas dos trabalhadores. Seria um exagero falar que é só o PT. Eu acho que a situação econômica também é um dado muito significativo. É muito difícil você ter luta operária quando você tem o nível de desemprego que o Brasil tem. Nós temos um quarto da população no Bolsa Família.”

A marginalização dos partidos revolucionários pelos meios de comunicação tradicionais também foi denunciada pelo entrevistado. Ele ilustrou o peso desse bloqueio ao relatar um episódio vivido dentro de um táxi, no qual o motorista, após debater política e ouvir que o passageiro fora candidato à presidência por quatro vezes, acendeu a luz do veículo, olhou-o pelo retrovisor e confessou nunca tê-lo visto na vida.

Esse cenário fundamenta a defesa intransigente e irrestrita da liberdade de expressão defendida pelo PCO. Ao ser provocado sobre os riscos dessa liberdade diante do avanço da extrema direita, Rui Costa Pimenta rejeitou qualquer tentativa de regulação estatal, argumentando que o verdadeiro monopólio da mentira pertence à imprensa capitalista:

“Mais mentira e manipulação do que você tem na grande imprensa é impossível. Então isso na verdade é uma censura da Internet, não é uma tentativa de bloquear fake news. A grande imprensa mente o tempo todo, oculta informações, distorce. Não acho que seja defensável a ideia de que você vai impedir o pessoal de propagar aí falsidades e mentiras censurando.”

No tocante à avaliação da atual gestão do Palácio do Planalto, Rui Costa Pimenta buscou desfazer mal-entendidos, negando que o PCO atue como uma linha de apoio cega ao governo. Ele definiu as críticas de seu partido como equilibradas e estruturais, e não de ocasião.

“Desde o começo nós assinalamos que o governo Lula era um governo fraco, que não tinha uma base institucional, ia ter que fazer muito acordo, muito malabarismo no Congresso para poder governar.”

Embora discorde daqueles que classificam o presidente como um neoliberal clássico, Rui Pimenta apontou que a condução econômica do governo acabou sendo capturada por essa política. Ele criticou duramente episódios em que Lula elogiou publicamente o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, pelas taxas de juros elevadas:

“O grande problema é apresentar isso aí como se fosse uma virtude. Por exemplo, eu vi uma entrevista do Lula que eu achei assim uma coisa do outro mundo. Ele elogiando, falando que o Brasil tinha que agradecer o Galípolo, o homem que levou a taxa de juros a 15%. Bom, se é assim, então a gente tem que agradecer o Campos Neto também, porque ele já estava nesse caminho. Não mudou nada, não faz sentido nenhum.”

Para romper com o ciclo de desindustrialização do País, o presidente do PCO defendeu um rompimento radical com o modelo atual, centralizado no pagamento de juros da dívida pública e no controle estrangeiro sobre os recursos energéticos nacionais. Rui Pimenta lamentou o destino de grandes empresas de engenharia pesada, como a Odebrecht, que outrora projetavam o capital técnico brasileiro no exterior e acabaram desmanteladas.

“A empresa privada nunca foi o motor do desenvolvimento brasileiro. O motor do desenvolvimento sempre foram as empresas estatais. Getúlio Vargas elaborou um plano para construir uma ampla infraestrutura industrial (…) Então eu acho que com o investimento direto do Estado, o Brasil poderia ter um resultado muito bom, mas não vai ter, porque o problema todo é político. O imperialismo domina o Brasil totalmente.”

 

A solução apontada pelo PCO para recuperar a capacidade de investimento e a soberania nacional passa pela centralização do crédito nas mãos do poder público. 

“Celso Furtado, que nós devemos considerar como um dos maiores economistas brasileiros, viu com clareza que a situação era insustentável e falou: ‘a única solução é estatizar o sistema financeiro brasileiro’.”

Ao analisar a ascensão da extrema direita e de novas legendas como o Partido Novo ou o recém-criado partido Missão (oriundo do MBL), Rui Costa Pimenta traçou uma linha divisória clara. Ele argumentou que, enquanto grupos como o MBL utilizam as redes sociais para criar uma “fachada ideológica” que atende aos interesses do grande capital financeiro, o bolsonarismo carrega uma natureza distinta, operando fora do esquema tradicional controlado por conglomerados como a rede Globo e o Banco Itaú.

A política externa ocupou uma parcela significativa do debate, evidenciando o alinhamento do PCO com movimentos de libertação nacional e o enfrentamento direto ao imperialismo. Rui Costa Pimenta reafirmou seu apoio ao partido palestino Hamas, rebatendo as acusações de apoio a ataques contra civis no dia 7 de outubro e atribuindo a autoria de parte das mortes civis à própria reação militar israelense.

“Nós sempre apoiamos o Hamas. O Hamas foi fundado na primeira Intifada (…) Quando nós ficamos sabendo da ação do Hamas no 7 de outubro, ainda não tinha aparecido todas as notícias (…) Eu falei: nós estamos totalmente do lado do Hamas, nós somos 1000% Hamas. Esse daí teve um impacto grande. E aí depois apareceu que o Hamas teria feito isso, aquilo, aquele outro. Só que tem um detalhe, não é verdade. O sionismo, o Estado de Israel, tem uma máquina de propaganda que é uma máquina de falsificação histórica.”

Encerrando a sabatina, o debate debruçou-se sobre as transformações no sistema produtivo diante da ascensão da inteligência artificial e da automação severa nas indústrias e centros de distribuição mundiais. Diante da indagação sobre o iminente desemprego em massa gerado pela substituição de operadores por maquinários autônomos, Rui Pimenta explicou que o atual estágio do modo de produção capitalista difere das crises dos séculos passados por não possuir mais a capacidade de reabsorver o contingente descartado. A saída proposta pelo programa revolucionário do PCO não reside no freio ao progresso tecnológico, mas na reorganização social do tempo de trabalho:

“É possível conviver com o avanço da tecnologia? É possível. Uma solução é reduzir a jornada de trabalho para dar lugar a que mais pessoas trabalhem. Ninguém disse que você tem que trabalhar 10 horas por dia, 8 horas por dia. Não existe essa determinação. O cidadão pode trabalhar quatro. Os patrões perderiam um pouco de dinheiro com isso (…) Se você não tivesse o empresário, se a empresa fosse um empreendimento social, o pessoal trabalharia menos. Agora, na atual situação, principalmente no Brasil, isso vai provocar um aumento do desemprego. Não há dúvida nenhuma.”

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