O pré-candidato do Partido da Causa Operária (PCO) ao governo do Rio Grande do Sul, César Pontes, afirmou, em entrevista ao Diário Causa Operária, que as enchentes que atingiram o estado em 2024 não podem ser apresentadas como uma simples fatalidade climática. Para ele, a dimensão da tragédia foi agravada por décadas de abandono dos serviços públicos responsáveis pela contenção de cheias, drenagem, saneamento e abastecimento.
Segundo Pontes, a política aplicada no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre preparou o terreno para que as chuvas provocassem uma catástrofe de grandes proporções. O pré-candidato apontou a deterioração do Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE) como um dos principais elementos desse processo. De acordo com ele, a destruição do órgão vem sendo feita há décadas, de maneira progressiva, desde o início dos anos 1960.
Na entrevista, Pontes afirmou que houve uma tentativa de apresentar a enchente apenas como resultado do clima, afastando a responsabilidade das autoridades públicas. Para o pré-candidato, a imprensa burguesa atuou nesse sentido ao reduzir o problema às chuvas, sem dar o devido destaque ao abandono da infraestrutura pública e à política de destruição dos serviços essenciais.
Pontes também declarou que setores importantes da burguesia gaúcha utilizaram a tragédia para fortalecer seus próprios projetos políticos. Ele citou sete famílias entre as mais poderosas de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, entre elas os Vidal, os Vontobel e os Zaffari, que, segundo ele, se aproveitaram da situação criada pelas enchentes com o apoio do prefeito Sebastião Melo.
O pré-candidato afirmou ainda que uma pesquisa realizada por um professor de sociologia documentou as relações entre os pontos de recebimento de doações às vítimas e os interesses políticos ligados a essas famílias. Conforme Pontes, a operação em torno da ajuda humanitária serviu também para dar visibilidade a setores da burguesia local.
Na conversa com o DCO, Pontes relatou ainda sua aproximação com o PCO. Segundo ele, o primeiro contato com o Partido ocorreu em 2013, em Curitiba, durante as manifestações em defesa do ex-presidente Lula. O pré-candidato afirmou que, naquele período, nem mesmo o PT no estado organizou atos consistentes em apoio a Lula, preso pela operação Lava Jato.
A filiação ao PCO ocorreu há quatro anos, já em Porto Alegre. Pontes afirmou que foi atraído pela posição do Partido contra o Supremo Tribunal Federal (STF), o Judiciário, a Polícia Federal e a intervenção do imperialismo norte-americano na política brasileira.
Leia a entrevista na íntegra:
Como você se aproximou do PCO? Por que você decidiu militar pelo Partido? Eu comecei a me interessar pelo PCO em 2013. Eu morava ainda em Curitiba. Foi aí que eu me aproximei, cheguei a participar de algumas manifestações que foram promovidas pelo PCO. Naquela época era em apoio ao Lula — nem mesmo o PT do Estado conseguiu apoiar o Lula — e nós ficamos muito entusiasmados com a defesa feita pelo PCO e participamos. Eu me lembro que foram três manifestações que foram organizadas pelo PCO em Curitiba. Mas eu me filiei mesmo há uns quatro anos. Aí eu já havia voltado para Porto Alegre e, assim, fui estimulado pelos companheiros a participar mais, e fui participando, fui me entusiasmando, fui criando esse vínculo mais estreito com o PCO, e estou aqui até hoje.
Quer dizer, o que te estimulou a vir para PCO foi a luta política, a luta contra o STF, contra o Judiciário, contra a Polícia Federal, contra o imperialismo norte-americano? Sim, sem dúvida. Isso é que fez com que eu participasse de maneira mais intensa. Porque a gente escutava determinados tipos de comentários, mas o pessoal que se organizava mais e participava dessas manifestações era o pessoal do PCO. Então isso aí foi me chamando bastante a atenção e aos poucos eu fui me aproximando, fui conversando com o pessoal e me senti muito bem recebido e estimulado a continuar a luta. Desde então eu comecei a participar mais intensivamente e agora estamos aqui juntos.
O Rio Grande do Sul teve um grande destaque nacional há um ano por um acontecimento muito negativo, que foram as enchentes. Para o PCO, foi um desastre natural ou tem uma causa política? E se tem uma causa política, qual é e como enfrentá-la? Se tivermos que encontrar uma explicação mais visceral, diríamos que isso não teria acontecido com a magnitude com que aconteceu, não fosse a atitude relapsa dos nossos gestores públicos. Eu me lembro que, na época, isso provocou muita discussão e essas mídias que procuravam justificar a situação em função do clima tentaram encontrar uma forma de explicar isso sem que houvesse uma participação mais ativa da responsabilidade dos gestores públicos. Mas isso ficou provado com o tempo, que não foi assim.
Houve um descaso muito grande com relação a como tratar dessa questão. Isso já vinha de décadas. Desde a época em que começaram a sucatear o DMAE, no início dos anos 60, isso já era, de certa forma, tocado. Mas não surgiu nenhum evento que potencializasse essa crítica como aconteceu em 2024. A partir de 2024, a coisa ficou muito mais patente. Aí a população teve uma dimensão mais precisa do que estava acontecendo e a gente pôde tratar o assunto de maneira mais orgânica e mais abrangente.
Você fala em descaso das autoridades públicas. Você acha que esse descaso se deve a algum interesse específico? Sim. O nosso atual prefeito, Sebastião Melo, começou numa ala muito popular do MDB e depois foi guinando à direita conforme o calendário político, e as autoridades foram se aproximando dele em função da popularidade dele, porque ele é um cara muito popular. Ele surgiu na base do MDB.
Então, esse pessoal que apostou muito nesse desastre — por incrível que pareça, teve gente que apostou nisso aí —, esses que apostaram fazem parte do que a gente pode chamar das sete famílias mais poderosas de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Eu citaria alguns nomes aí: Vidal, Vontobel, Zaffari, entre outros. Esses aí se apropriaram da tragédia de 2024 e formaram uma série de pontos onde se recebia material para atender esse pessoal que foi afetado de maneira muito grave por esse episódio.
Um professor de sociologia chamado Marcelo Kunrath, se não me engano, fez uma pesquisa porque começou a perceber que esse pessoal que estava se mobilizando para buscar recursos era gente que só tinha carrão, sabe, muito bem vestido, todo mundo limpinho. E ele disse: ‘não, mas tem alguma coisa estranha aqui, vamos fazer uma pesquisa pra ver de onde é que está vindo essa gente, pra gente ter uma ideia de quem é que está se apropriando dessa tragédia pra tirar algum proveito político’. E ele foi estabelecendo as conexões, foi descobrindo as ligações que existiam entre esse pessoal ligado a essas famílias poderosas e quem organizava a recepção de recursos para atender as pessoas. A partir desse estudo, ele escreveu um texto que foi muito divulgado na época, que estabelecia justamente as conexões entre esses interesses políticos que agora são emergentes no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre principalmente, e daí ele conseguiu estabelecer os vínculos que levaram esse pessoal a utilizar essa tragédia para se potencializarem do ponto de vista político e lançarem as suas pautas com o apoio da população.





