Parceria DCO-COTV

Plantão Irã: ‘Israel’ tortura ativistas e aprofunda crise

Comentaristas trataram do sequestro de 430 ativistas por “Israel”, da filmagem divulgada por Ben-Gvir e da crise no Estado sionista

O sequestro de integrantes da Flotilha Global Sumud por “Israel” foi um dos principais temas do Plantão Irã desta quarta-feira (20), programa diário da Causa Operária TV (COTV) em parceria com o Diário Causa Operária (DCO). A edição tratou da interceptação da flotilha em águas internacionais, da divulgação de imagens de agressões contra os ativistas pelo ministro israelense Itamar Ben-Gvir e da crise aberta no governo de Benjamin Netaniahu.

O programa contou com a participação de Victor Assis e Pedro Burlamaqui. Ao introduzir o tema, Burlamaqui afirmou que a ação de “Israel” contra a flotilha foi mais um crime da entidade sionista.

“Como a gente já vem noticiando, ‘Israel’, o exército israelense, interceptou toda a Flotilha Global Sumud, sequestrou a maioria dos seus ativistas, levando-os de volta para o território da Palestina ocupada. Os números em relação à quantidade de pessoas que foi interceptada, segundo a própria organização da Flotilha, é de 430 ativistas.”

Burlamaqui destacou que Ben-Gvir divulgou um vídeo no X em que aparecem ativistas sendo agredidos por soldados israelenses. Segundo ele, o ministro publicou as imagens com a frase “bem-vindos a Israel”. No próprio vídeo, Ben-Gvir disse aos ativistas: “bem-vindos a Israel, somos os donos da casa”. Uma das mulheres detidas gritou “Palestina livre” e foi empurrada imediatamente. O ministro ainda afirmou: “vieram aqui cheios de orgulho como grandes heróis, olhem para eles agora”.

Para Victor Assis, a publicação feita por Ben-Gvir acabou expondo a natureza do Estado sionista.

“A primeira questão seria: Ben-Gvir é um infiltrado do Hamas? Para dar esse presentão para a resistência? Para mostrar a face mais cruel e fascista do Estado de ‘Israel’. Esse sujeito, além de defender uma política muito criminosa no gabinete de Benjamin Netaniahu, é uma pessoa bastante militante, conforme os seus próprios interesses. Ele não é apenas um burocrata.”

Assis lembrou que Ben-Gvir é conhecido por suas provocações contra os palestinos, incluindo invasões à Mesquita de Al-Aqsa e inspeções em prisões israelenses. Para o comentarista, o vídeo divulgado pelo ministro revelou “a face mais nazista” do Estado de “Israel”, especialmente no tratamento dispensado aos prisioneiros palestinos.

A repercussão das imagens provocou uma reação em cadeia. Burlamaqui apontou que o próprio Netaniahu repreendeu Ben-Gvir após a divulgação do vídeo, afirmando que “Israel tem todo o direito de impedir flotilhas provocadoras de apoiadores terroristas do Hamas, mas a forma como o ministro Ben-Gvir tratou os ativistas não está alinhada com os valores e normas de Israel”. O governo israelense ordenou a deportação acelerada dos ativistas sequestrados.

Segundo Burlamaqui, a mudança de postura do primeiro-ministro ocorreu depois de protestos de governos imperialistas. Itália, França, Espanha, Portugal, Holanda, Bélgica, Canadá, Alemanha, Reino Unido e Grécia convocaram embaixadores israelenses e exigiram explicações. Giorgia Meloni classificou as imagens como “inaceitáveis”; o governo espanhol falou em “tratamento monstruoso”; representantes da Irlanda disseram estar “chocados”; o Reino Unido afirmou estar “verdadeiramente horrorizado”; e o embaixador alemão classificou o episódio como “totalmente inaceitável”.

Assis avaliou que a reação não expressa uma mudança real de posição desses governos em defesa do povo palestino, mas uma tentativa de reorganizar a política imperialista para a região, isolando Netaniahu e seu setor mais exposto.

“Esses países que sempre foram grandes financiadores da entidade sionista passaram a ser muito mais críticos. Mas uma crítica, obviamente, malandra e canalha. Eles procuram criticar, ou falam diretamente, ou dão a entender que o problema é o governo Netaniahu, que o Estado de ‘Israel’ seria em si uma entidade que não agrediria ninguém. É uma hipocrisia enorme, mas isso corresponde a um determinado plano.”

O comentarista afirmou ainda que o objetivo dos países imperialistas é apresentar a política israelense como se fosse um problema exclusivo de Netaniahu, preservando a estrutura do Estado sionista. Segundo ele, a manobra busca preparar “uma outra política na Palestina”, não menos agressiva, mas menos exposta diante da opinião pública mundial.

A crise israelense também apareceu no debate sobre o Parlamento de “Israel”. Burlamaqui informou que o Knesset aprovou por unanimidade, em leitura preliminar, um projeto de lei para dissolver o Parlamento, o que pode levar a eleições antecipadas. A votação terminou em 110 votos a zero. O projeto foi apresentado por uma ampla coalizão de partidos, inclusive com participação do Likud, partido de Netaniahu. O próprio Netaniahu, Israel Katz e Ben-Gvir estiveram ausentes da sessão.

Outro projeto, apresentado pela oposição, também foi aprovado em leitura preliminar, por 53 votos a zero. O opositor Benny Gantz afirmou: “este é o começo do fim. Este governo fracassado irá para casa mais cedo ou mais tarde”. A crise, segundo informações citadas no programa, está relacionada ao impasse sobre a isenção de alistamento militar para os judeus ultraortodoxos, os haredim.

