Sistema penitenciário

Ricardo Jones explica como foi seu tempo de cárcere

O médico relatou que passou por dois períodos distintos de prisão e vivenciou uma experiência diferenciada dentro do sistema penitenciário

Ricardo Jones

O médico Ricardo Jones, defensor do parto humanizado, explicou em entrevista exclusiva ao Diário da Causa Operária como foi sua experiência no sistema prisional, onde ficou preso de 28 de março de 2025 a 14 de abril de 2026. O profissional de saúde foi preso após acusação do Ministério Público, instado por Boletim de Ocorrência feito pelos pais de um bebê que morreu um dia depois do parto realizado na residência deles com apoio do médico.

O falecimento ocorreu no hospital, após o bebê ter sido levado com saúde ao centro médico, e ter sido acolhido por outra equipe que o deixou cerca de quatro horas em observação. A perícia solicitada pela defesa foi negada no julgamento, o que levou o Superior Tribunal de Justiça a acolher o recurso do médico e anular o processo.

O médico relatou que passou por dois períodos distintos de prisão e vivenciou uma experiência diferenciada dentro do sistema penitenciário. Ricardo Jones explicou que inicialmente ficou um mês preso, quando uma juíza lhe concedeu o direito de responder ao processo em liberdade em 17 de abril de 2025, mas o Ministério Público recorreu da decisão e ele foi preso novamente em 26 de junho do mesmo ano. “Teve dois períodos: eu fiquei um mês preso e a juíza me deu o direito, me concedeu direito de responder ao processo em liberdade, mas o Ministério Público recorreu e eu fui preso de novo”, contou o médico.

Durante o período de encarceramento, Ricardo Jones disse que passou primeiro por uma galeria para presos especiais, destinada a advogados, policiais e pessoas cujos crimes tiveram notoriedade. “Então, fiquei ao todo desde a minha primeira prisão até agora um ano e um mês, mas nesse um ano e um mês eu passei primeiro numa galeria para presos especiais”, explicou.

Apenas um mês depois, Ricardo Jones foi transferido para a Galeria de Triagem, onde trabalhou prestando serviços ao sistema penitenciário. “Logo, logo eu fiquei durante um mês só nessa galeria. Eu fui transferido para uma galeria especial, chamada Galeria de Triagem, que é uma galeria que me permitiria trabalhar e prestar serviços para o serviço penitenciário”, relatou o médico. Essa experiência lhe proporcionou uma visão singular do sistema carcerário, diferente daquela que 99% dos presos têm, segundo suas próprias palavras.

O médico trabalhou no ambulatório da penitenciária, onde prestava atendimento direto aos detentos. “Então, eu fui trabalhador na penitenciária, o que me deu uma visão, o que faz com que a minha visão sobre a prisão seja bastante diferente de 99% das pessoas. Eu estive numa situação bastante especial e fui colocado lá como um trabalhador”, afirmou Ricardo Jones. Ele avaliava sinais vitais dos presos todos os dias e fazia entrevistas para encaminhá-los a unidades de saúde quando necessário.

Posteriormente, o médico foi transferido para o setor de informação do presídio, o Infopen, onde cuidava da chegada, preparação e saída dos presos, além de catalogar prontuários penais. “Depois eu fui transferido para um setor que era do lado desse meu, que era o setor de informação, o Infopen, setor de informação do presídio, onde eu cuidava da chegada dos presos, da preparação dos presos, do encaminhamento dos presos ou da saída dos presos e também da parte de catalogar todos os prontuários penais dos detentos da prisão”, detalhou. Esse trabalho o colocou em contato direto com a direção da penitenciária e com a área de segurança.

Ricardo Jones enfatizou que sua experiência foi muito diferente da realidade da maioria dos encarcerados. “Eu digo isso porque quando as pessoas dizem: ‘ah tu esteve preso’, as pessoas pensam que eu estive onde normalmente as pessoas ficam, que são nas galerias, tá? E eu não fiquei nas galerias, eu fiquei na galeria de triagem”, ressaltou o médico. Na galeria de triagem, ele tinha muito mais liberdade do que os presos comuns, podendo caminhar livremente pelo presídio sem ficar confinado em sua cela.

O médico relatou que era chamado a qualquer hora para atender emergências médicas dentro da penitenciária. “Eu tinha um acesso, eu caminhava livremente pelo presídio, eu não ficava confinado na minha cela, eu saía a todo momento, era chamado para avaliar um preso que tinha brigado, estava machucado, ou que tinha tido um acidente de trabalho, ou que estava com um problema médico”, contou Ricardo Jones. Muitas vezes era acionado de madrugada para conversar com presos que não estavam passando bem ou que enfrentavam crises de ansiedade.

Durante todo o seu período de cárcere, Ricardo Jones tinha sua licença médica cassada e era impedido de exercer sua profissão como médico. A cassação ocorreu ainda em 2016 pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul, com aval do Conselho Federal de Medicina. Ainda assim, o médico recebeu trabalhos na área de saúde na penitenciária, devido à falta de pessoal. Ele trabalhou com o monitoramento de sinais vitais e tratamento de presos em crises de ansiedade, o que mostra uma contradição entre as instituições do Estado.

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