O texto Polarização política: uma categoria midiática explicativa preguiçosa?, de Jacqueline Muniz, publicado no Brasil 247 nesta segunda-feira (30), retrata bem como funciona a brasileira pequeno-burguesa, que a única ideia que tem de política é conseguir postos cada vez mais altos dentro da política eleitoral.
Muniz inicia dizendo:
“Com a abertura do ano eleitoral, reaparecem armadilhas conhecidas. Entre elas, a narrativa da polarização como ameaça à democracia e ao desenvolvimento do país, como obstáculo à renovação de lideranças e à emergência de ideias novas. Volta também a sugestão de que estaríamos enredados em alternativas aquém do eleitor, como se as opções progressistas em disputa fossem antigas e ultrapassadas, apegadas a concepções de igualdade, liberdade e justiça consideradas inadequadas ao individualismo contemporâneo. Planta-se, mais uma vez, a promessa de uma saída fora do conflito, uma espécie de solução mágica que reaparece como isca para reencenar o apelo a uma alternativa redentora capaz de substituir o desperdício do voto no ‘menos pior’”.
Essas armadilhas, às quais se refere, não existiriam se a esquerda tivesse princípios e os defendesse com firmeza, mas a maioria não os tem, surfa conforme a maré. Basta ver a dança das cadeiras na esquerda pequeno-burguesa com políticos entrando e saindo de partidos que disseram que nasceram como “alternativa”, como algo diferente, mas só pensam em conquistar cargos.
A vontade de conseguir cargos é uma das razões que fez o identitarismo ser tão bem aceito dentro da esquerda. Essa ideologia liberal constantemente prega que as minorias precisam ocupar “lugares de mando”, “posições de poder”.
Toda vez que abre uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), logo surgem campanhas e discussões intermináveis sobre a “a mulher negra no STF”. Já tivemos homem negro na presidência dos Estados Unidos, embaixadora negra na ONU, homem negro no STF; e o que mudou? Absolutamente nada.
A “narrativa da polarização como ameaça à democracia” preocupa a quem? Aos que não querem perder votos, o que não querem chocar a opinião pública. Foi isso que motivou a direção petista a expulsar de suas fileiras a Causa Operária. Desse modo, se apresentava diante da burguesia como um partido disposto a jogar o “jogo democrático”.
Com relação às bandeiras da “igualdade, liberdade e justiça [serem] consideradas inadequadas”, isso está perfeitamente arraigado dentro da esquerda pequeno-burguesa, que há tempos abandonou o socialismo para defender a democracia burguesa e as instituições do Estado, como o STF.
Sobre a solução do “menos pior”, ou do “mal menor”, o que dizer? A maioria da esquerda soltou fogos quando Joe ‘Genocida’ Biden venceu Donald Trump. Quem denunciou essa política do mal menor, como fez este Diário, foi logo tratado de fascista, trumpista, etc.
Polarização
Jacqueline Muniz diz que, “no seu sentido político-social mais elementar, polarização designa apenas a divisão de posições em campos opostos, frequentemente antagônicos. Nada há aí, em si, que implique problema, ameaça ou juízo moral. Tenho achado a expressão midiática “polarização política” um nome preguiçoso dado ao tradicional desconforto à brasileira com o dissenso, que é parte indissociável do mundo real.”
Como assim “apenas” a divisão e a oposição é fundamental? Marx e Engels escreveram no Manifesto Comunista que “A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes”.
É absurdo dizer que “nada há aí, em si, que implique problema”, é todo o problema. O que a grande imprensa faz sobre a “polarização política” é uma forma de amedrontar as pessoas, não é um “nome preguiçoso”, é uma tática que funciona porque a esquerda tem medo de polarizar, fica se escondendo, é a primeira a acreditar no perigo da tal “polarização”.
Por outro lado, a burguesia não quer o conflito, a polarização, pois teme a classe trabalhadora, por isso faz campanha contra a polarização.
Em vez de explicar esse conceito simples, aparecem coisas do tipo “a ideia de polarização política opera, assim, como uma categoria normativa e censora, impeditiva do debate político e que ambiciona um monopólio explicativo da vida política brasileira pela autoridade midiática. Ela desloca o foco do conteúdo das disputas para a forma das disputas”.
Esse tipo de texto afasta os trabalhadores do debate, complica desnecessariamente o embate e acaba favorecendo, mesmo que não queira, os adversários da classe trabalhadora.
Conciliação
Uma prova de que essa esquerda não quer polarização está no trecho que diz que “há ainda uma confusão bem problemática no discurso midiático da polarização. Toma-se o conflito e sua intensidade como equivalentes à ruptura institucional. Mistura-se a defesa firme de posições com a recusa deliberada das regras democráticas do jogo político”.
Por que a esquerda deveria temer a ruptura institucional? A defesa das instituições do Estado burguês é uma defesa dos interesses da burguesia. Esse é um dos principais problemas da esquerda, aparece aos olhos da população, e com razão, como parte do sistema. O bolsonarismo aproveita a brecha e se apresenta demagogicamente como antissistema. Eles atacam o STF, enquanto a esquerda pequeno-burguesa o protege, mesmo com tudo o que tem acontecido: censura, usurpação das atribuições de outros poderes, julgamentos-farsa, envolvimento em escândalo de corrupção etc.
No final das contas, Jacqueline Muniz, como a maioria da esquerda, concorda que não deve haver polarização, acredita mesmo que se deve jogar nas “regras democráticas do jogo político”. O problema é: quem faz as regras? A burguesia.