Assis explicou que a dissolução do Parlamento obriga a formação de um novo governo, pois o regime israelense se organiza em torno do primeiro-ministro e de acordos entre partidos no Knesset.

“A impressão que dá é que eles estão tentando antecipar um processo eleitoral já inevitável, porque haveria eleições no final do ano, mês de outubro. A impressão que dá é que eles querem se antecipar à operação que o imperialismo vai fazer para compor um governo diferente do que deseja a extrema, extrema, extrema direita israelense. Parece que é uma tentativa de controlar o processo.”

A edição do programa também tratou da guerra contra o Irã e das ameaças dos Estados Unidos. Burlamaqui afirmou que o cessar-fogo permanece em impasse porque os Estados Unidos tentam impor condições inaceitáveis à República Islâmica. Ele citou declarações do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI), que alertou para uma ampliação da guerra caso a agressão imperialista seja retomada.

“Embora nos tenham atacado com toda a capacidade de dois exércitos, os exércitos mais caros do mundo, não mobilizamos todas as capacidades da Revolução Islâmica contra eles. Mas agora, se a agressão contra o Irã se repetir, a guerra regional que havia sido prometida desta vez se estenderá para além da região e nossos golpes esmagadores os levarão à ruína absoluta em lugares que vocês nem imaginam.”

Para Assis, a política de Donald Trump diante do Irã não se apoia na situação militar concreta.

“O que o governo Donald Trump está fazendo não tem base nenhuma na realidade. Não se baseia em uma análise do terreno militar, na própria correlação de forças na luta política mundial, não se baseia na própria opinião pública nos Estados Unidos, se baseia numa fantasia.”

Outro tema abordado foi a tentativa do Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) de justificar o ataque à escola de garotas em Minab. Burlamaqui leu a declaração iraniana que denuncia a versão norte-americana como uma falsificação.

“A alegação do Comando Central dos EUA de que a escola primária atacada em Minab estava localizada dentro de uma instalação de lançamento de mísseis é uma fabricação sem fundamento e uma mentira abjeta. Essa distorção descarada é uma clara tentativa de ocultar a dura realidade dos ataques com mísseis de 28 de fevereiro, que resultaram no trágico massacre de mais de 170 crianças em idade escolar e seus professores.”

Assis comparou a declaração norte-americana às mentiras usadas pelos Estados Unidos para justificar guerras anteriores, como a invasão do Iraque. Para ele, “Israel” aprendeu com os Estados Unidos e o Reino Unido os métodos de espionagem, tortura e propaganda de guerra.

O programa também analisou a situação do Estreito de Ormuz. Burlamaqui informou que o CGRI afirmou ter coordenado a passagem de 26 embarcações em 24 horas. Segundo a declaração citada, o tráfego pelo estreito ocorre com permissão e coordenação da Marinha do CGRI. O comentarista também mencionou alerta da FAO de que a crise pode gerar um choque nos preços dos alimentos em um prazo de seis a 12 meses.

Assis afirmou que a situação combina pressão econômica e crise política para o imperialismo. Segundo ele, o controle iraniano sobre Ormuz é uma demonstração de soberania diante das potências imperialistas.

“Por ora, para quem defende os países oprimidos, a notícia de que o Irã determinou a sua própria política para o Estreito de Ormuz é uma excelente notícia, estimula os outros países a fazerem o mesmo. Agora, isso certamente é uma coisa inadmissível para o imperialismo.”

Na parte final, o Plantão Irã tratou da conferência do Fatá, partido que governa a Autoridade Palestina. Burlamaqui informou que Mahmoud Abbas foi reeleito presidente da organização, aos 91 anos, enquanto seu filho, Iasser Abbas, empresário sem histórico de militância na resistência palestina, entrou no Comitê Central. O candidato mais votado para o Comitê Central foi Marwan Barghouti, dirigente palestino preso por “Israel” há mais de duas décadas.

Para Assis, a votação expressa uma crise no aparato comandado por Abbas.

“O Abbas é o candidato do aparato. O Barghouti é o candidato da base. O Fatá, graças à ação do imperialismo e do sionismo, se transformou em um partido muito confuso, num balaio de gatos. Mas o fato é que o Fatá é o partido que preside a OLP e preside a Autoridade Palestina. E o mesmo Fatá tem um grupo armado que participou do 7 de outubro e participou de toda a guerra de Gaza em defesa da resistência.”

O último tema foi a situação no sul do Líbano. Burlamaqui informou que o major israelense Itamar Sapir foi abatido em combates terrestres na aldeia de Qousa pelo Hesbolá. Segundo a imprensa libanesa, o combatente do Hesbolá retirou-se ileso após a ação. Foi o segundo oficial israelense de alta patente abatido em três dias no sul do Líbano.

Assis relacionou o desgaste militar à crise política dentro de “Israel”.

“Você tem aí uma política que é a política da extrema, extrema, extrema direita israelense, que é a política de ‘nós precisamos da guerra, então vamos com tudo para a guerra’. E aí a guerra causa um problema econômico, como toda guerra, e ainda joga toda a opinião pública mundial contra o Estado de ‘Israel’. E a população israelense vai fazer a conta: nós perdemos isso tudo aqui. E o que ganhamos? A única coisa que eles estão ganhando é mais corpos para enterrar.”

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