Estados Unidos

Esquerda pequeno-burguesa celebra mais uma vitória eleitoral da OTAN

Luís Pellegrini apresenta a vitória do partido de Biden como triunfo da "democracia", esquecendo as guerras, os golpes e os massacres promovidos pelo imperialismo norte-americano

Donald Trump

A vitória do Partido Democrata nas eleições legislativas dos Estados Unidos está provocando um verdadeiro surto de entusiasmo em setores da esquerda brasileira. A derrota de Donald Trump, que perdeu a maioria nas duas casas do Congresso, estaria anunciando o renascimento da democracia norte-americana. Para os admiradores do imperialismo que se apresentam como progressistas, o partido responsável por algumas das maiores agressões militares da história recente teria se transformado numa esperança para a humanidade.

É o que defende Luís Pellegrini, em artigo publicado no Brasil 247, no sábado (7), intitulado A vingança da democracia. Onda azul atropela Trump. O jornalista apresenta o resultado das eleições de 3 de novembro como uma espécie de triunfo da civilização contra a barbárie. Para explicar a derrota republicana, vai buscar na mitologia grega o conceito de hubris, a arrogância que levaria os homens à ruína. Trump teria desafiado os deuses e agora estaria recebendo o merecido castigo.

Pellegrini poderia economizar a viagem até a Grécia Antiga e examinar a política norte-americana. Trump chegou ao poder prometendo combater as guerras intermináveis de Washington, melhorar as condições de vida da população e enfrentar os setores tradicionais do regime. Acabou envolvendo os Estados Unidos numa guerra contra o Irã, contrariando justamente uma parcela dos eleitores que haviam votado nele para rejeitar a política externa dos governos anteriores.

A derrota republicana não constitui, portanto, uma demonstração de apoio popular ao programa democrata. Parte do eleitorado simplesmente se voltou contra um governo que aprofundou a crise econômica e abandonou compromissos assumidos durante a campanha. O próprio vice-presidente J. D. Vance reconheceu a influência da guerra contra o Irã no resultado eleitoral.

Os democratas conseguiram conquistar o Senado e a Câmara dos Representantes, vencendo inclusive disputas importantes no Texas, Kansas e Carolina do Sul. Pellegrini, entretanto, transforma uma mudança na composição do Congresso numa mudança de regime político. Chega a apresentar Kentucky e Tennessee como exemplos de uma migração extraordinária de eleitores para a esquerda. Curiosamente, omite que os republicanos Andy Barr e Bill Hagerty venceram as eleições para o Senado nesses dois estados.

O problema maior, contudo, não está na interpretação dos números. Está na identificação feita pelo articulista entre o Partido Democrata e a democracia.

O que tem de democrático um partido que esteve à frente de algumas das principais guerras do imperialismo? Foi o democrata Harry Truman quem ordenou os bombardeios atômicos contra Hiroshima e Nagasaki. John Kennedy ampliou a intervenção norte-americana no Vietnã, e Lyndon Johnson transformou essa intervenção numa guerra de grandes proporções. Bill Clinton comandou os bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) contra a Iugoslávia, em 1999.

Barack Obama, tão celebrado como símbolo de uma nova era progressista por ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, participou da destruição da Líbia em 2011. Seu governo apoiou a intervenção militar da OTAN que derrubou Muamar Cadáfi e deixou o país mergulhado numa crise prolongada. Também foi sob Obama que a espionagem norte-americana contra o governo brasileiro, inclusive contra Dilma Rousseff, veio a público.

Mais recentemente, Joe Biden fez da guerra na Ucrânia uma das prioridades da política externa dos Estados Unidos. Sua administração promoveu uma enorme transferência de armamentos ao governo ucraniano e apoiou o fortalecimento da OTAN. A Finlândia e a Suécia ingressaram na aliança militar durante seu mandato, aproximando ainda mais sua estrutura da Rússia.

Não se trata de uma acusação inventada pelos adversários dos democratas. O programa oficial do partido, divulgado em 2024, comemorava o fortalecimento da OTAN e a ampliação de sua presença internacional. Biden defendia o aumento dos gastos militares dos países integrantes da organização. A política era apresentada abertamente como uma maneira de conter a Rússia e preservar os interesses estratégicos norte-americanos.

A vitória dos democratas em 2026 não representa o abandono dessa orientação. Chuck Schumer, um dos principais dirigentes do partido, declarou em abril que o Senado não aprovaria a saída dos Estados Unidos da OTAN, depois de Trump ameaçar romper com a organização. A direção democrata também defende a manutenção do apoio militar à Ucrânia e pressiona contra qualquer aproximação de Washington com Moscou.

