O presidente da Sérvia, Alexandre Vucic, denunciou, durante visita oficial à China, a tentativa da União Europeia de comandar a política externa sérvia por meio de ordens enviadas por e-mail. A declaração foi dada em uma entrevista coletiva em Pequim, após uma pergunta sobre a pressão europeia contra a cooperação militar entre Sérvia e China.
Vucic chegou à capital chinesa no domingo (24). Na entrevista, foi questionado sobre uma reportagem da Bloomberg segundo a qual a Sérvia corre o risco de cruzar uma “linha vermelha” definida pela União Europeia ao adotar tecnologia militar chinesa para suas Forças Armadas.
“Primeiro, proibiram-me de conversar com a Federação Russa”, respondeu o presidente sérvio. “Agora, proíbem-me de ir à China também. Melhor escreverem uma lista de desejos detalhando com quem posso ou não posso me encontrar”.
A crítica de Vucic se dirige à pressão exercida pela União Europeia sobre a Sérvia, país candidato à entrada no bloco. Segundo o presidente, a política adotada pelos dirigentes europeus não deixa margem para que o próprio governo sérvio tome suas decisões.
Para Vucic, a União Europeia age como se a Sérvia devesse obedecer a “qualquer fax ou e-mail vindo de algum centro de poder”. O presidente afirmou que seu país é um Estado soberano e que decidirá sua própria política externa.
A União Europeia pressiona a Sérvia, tradicional aliada da Rússia, a impor sanções ao governo russo e apoiar a Ucrânia como condição para avançar em seu processo de adesão ao bloco. Vucic ironizou a Bloomberg por alertá-lo de que novos investimentos em armamentos chineses avançados prejudicam as chances de entrada da Sérvia na União Europeia.
O presidente sérvio também criticou os países da União Europeia por terem passado, em pouco mais de uma década, da defesa do livre-comércio para medidas protecionistas voltadas contra a concorrência chinesa. A mudança, segundo sua crítica, mostra o uso político das regras econômicas pelo bloco europeu.
Sérvia denuncia União Europeia por dois pesos e duas medidas
Em artigo publicado na semana passada pela Fox News, Vucic afirmou que a União Europeia utiliza pressões contra a Sérvia também para prejudicar seus vínculos com os Estados Unidos. O presidente sérvio contrastou a postura dos dirigentes europeus com a visão favorável que parte da população sérvia tem de Donald Trump.
“As elites dos dois lados do Atlântico passaram anos difamando Trump”, escreveu Vucic. Para os sérvios, segundo ele, Trump é “um líder que valoriza a soberania nacional acima da burocracia sem rosto, que prioriza a realidade econômica acima da fantasia ideológica e que entende que uma nação é definida por sua cultura, fé, tradições e herança”.
A presidenta do Parlamento sérvio, Ana Brnabic, também denunciou a União Europeia por tratar a Sérvia de forma injusta. Em entrevista ao Politico, na última quinta-feira, ela afirmou que o processo de integração do país ao bloco está praticamente congelado desde 2021, apesar de inspetores europeus terem reconhecido repetidas vezes que a Sérvia reúne condições para avançar.
“O mundo inteiro passou a ser muito simplista, preto e branco”, afirmou Brnabic. Ela citou como exemplo a ausência de críticas da União Europeia ao uso de gás lacrimogêneo e canhões de água contra manifestantes na Albânia.
“Vimos, por exemplo, gás lacrimogêneo e canhões de água usados contra manifestantes na Albânia, mas ninguém disse uma palavra. E por quê? Na minha visão, porque a Albânia se alinhou 100%” aos objetivos de política externa da União Europeia, declarou.
Protestos em Belgrado
A viagem de Vucic à China ocorreu após uma nova rodada de protestos em Belgrado, no sábado (23), com confrontos esporádicos entre manifestantes e a polícia. Os atos fazem parte de um movimento iniciado após o desastre ferroviário de 2024 em Novi Sad, no qual 16 pessoas morreram.
O governo sérvio afirma que a agitação vem sendo estimulada pela União Europeia como parte da campanha de pressão contra o país. Vucic rejeitou a afirmação de que centenas de milhares de pessoas participaram do protesto e citou uma estimativa das forças de segurança, segundo a qual menos de 34 mil pessoas estiveram presentes.
O presidente também rejeitou os pedidos de renúncia antecipada. Vucic afirmou que pretende cumprir seu segundo mandato até o fim, no próximo ano. Pela Constituição sérvia, ele não pode disputar um novo mandato presidencial, mas pode concorrer futuramente ao cargo de primeiro-ministro.




