O sítio Esquerda Online publicou, na segunda-feira (19), um editorial intitulado Sete dias para decidir o futuro do Brasil, convocando a esquerda a dedicar todas as suas forças à reeleição de Lula. Segundo o texto, a mobilização eleitoral seria capaz de derrotar o chamado “neofascismo” e impedir que o País fosse submetido ao imperialismo norte-americano.
O título já revela o problema. Lula teve praticamente quatro anos para governar, enfrentar os interesses dos capitalistas e apresentar uma alternativa à direita. Agora, a uma semana do segundo turno, a esquerda eleitoreira procura convencer a população de que tudo poderá ser resolvido com uma vitória nas urnas.
O editorial afirma que o Brasil estaria vivendo o maior movimento de mobilização da esquerda desde o Fora Collor. Apresenta as manifestações e a campanha pela reeleição como um verdadeiro levante popular, mas a finalidade atribuída a toda essa movimentação é uma só: conquistar votos para Lula.
Onde estavam essas organizações quando o governo manteve os juros nas alturas, fez alianças com a direita e deixou de mobilizar os trabalhadores contra os interesses da burguesia?
Durante seu mandato, Lula preferiu governar com Geraldo Alckmin, Simone Tebet e outros representantes da direita tradicional, enquanto procurava apresentar a defesa das instituições do regime político como a principal bandeira da esquerda.
A política econômica mantém juros astronômicos enquanto milhões de trabalhadores enfrentavam o endividamento, a carestia e salários insuficientes. Em vez de enfrentar os bancos, o governo manteve os principais mecanismos que asseguram sua posição privilegiada na economia.
O Bolsa Família é outro exemplo. A proposta de Orçamento para 2027, encaminhada ao Congresso em agosto, não previa reajuste do benefício, apesar de seu valor mínimo permanecer congelado desde março de 2023. O governo somente anunciou a correção de 15,04% em setembro, quando o governo sentiu que poderia perder a eleição.
Agora, na última semana de campanha, Lula também antecipou os pagamentos de outubro, concentrando os depósitos até quarta-feira (21). Será que o eleitor vai se deixar convencer?
O editorial do Esquerda Online procura transformar as medidas anunciadas na reta final em demonstração de que a mobilização pela reeleição estaria produzindo grandes conquistas.
Entre elas, destaca o fim da escala 6×1, aprovado pelo Congresso. A redução da jornada é uma reivindicação legítima dos trabalhadores, mas o texto aprovado estabelece um período de transição, reduz inicialmente o limite semanal para 42 horas e somente depois chega às 40 horas. Também contém exceções e concessões aos patrões.
A aprovação no Senado ocorreu em 14 de outubro, por 75 votos a um. Até Flávio Bolsonaro votou favoravelmente. Portanto, a ideia de que a aprovação representou uma derrota decisiva do bolsonarismo não corresponde à realidade. A reivindicação precisa ser defendida pela mobilização operária, inclusive contra as tentativas de ampliar as concessões aos empresários.
O editorial também celebra promessas de tarifa zero nos finais de semana, perdão de dívidas e novos benefícios. Não pergunta por que essas iniciativas aparecem a uma semana da eleição, nem apresenta garantias de que serão efetivadas. A esquerda que deveria cobrar realizações, faz propaganda das promessas de campanha.
Mas o principal argumento do texto não são as realizações do governo. É o medo.
A palavra “neofascismo” aparece repetidamente. Flávio Bolsonaro é apresentado como o candidato de uma ameaça extraordinária, e sua derrota eleitoral, como uma vitória histórica contra o fascismo.
A expressão é utilizada de maneira tão ampla que perde qualquer precisão. A direita brasileira possui tendências autoritárias e setores abertamente fascistas, mas isso não significa que qualquer vitória eleitoral de seus representantes corresponda automaticamente à implantação de um regime fascista. Tampouco significa que a vitória de Lula seja suficiente para eliminar essas forças.
A experiência internacional mostra o contrário. Na Alemanha, a Alternativa para a Alemanha (AfD) passou de 10,4% dos votos nas eleições federais de 2021 para 20,8% em 2025. Na França, a Reunião Nacional obteve 23,34% dos votos nas eleições europeias de 2019 e chegou a 31,37% em 2024. A extrema direita continuou crescendo apesar das sucessivas eleições e dos apelos em defesa da democracia.
No Brasil, a situação também deveria servir de advertência. Lula derrotou Jair Bolsonaro em 2022. Quatro anos depois, o bolsonarismo chegou novamente ao segundo turno, desta vez com Flávio Bolsonaro, que terminou a primeira votação à frente do presidente. Se a eleição anterior derrotou politicamente o fascismo, como explicar que a direita esteja novamente em condições de conquistar a Presidência?
A política de conciliação com a burguesia, a continuidade das medidas neoliberais e o abandono da mobilização independente dos trabalhadores contribuíram para permitir que a direita explorasse o descontentamento popular.
O editorial chega a apresentar a reeleição de Lula como uma batalha contra a recolonização do Brasil pelos Estados Unidos. Mas não explica como um governo aliado a setores da burguesia associados ao imperialismo poderá garantir a soberania nacional sem romper com a dependência econômica e financeira do País.
Lula, para piorar, em plena campanha contra o suposto “neofascismo”, passou a defender a redução da maioridade penal para 16 anos nos casos de crimes hediondos. A direção petista procura conquistar os eleitores conservadores adotando parte do programa de seu adversário, enquanto seus aliados apresentam a eleição como uma luta entre democracia e fascismo.
O mais grave é que essa política seja defendida por setores que se reivindicam trotskistas. O Esquerda Online, ligado à tradição política da corrente Resistência e de setores do PSOL, praticamente abandonou qualquer referência a uma política independente da classe trabalhadora em seu editorial. Não apresenta uma alternativa ao PT nem procura diferenciar a luta contra a direita da defesa do atual governo.
No lugar da independência política dos trabalhadores, aparece a palavra de ordem da unidade de todos os setores democráticos. O resultado é a subordinação da esquerda a um partido que governa com antigos golpistas e representantes da direita tradicional.
Trótski defendia a frente única operária contra o fascismo, baseada na ação comum das organizações dos trabalhadores e na preservação de sua independência política. Não propunha dissolver os partidos revolucionários em alianças eleitorais com a burguesia em nome de uma democracia abstrata.
O editorial faz justamente o contrário. Convoca militantes e organizações a abandonar suas demais tarefas para assegurar a vitória de Lula. Chega a afirmar que nada seria mais importante nos próximos dias do que conquistar votos, organizar caronas e convencer indecisos.
O PCO (Partido da Causa Operária) rejeitou essa política e decidiu pelo voto nulo no segundo turno. A decisão expressa a necessidade de uma alternativa independente tanto da direita bolsonarista quanto da frente ampla organizada em torno do PT.
A derrota da direita não depende de sete dias de propaganda eleitoral, mas da organização permanente da classe operária, da luta contra os capitalistas e da defesa de um programa capaz de enfrentar o regime político. O PT teve quatro anos para seguir esse caminho e preferiu governar com a direita. Agora, seus aliados querem transformar os trabalhadores em cabos eleitorais para salvar uma política que não defende seus interesses.