A tragédia palestina oferece outro exemplo. Enquanto Pellegrini procura sinais de renovação democrática na eleição de candidatos de diferentes origens sociais, seu artigo não encontra espaço para mencionar a responsabilidade do governo Biden pelo fornecimento de armas a “Israel”.

Durante o massacre em Gaza, Washington manteve o apoio militar ao Estado sionista. Documentos do próprio governo norte-americano registraram a transferência de milhares de bombas, mísseis e outros equipamentos militares. Em agosto de 2024, a administração Biden anunciou possíveis vendas de armamentos a “Israel” superiores a US$ 20 bilhões. Não foi Trump quem estava na Casa Branca naquele momento. Eram Biden e Kamala Harris, os representantes da democracia tão admirada pelo articulista.

É verdade que existem divergências dentro do Partido Democrata, inclusive parlamentares que se opuseram ao fornecimento de armas a “Israel”. Mas essas diferenças não apagam a política executada pelo governo nem o papel desempenhado pela direção partidária. A questão não é saber se todos os seus integrantes defendem cada uma das guerras. É saber qual orientação prevalece quando o partido assume o comando do Estado.

Pellegrini apresenta Alexandria Ocasio-Cortez, Zohran Mamdani e Abdul El-Sayed como representantes de uma alternativa socialista ao velho aparelho democrata. É precisamente aí que a confusão política se torna mais grave.

Ocasio-Cortez, uma das principais figuras da chamada esquerda democrata, votou a favor do pacote de aproximadamente US$ 40 bilhões de assistência à Ucrânia, aprovado em maio de 2022. Naquela votação, todos os 219 deputados democratas presentes apoiaram a medida. A parlamentar também entrou em conflito com os Socialistas Democráticos da América (DSA) por suas posições sobre “Israel”. Em julho de 2024, a direção nacional da organização retirou seu apoio à deputada, apontando, entre outros problemas, sua posição sobre o financiamento do sistema antimísseis israelense.

Mamdani, eleito prefeito de Nova York em 2025 e apresentado por muitos como uma grande vitória do socialismo, também oferece um exemplo das contradições dessa esquerda. Em janeiro de 2026, condenou publicamente palavras de ordem de manifestantes que expressavam apoio ao Hamas, classificando a organização palestina como terrorista. A declaração foi criticada por este Diário, que apontou a contradição entre sua imagem de defensor dos palestinos e sua adesão a uma das principais caracterizações da propaganda sionista.

O que Pellegrini chama de renovação socialista consiste, em grande medida, na tentativa de acomodar reivindicações progressistas dentro de um dos dois principais partidos da burguesia norte-americana. O resultado é uma esquerda que denuncia determinados abusos do imperialismo, mas continua subordinada às instituições responsáveis pela política imperialista.

Nada disso impede que existam lutas democráticas reais nos Estados Unidos. A resistência dos trabalhadores, dos imigrantes, dos negros e dos estudantes contra a repressão e a exploração tem enorme importância. Mas essas lutas não podem ser confundidas com o fortalecimento eleitoral do Partido Democrata. Sua história demonstra justamente como os movimentos populares podem ser absorvidos pelo aparelho eleitoral sem que a política fundamental de Washington seja modificada.

Pellegrini termina seu artigo advertindo que Trump continuará com grandes poderes até janeiro de 2029. É verdade. Mas omite que a conquista do Congresso pelos democratas também coloca nas mãos da oposição importantes instrumentos para pressionar a política externa norte-americana. E sua direção já indicou que pretende utilizá-los para sustentar a OTAN e ampliar o confronto com os adversários internacionais dos Estados Unidos.

O imperialismo não muda de natureza quando substitui um presidente republicano por um democrata. As diferenças entre os dois partidos existem, mas ambos estão ligados à defesa dos interesses econômicos e estratégicos da burguesia norte-americana. Nenhum deles constitui um partido independente dos trabalhadores.

O entusiasmo de uma parcela da esquerda brasileira com a vitória democrata é particularmente revelador. Em nome da luta contra Trump, chega-se ao ponto de apresentar como defensora da democracia uma organização política que comandou guerras, apoiou intervenções militares e financiou o armamento de “Israel”.

Para os povos agredidos pelo imperialismo, o problema não é decidir qual dos dois partidos administrará de maneira mais simpática a máquina de guerra norte-americana. É enfrentar a política de dominação exercida por essa máquina, qualquer que seja o ocupante da Casa Branca.

A esquerda que pretende combater o imperialismo precisa manter independência diante dos dois partidos da burguesia dos Estados Unidos. A derrota eleitoral de Trump não transforma os democratas em aliados dos povos oprimidos. Muito menos transforma a OTAN numa organização democrática.

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