O governo do Reino Unido nacionalizou a British Steel e assumiu a propriedade integral da empresa, que pertencia ao grupo chinês Jingye. A medida foi anunciada na quinta-feira (16), depois que o Estado não encontrou um comprador disposto a manter em funcionamento a usina de Scunthorpe, no norte da Inglaterra.
A fábrica é a última instalação do país que ainda produz aço primário. Seus altos-fornos transformam minério de ferro em aço utilizado pelas ferrovias, pela construção civil e pela indústria automobilística. Sem a unidade, o Reino Unido passaria a depender completamente de produtos importados para setores considerados essenciais.
A decisão foi autorizada por uma lei aprovada definitivamente na quarta-feira (15). O governo já controlava as operações da empresa desde abril de 2025, quando interveio para impedir que a Jingye encerrasse a produção em Scunthorpe. A paralisação eliminaria 2.700 postos de trabalho na fábrica e atingiria milhares de empregados de fornecedores, transportadoras e empresas ligadas à siderurgia.
Segundo o governo, a nacionalização foi adotada “em prol do interesse nacional”. O primeiro-ministro Keir Starmer, que está deixando o cargo, afirmou que a medida protege empregos qualificados e mantém no país uma capacidade industrial indispensável.
“A decisão de hoje garante o futuro da siderurgia no Reino Unido, protege empregos qualificados e salvaguarda uma capacidade nacional vital”, declarou Starmer.
A British Steel opera com prejuízo e depende de recursos estatais para continuar funcionando. O ministro de Negócios, Peter Kyle, informou que o governo gasta mais de £1 milhão por dia com a usina. Desde a intervenção de abril de 2025, o total empregado chegou a aproximadamente £640 milhões, equivalentes a US$866,1 milhões.
Kyle defendeu o gasto ao afirmar que o desaparecimento da produção primária deixaria o país “à mercê” do abastecimento estrangeiro. O ministro disse que o investimento é necessário para a população britânica, mas reconheceu que ainda será preciso elaborar um plano capaz de manter a empresa em atividade por um período prolongado.
A nacionalização encerra, ao menos provisoriamente, um processo iniciado com a privatização da siderurgia britânica pelo governo de Margaret Thatcher, em 1988. A antiga empresa estatal foi entregue ao setor privado dentro do programa de destruição das indústrias públicas e de ataque aos sindicatos promovido pelo governo conservador.
Nas décadas seguintes, a produção nacional encolheu, fábricas foram fechadas e milhares de empregos desapareceram. A British Steel passou por diferentes proprietários e crises financeiras até ser comprada pela Jingye. A entrega da siderurgia ao capital privado não assegurou investimentos suficientes nem preservou a capacidade industrial do país.
Os altos preços da energia estão entre os principais problemas enfrentados pela usina. A indústria siderúrgica consome grandes quantidades de eletricidade e combustível, e as empresas britânicas pagam valores superiores aos de concorrentes de vários outros países. A oferta mundial de aço também pressiona os preços e reduz a renda obtida com as vendas.
O governo anunciou tarifas e cotas para limitar a entrada de aço vendido abaixo dos preços praticados internamente. Também negociou um acordo tarifário com os Estados Unidos. Essas medidas não foram suficientes para atrair um novo comprador nem para garantir a continuidade da empresa sem participação estatal.
A associação empresarial UK Steel apoiou a nacionalização e afirmou que o setor precisa agora de um plano de longo prazo para recuperar a sustentabilidade comercial da British Steel. A entidade representa produtores que dependem de energia, transporte, crédito e encomendas públicas em condições que permitam competir com empresas estrangeiras.
A operação mostra que, quando uma indústria decisiva está ameaçada, o próprio governo de uma potência capitalista abandona o discurso de que o Estado não deve intervir na economia. A empresa privada entrega a conta ao Tesouro, enquanto o poder público assume as instalações, os trabalhadores e os custos necessários para evitar o fechamento.



