O artigo Na Casa Branca, Lula fez barba, cabelo e bigode, de Tereza Cruvinel, publicado no Brasil 247 nesta sexta-feira (8), mostra que a esquerda pequeno-burguesa ainda não decidiu se o presidente norte-americano é fascista, ou se é um sujeito com quem o presidente Lula tem uma “química”.
Segundo a jornalista, “o êxito incontestável do encontro do presidente Lula com Donald Trump superou as expectativas do próprio governo brasileiro e suplantou até a crônica má vontade da mídia corporativa para com ele”, embora não se tenha visto muita coisa. E não se pode esquecer que aquilo que Trump fala não se escreve.
Tereza Cruvinel diz que “antes de qualquer avaliação sobre ganhos políticos ou eleitorais, o que mais importa é o reconhecimento de que Lula foi à Casa Branca em defesa dos interesses do Brasil, disposto ao diálogo e à negociação, mas demarcando como limite a observância da soberania e da democracia brasileiras”, mas a reação efusiva a essa reunião demonstra que, sim, existe um cálculo eleitoral, ainda que legítimo.
O tom da matéria é ameno com Donald Trump que, “tão áspero, foi mais que amistoso, não há que negar: mandou estender o tapete vermelho, e sorridente recebeu o visitante na porta com caloroso aperto de mão.” E não apenas isso, também, “aceitou, de pronto, o pedido para que não houvesse sessão com a imprensa no Salão Oval no início do encontro, temendo uma daquelas emboscadas que Trump já armou para outros”.
Trump vai acabar derretendo corações, dado que “depois da visita, nas redes, chamou Lula de ‘muito dinâmico’ e, mais tarde, de ‘bom homem’ e de ‘um cara inteligente’. Na sexta-feira passada, teria encerrado o telefonema que fez para Lula com um inusitado ‘I love you’”.
Ainda na rasgação de seda, a jornalista dá conta de que “Lula também fez seus salamaleques, como o de sugerir que Trump fosse mais sorridente, que sorrisse na foto oficial, pois ele era ‘mais bonito’ sorrindo, e outros de que não tivemos notícia. E com isso ganhou uma excelente ‘photo opportunity’, que pode lhe render votos”.
Negociações
Conforme a jornalista, “quando a conversa começou a azedar sobre tarifas, Lula disse ter proposto o grupo de trabalho para acertarem os ponteiros dentro de 30 dias. Há muito o que ser acertado ainda nesta área: tarifas ainda em vigor, pesando especialmente sobre o aço e o alumínio, e a investigação, com base na seção 301 da lei comercial deles, sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil”.
No entanto, ninguém deve esperar grande coisa dos Estados Unidos, que só sabem coagir e pressionar os países com os quais negociam, e não adianta dizer que isso é apenas coisa de Donald Trump, pois os norte-americanos sempre negociam com o revólver em cima da mesa.
Está escrito que “sobre terras raras, Lula não prometeu exclusividade aos Estados Unidos, mas foi completamente aberto à participação de empresas norte-americanas na exploração, desde que todo o processo de tratamento e refino seja feito no Brasil, gerando tecnologia, empregos, divisas”. No entanto, o Brasil tem plenas condições de explorar sozinho esse setor e desenvolver tecnologia própria. Como já dissemos, o País conta com faculdades de Geologia, Mineração e Metalurgia, bastaria acionar esses setores. Além de se ganhar muito mais, seria aberto um ótimo mercado de trabalho e de desenvolvimento tecnológico.
Abrindo as portas para o inimigo
Claramente de olho nas eleições, temos que “Lula queria muito acertar logo um acordo de cooperação para combaterem juntos o crime organizado. Agregando inclusive outros países das Américas. Não deu, mas combinaram de criar, para isso, outro grupo de trabalho”.
Desde o governo FHC que o Brasil vem abrindo as portas para “cooperação” com a CIA e o FBI. O resultado é que, hoje, a Polícia Federal brasileira é praticamente um puxadinho dos serviços de inteligência norte-americanos e até do Mossad.
Todos estão vendo que os palestinos são rejeitados ou maltratados nos aeroportos brasileiros, enquanto criminosos de guerra israelenses fazem turismo calmamente no Brasil.
É preciso lembrar que a Lava Jato foi fruto desse tipo de ação de “cooperação”, um verdadeiro absurdo. Não bastasse isso, há décadas que se fala em combater o crime organizado, o tráfico de drogas, mas o resultado é que o crime e o tráfico apenas crescem.
Lula quer fazer um agrado para a classe média, quer se vender como um presidente que combate o crime e que vai proteger a sociedade. Isso não faz o menor sentido, a única coisa que combate realmente o crime é acabar com o abismo social e com a miséria, coisa que a burguesia não vai permitir.
Quais ganhos
Apenas a perspectiva eleitoral pode permitir que se diga que “muito ainda se pode dizer e compreender a partir do encontro, uma vitória do pragmatismo bilateral (para além da existência ou não da tal de ‘química’). ”, pois não há vitória nenhuma; há poucos elementos que nos levem a essa conclusão.
Dentro da diplomacia, o que realmente interesse é discutido dentro de gabinetes não diante das câmeras, onde todos sorriem.
Esse encontro pode trazer algo de positivo para Trump e Lula, podem posar para os fotógrafos e aparecerem bem para seus eleitores. Mas não é nada muito relevante e não justifica a euforia da imprensa alternativa que, aliás, até outro dia, execrava o presidente dos Estados Unidos.





