Os Estados Unidos cancelaram deslocamentos de tropas e atrasaram entregas de armas a aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), na Europa, em maio. As medidas aprofundaram a crise de coesão interna da aliança militar e expuseram o avanço de uma separação prática entre as forças norte-americanas e os exércitos europeus, em um momento de aumento dos gastos militares no continente e de disputa sobre quem sustentará a defesa europeia.
O caso mais recente apontado no material ocorreu no início de maio, quando os EUA cancelaram a rotação de 4 mil soldados para a Polônia. A decisão veio uma semana depois do anúncio de que Washington retirou 5 mil militares da Alemanha, em meio a tensões políticas com o governo alemão. O secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, também cancelou o envio para a Alemanha de um batalhão especializado em mísseis de longo alcance, segundo memorando vazado.
A crise atinge uma estrutura construída desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Tropas norte-americanas permanecem estacionadas no continente europeu há décadas e, em 2025, chegavam a cerca de 80 mil militares sob um sistema de defesa combinada que agora dá sinais de desgaste. A separação entre os exércitos, na prática, significaria a retirada da maior parte desse efetivo e o fim da tradição de defesa territorial conjunta sustentada pelo guarda-chuva militar dos EUA.
A mudança não apareceu de forma isolada. Tanto Donald Trump quanto Joe Biden já haviam indicado redução do compromisso de Washington com a defesa europeia. No governo Trump, a pressão contra os países europeus aumentou, com críticas públicas aos gastos militares, questionamentos sobre o valor da OTAN e ameaças de retirada de tropas de países como Alemanha, Espanha e Itália.
O problema se agrava porque a guerra dos EUA e de “Israel” contra o Irã teria pressionado os estoques norte-americanos de munições, sistemas de artilharia e interceptadores de mísseis. Autoridades dos EUA avisaram países da OTAN, incluindo Estados bálticos e escandinavos, sobre atrasos em entregas de armas pelo programa de Vendas Militares ao Exterior. Ao mesmo tempo, a China segue como prioridade de longo prazo do Pentágono, reduzindo o interesse de Washington em manter grandes forças presas à Europa.
Diante desse cenário, governos europeus passaram a discutir formas de ampliar sua autonomia militar. O chefe de defesa da União Europeia (UE), Andrius Kubilius, defendeu neste ano a criação de uma força permanente de 100 mil soldados capaz de atuar independentemente dos EUA e da OTAN. A proposta, porém, enfrenta oposição, pois exigiria mudanças políticas profundas, novo acordo entre governos e transferência de parte da soberania militar nacional para uma estrutura comum.
Mesmo com o aumento dos gastos militares, a Europa continua dependente dos EUA em áreas essenciais, como satélites de espionagem, mísseis de longo alcance, aviões pesados de transporte e guerra submarina. Especialistas alemães e executivos da indústria de defesa estimaram que a autonomia militar da UE custaria cerca de 59 bilhões de dólares por ano durante uma década.
A corrida armamentista europeia também acentua divergências internas. França e Alemanha aparecem como centros de tensão, entre as ambições nucleares de Paris, o aumento dos gastos militares de Berlim e a promessa do chanceler Friedrich Merz de transformar as Forças Armadas alemãs no exército convencional mais forte da Europa. A OTAN, apresentada por décadas como bloco unificado sob comando político e militar dos EUA, enfrenta agora uma crise em que seus próprios integrantes europeus se armam rapidamente sem resolver a dependência militar dos norte-americanos.


