Em artigo publicado neste domingo (8) no Brasil 247, sob o título Está na hora da renovação do PT, o sociólogo Emir Sader anunciou que o Brasil passou por uma “verdadeira Revolução Democrática” e que o Partido dos Trabalhadores precisa se renovar para acompanhar a transformação. Para tanto, propõe um grande encontro partidário. Mas não responde à pergunta principal: que política levou o PT a depender de uma operação de emergência para conseguir a reeleição de Lula?
O próprio Sader reconhece que o Partido não corresponde aos desafios políticos e está inteiramente dependente do presidente. Mas, em vez de examinar as decisões tomadas pelo governo, prefere atribuir o problema aos dirigentes burocráticos da campanha. Sua solução é promover jovens hábeis na propaganda digital e chamar José Dirceu para o comando.
A crise da campanha foi real. Lula terminou o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, criticou publicamente a organização eleitoral e ampliou a coordenação com a entrada de Camilo Santana, Rui Costa e Rafael Fonteles. Edinho Silva perdeu espaço, mas não foi afastado de toda a campanha, como sugere Sader. Houve uma reorganização da máquina eleitoral para salvar a candidatura presidencial, não uma mudança de orientação política. Geraldo Alckmin continuou na chapa e os acordos com a direita permaneceram intactos.
Sader atribui a suposta revolução da juventude à atuação da deputada eleita Ana Elisa, que chamou a atenção de Lula para a importância das redes sociais, e à participação de André Janones. O sociólogo transforma uma iniciativa de propaganda eleitoral em demonstração da existência de um novo movimento juvenil de massas. Mas onde estão os sindicatos reorganizados, as entidades estudantis mobilizadas e as organizações populares fortalecidas por essa “revolução”?
A matemática da eleição também não sustenta o entusiasmo. Lula venceu com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. O comparecimento aumentou aproximadamente 2,96 milhões de eleitores entre os turnos. Este Diário já mostrou que o aumento dos votos de Lula não equivale à entrada de milhões de jovens eleitores. Parte dos votos veio naturalmente de candidaturas eliminadas e da redução dos brancos e nulos. Uma vitória apertada não constitui, por definição, uma revolução.
Sader também comemora a derrota e a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil. Chama a viagem do senador de “fuga vergonhosa”, sem uma palavra sobre o fato de que a Polícia Federal pediu a apreensão de seus passaportes minutos depois da confirmação do resultado e de que Alexandre de Moraes impôs restrições no âmbito de investigações que não haviam resultado em ação penal contra ele. Os defensores da “revolução democrática” comemoram enquanto o candidato derrotado sofre medidas judiciais excepcionais.
A defesa dos direitos democráticos não depende de simpatia pelo beneficiário. O PCO não apoia Flávio Bolsonaro, mas tampouco aceita que um ministro do STF tenha poderes arbitrários para perseguir adversários políticos. A esquerda que considera legítima a repressão judicial porque atinge um bolsonarista entrega ao mesmo aparelho a autoridade para atingir sindicatos, dirigentes populares e organizações revolucionárias. O resultado das urnas não tornou o Judiciário mais democrático.
Sader chega ao ponto de imaginar que Lula poderá governar por mais quatro anos e ainda escolher seu sucessor, inaugurando um longo período de domínio petista. Não explica de onde viria tamanha estabilidade. O PL elegeu 121 deputados federais, terá a maior bancada do Senado e conquistou seis governos estaduais. O Congresso continua dominado por partidos burgueses, e o governo não dispõe de uma maioria comprometida com as reivindicações operárias. A direita não desapareceu porque seu candidato perdeu.
O mais extraordinário no artigo é que Sader reconhece que o PT não possui um projeto para o País. Pergunta qual Estado, qual sociedade e qual cultura deveriam resultar dos próximos anos de governo. São perguntas que um partido com 46 anos de existência, vários mandatos presidenciais e milhões de filiados já deveria ter respondido há muito tempo.
Não falta ao PT oportunidade para definir sua política. Falta enfrentar os interesses que sustentam o governo. Como falar em renovação sem discutir o arcabouço fiscal, que subordina as despesas públicas à arrecadação e protege o pagamento aos credores? Como prometer um futuro para a juventude sem enfrentar os capitalistas que impõem jornadas exaustivas e salários miseráveis? Como falar em soberania nacional enquanto se multiplicam concessões e privatizações e os bancos continuam mandando na economia?
O debate sobre o futuro teria de começar por reivindicações concretas: aumento geral dos salários, redução da jornada sem redução salarial, revogação das reformas contra os trabalhadores, reestatização das empresas privatizadas, defesa da Petrobrás e fim da submissão do orçamento às exigências do capital financeiro. O PT teria de romper com a frente ampla e colocar suas organizações a serviço das lutas populares. Sader não explica como enfrentaria os aliados burgueses do governo.




