A relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para os territórios palestinos ocupados, Francesca Albanese, defendeu que o Brasil suspenda todo o comércio com “Israel”. Em entrevista publicada pela Folha de S.Paulo nesta quarta-feira (9), a jurista italiana afirmou que sanções econômicas são necessárias para impedir que outros países continuem contribuindo materialmente para a ocupação e para as operações militares israelenses no Oriente Médio.
Questionada diretamente se o Brasil deveria cortar suas relações comerciais com o Estado sionista, Albanese respondeu:
“Suspender, com certeza. Trata-se da única maneira legal de lidar com Israel e a única maneira de manter o sistema do direito internacional de pé.”
A relatora citou especificamente as exportações capazes de abastecer a máquina militar israelense. Para ela, diante do apoio dos Estados Unidos a “Israel” no Conselho de Segurança da ONU, cabe aos demais países interromper sua colaboração econômica com o regime.
“Israel deve sofrer sanções. No limbo que vivemos causado pelo veto dos EUA no Conselho de Segurança, os Estados-membros precisam obedecer o direito internacional e não auxiliar um país que possivelmente comete crimes internacionais.”
Albanese acrescentou:
“Isso significa: nada de exportar armas, energia, nada do Brasil exportar carvão que alimenta a máquina de guerra israelense contra os palestinos, os libaneses e outros na região.”
A declaração coloca diretamente em questão a manutenção das relações econômicas do governo brasileiro com “Israel”. Embora o governo Lula tenha elevado o tom das críticas diplomáticas ao governo de Benjamin Netaniahu desde o início do massacre na Faixa de Gaza, o comércio entre os dois países não foi interrompido.
A pressão internacional contra a política israelense também aumentou nos últimos dias. Na terça-feira (8), 12 países, entre eles França, Reino Unido e Canadá, anunciaram medidas contra os assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada, incluindo restrições à importação de produtos provenientes das colônias.
Para Albanese, entretanto, o problema não se restringe aos assentamentos ou ao atual governo de Netaniahu. Segundo ela, uma eventual troca de governo em “Israel” não deverá modificar substancialmente a política de ocupação.
“O objetivo de anexação de Israel não é prerrogativa de [Itamar] Ben-Gvir e [Bezalel] Smotrich. Se olharmos para as pesquisas de opinião, a limpeza étnica é uma prioridade para muitos israelenses.”
A relatora afirmou que, apesar das disputas políticas internas no país, a ofensiva contra palestinos e árabes funciona como elemento de unidade de uma parcela importante da sociedade israelense.
“Embora seja uma sociedade em convulsão, a luta contra os palestinos e os árabes é um fator gregário para muitos. Por isso, a política em relação aos palestinos não mudará no curto ou médio prazo.”
Albanese também voltou a caracterizar o regime imposto aos palestinos como um sistema de apartheid. Segundo a jurista, a distinção apresentada pelo governo israelense, segundo a qual a discriminação ocorreria por nacionalidade e não por “raça”, não modifica a natureza da política aplicada nos territórios ocupados.
“Israel vem usando a diferença religiosa e étnica para criar um sistema supremacista em desfavor dos palestinos. Não importa se usam o termo raça ou não, trata-se de um sistema de dominação composto de atos desumanos cometidos contra um grupo específico.”
Ela acrescentou que os palestinos são submetidos a uma condição de inferioridade institucionalizada:
“Gostaria que não tivéssemos de chamar esse sistema de racial, mas os palestinos são tratados como uma raça inferior pelos israelenses, e até mesmo sub-humanos, como líderes israelenses já se referiram a eles.”
A atuação de Albanese transformou a relatora em um dos principais alvos da campanha internacional organizada por “Israel” e seus aliados contra os que denunciam os crimes cometidos na Palestina. Desde fevereiro de 2024, ela é considerada persona non grata pelo governo israelense e está proibida de entrar no país.
Em julho de 2025, o governo dos Estados Unidos também impôs sanções à jurista em meio à ofensiva norte-americana contra pessoas ligadas às investigações internacionais sobre crimes israelenses. Entre as consequências relatadas por Albanese estiveram a revogação de seu visto diplomático, o encerramento de sua vinculação acadêmica à Universidade Georgetown, o bloqueio de sua conta bancária e a perda do seguro de saúde.
A ofensiva prosseguiu neste ano. Em fevereiro, a organização pró-israelense UN Watch divulgou um vídeo editado de uma fala da relatora para dar a impressão de que ela havia chamado “Israel” de “inimigo comum” da humanidade. Albanese esclareceu posteriormente que havia se referido ao “sistema que permite o genocídio na Palestina”.
Mesmo assim, governos europeus como os da França e da Alemanha aproveitaram o episódio para pedir sua renúncia.
Albanese afirmou que a campanha não alterou sua disposição de denunciar a política israelense.
“Existem esses carniceiros, como gosto de chamá-los. Israel dispõe de um exército infindável de lacaios que saem procurando por qualquer coisa que possa ser usada contra quem denuncia o genocídio.”





