Carla Dórea Bartz

Jornalista, com 30 anos de experiência (boa parte deles em comunicação corporativa). Graduada em Letras e doutora pela USP. Filiou-se ao PCO em 2022.

Coluna

Revolucionário é escolher os seus heróis?

Samba-enredo da Acadêmicos de Niterói que homenageou Lula transforma a luta de classes em mito conciliador

Em sua peça Vida de Galileu, escrita em 1938, Bertolt Brecht colocou na boca de seu personagem uma das frases mais importantes do teatro moderno. Diante da decepção de seu discípulo, que lamentava sua recusa em enfrentar a Inquisição até o fim, Galileu o corrige: “Infeliz é a terra que precisa de heróis”. A frase não é uma confissão de covardia, mas uma crítica à própria ideia de heroísmo. Uma sociedade que precisa de heróis é aquela em que as pessoas comuns foram privadas de agir diretamente sobre o seu destino. O herói surge onde a ação coletiva falhou ou foi bloqueada. Seu aparecimento não é um sinal de força, mas de atraso histórico.

A questão apareceu recentemente em um teatro bem diferente, mas igualmente épico: a Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. No último final de semana, a escola de samba Acadêmicos de Niterói apresentou o enredo Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil, uma homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O desfile reconstruiu sua trajetória desde a infância pobre em Garanhuns, a migração para São Paulo, a liderança sindical e a chegada à presidência da República, transformando sua biografia em símbolo da própria história do país.

A homenagem é legítima. Lula é o presidente mais importante do Brasil desde Getúlio Vargas. Sua ascensão representa um avanço na vida política nacional e marca uma das maiores transformações sociais da história recente do país.

Mas é na forma como essa trajetória foi apresentada pela escola que surge o problema.

Em um dos versos centrais do samba, afirma-se: “Revolucionário é saber escolher os seus heróis.” É o oposto da fala de Galileu, também personagem histórico, na peça de Brecht.

A frase sintetiza toda a concepção política do desfile. A transformação social deixa de aparecer como obra direta da classe trabalhadora e passa a ser apresentada como resultado da escolha de uma liderança. O papel do povo deixa de ser transformar o mundo e passa a ser escolher quem irá transformá-lo em seu nome.

O próprio samba reconhece a existência da desigualdade social. “Lugar onde a pobreza e o pranto se dividem para tantos / E a riqueza multiplica para alguns”, afirma o enredo. A luta de classes no capitalismo brasileiro é nomeada com clareza. Mas ela não aparece como algo a ser superado pela ação independente, coletiva e consciente dos trabalhadores. Ela aparece como o cenário que dá origem ao herói.

O verso “Nosso sobrenome é Brasil da Silva” reforça essa operação. O trabalhador deixa de aparecer como classe social e passa a ser uma identidade nacional abstrata. A classe é dissolvida no povo, e o povo encontra sua expressão máxima na figura do líder.

O mesmo ocorre com os personagens históricos citados. Zuzu Angel, Henfil, Vladimir Herzog e Rubens Paiva são exemplos de vítimas da repressão. São figuras dignas de homenagem. Mas suas trajetórias são de sacrifício individual, ou seja, não fazem parte da organização das massas contra o Estado burguês durante a ditadura militar. Um problema que apontei na minha crítica ao filme de Walter Sales, Ainda estou aqui. A história é vista como sucessão de mártires e heróis.

As próprias conquistas sociais mencionadas no samba são apresentadas como legado, não como resultado de um enfrentamento permanente. “Tem filho de pobre virando doutor / Comida na mesa do trabalhador”. São ganhos reais, mas, ao mesmo tempo, também são concessões políticas possíveis na conjuntura social brasileira. Migalhas. Se pensarmos bem, o período recente trouxe muito mais perdas do que ganhos.

Esse caráter conciliador é reforçado na encenação do desfile. Bolsonaro surge representado como o palhaço Bozo, preso e derrotado. A imagem do vilão de filme infantil de Hollywood. A imagem provoca satisfação imediata. Mas sua derrota ocorre apenas no plano simbólico. Ela não é resultado da mobilização, mas consequência da escolha correta do herói.

O desfile, assim, resolve simbolicamente contradições que permanecem abertas na realidade.

O líder que surgiu da luta de classes aparece, na avenida, como solução definitiva dessa mesma luta.

O resultado é um espetáculo bonito, mas politicamente limitado. A luta de classes é transformada em narrativa de redenção. A revolução deixa de ser a ação direta dos trabalhadores e passa a ser a escolha correta de um governante.

A burguesia, ausente da narrativa, é a principal beneficiária dessa operação. Nada é mais funcional à manutenção da ordem existente do que uma cultura popular que transforma a luta de classes em um mito conciliador.

É nesse sentido que a frase de Brecht se impõe novamente.

Revolucionário é escolher os seus heróis?

Ou infeliz é a nação que ainda precisa deles?

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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