Governo Lula 4

Presidente do Santander: Lula deu ‘demonstrações importantíssimas de confiança para os mercados’

Banqueira espanhola elogiou a independência do Banco Central e as garantias oferecidas pelo governo petista ao capital financeiro

A presidente-executiva do Grupo Santander, Ana Botín, afirmou que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deu “demonstrações importantíssimas de confiança para os mercados”. A declaração foi feita durante o XXII Encontro Santander América Latina e divulgada nesta quarta-feira (4) pelo portal Brasil 247, com informações do jornal Valor Econômico. A banqueira espanhola elogiou a independência do Banco Central e a estabilidade das instituições brasileiras, deixando claro que o capital financeiro está satisfeito com as garantias oferecidas pelo governo petista.

A declaração ocorreu poucos dias depois da reeleição de Lula para seu quarto mandato. O novo governo ainda nem começou, mas já recebeu a aprovação de uma das principais representantes dos bancos internacionais. O elogio mostra que, apesar da campanha eleitoral em que o PT procurou se apresentar como defensor dos trabalhadores contra a direita, os grandes capitalistas não esperam mudanças que prejudiquem seus negócios.

Botín destacou especialmente a independência do Banco Central, que, segundo ela, é “igual ou mais independente que qualquer um de qualquer país desenvolvido”.

A independência do Banco Central, aprovada em 2021, durante o governo Jair Bolsonaro, retirou do presidente da República o controle direto sobre a direção da autoridade monetária. A medida foi defendida pelos grandes bancos com o argumento de que seria necessário proteger a política monetária das decisões dos governos eleitos.

Na prática, o mecanismo permite que a definição dos juros seja conduzida sem responder diretamente às necessidades da população. Enquanto os juros elevados encarecem o crédito, dificultam os investimentos produtivos e aumentam o endividamento das famílias, os bancos obtêm grandes receitas com suas operações financeiras e com os títulos da dívida pública.

É justamente esse mecanismo que a presidente do Santander apontou como uma das maiores garantias oferecidas por Lula. O presidente petista, que durante seu terceiro mandato chegou a criticar publicamente os juros elevados, conservou a independência da instituição, mantendo uma das principais reivindicações dos banqueiros e deixou claro em declarações que não vai mexer nessa independência.

Instituições a serviço dos bancos

Botín também elogiou as instituições brasileiras, afirmando que elas oferecem segurança aos investidores estrangeiros.

“Não há nenhuma dúvida de que o Brasil é um país que tem instituições muito sólidas”, declarou.

A banqueira comparou o Brasil aos Estados Unidos, destacando os mecanismos institucionais que limitam as decisões dos governos. Segundo ela, a existência de “freios e contrapesos” reduz a “margem de manobra para mudar, nem para o bem nem para o mal”.

A observação revela o que os banqueiros consideram uma qualidade do regime político brasileiro: a dificuldade de um governo eleito modificar decisões fundamentais para os interesses do grande capital.

A aprovação manifestada por Botín não ficou restrita às declarações. A presidente do grupo anunciou a disposição de ampliar os investimentos no Brasil, destacando a oferta pública de aquisição de ações de sua filial brasileira.

“É uma aposta de médio prazo. Estamos falando de vários bilhões de dólares de investimento adicional no Brasil e creio que mostra a confiança que temos no país”, afirmou.

A decisão de ampliar sua participação no mercado brasileiro mostra que os dirigentes do Santander consideram favoráveis as perspectivas de negócios sob o próximo governo Lula.

O ajuste fiscal que interessa aos banqueiros

A presidente do Santander também abordou a situação fiscal dos governos e defendeu mudanças nas políticas tributárias para adaptá-las à economia digital.

Botín propôs a elaboração de “um novo contrato social que reflita que estamos em uma economia digital”, afirmando que a questão fiscal, a concorrência e o endividamento dos governos exigem mudanças.

Embora não tenha apresentado propostas específicas de cortes de gastos, a banqueira manifestou confiança na capacidade do Brasil de realizar as alterações que considera necessárias.

“É preciso entender bem quais são as questões que precisam ser mudadas, e eu acho que isso é algo que o Brasil com certeza vai fazer, e tenho confiança de que o fará”, afirmou.

As declarações precisam ser consideradas diante da política econômica defendida pelo capital financeiro. Os banqueiros exigem que o Estado assegure o pagamento da dívida pública, mantenha os juros em patamares favoráveis aos credores e limite os gastos que não interessam diretamente aos grandes capitalistas.

Essa é a finalidade do ajuste fiscal. Sob o argumento de equilibrar as contas públicas, os governos impõem restrições aos investimentos em saúde, educação e outros serviços, enquanto preservam os recursos destinados ao pagamento dos juros da dívida.

O governo Lula já vinha seguindo essa orientação durante seu terceiro mandato, por meio do chamado arcabouço fiscal, que estabeleceu limites para o crescimento das despesas federais. A política foi apresentada pelo PT como uma medida necessária para conquistar a confiança dos investidores.

Agora, depois da reeleição, uma das maiores banqueiras do mundo veio confirmar que essa confiança foi efetivamente conquistada. Para os trabalhadores, isso significa a perspectiva de novos ataques aos serviços públicos, aos salários e aos direitos sociais, caso o governo continue subordinando suas decisões às exigências dos bancos.

Apoio dos bancos não é gratuito

Durante a campanha eleitoral, o PT procurou convencer os trabalhadores de que a reeleição de Lula representaria uma vitória contra a direita e uma garantia de proteção dos direitos populares. Entretanto, as declarações da presidente do Santander mostram que os banqueiros não enxergam no governo petista qualquer ameaça aos seus interesses.

Botín chegou a assegurar que o grupo financeiro pretende colaborar com os governos eleitos nos países em que atua.

“Todos os governos democraticamente eleitos em todos os países em que operamos vão contar sempre com o apoio e a colaboração do Santander”, afirmou.

A executiva também defendeu a colaboração entre os governos e as empresas privadas, considerada por ela essencial para a atuação do banco.

Os elogios são especialmente importantes porque partiram de uma representante direta de um dos maiores monopólios financeiros internacionais. Se o governo Lula estivesse preparando uma política de enfrentamento aos bancos, de redução dos privilégios financeiros e de utilização dos recursos públicos para atender às necessidades da população, dificilmente receberia tamanha aprovação de uma dirigente do Santander.

A fala de Ana Botín constitui, assim, uma confirmação da política que se prepara para o próximo período: Lula está disposto a governar em entendimento com os bancos, preservando os mecanismos que garantem seus lucros e abrindo caminho para a continuidade do ajuste fiscal.

O governo que o PT apresentou aos eleitores como uma defesa contra os ataques da direita já recebeu o aval e anima os grandes capitalistas. A conta dessa política, como ocorreu nas experiências anteriores de ajuste fiscal, será apresentada aos trabalhadores brasileiros.

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