Guerra no Oriente Próximo

Os próximos passos para um acordo entre Irã e EUA

Memorando discutido entre os dois países prevê etapa inicial sobre cessação das hostilidades, bloqueio marítimo, Estreito de Ormuz e US$12 bilhões iranianos bloqueados

A agência iraniana Tasnim informou que houve avanços nas tratativas para a liberação de US$12 bilhões em ativos iranianos bloqueados, após a visita de uma delegação do Irã ao Catar. O tema faz parte das negociações indiretas entre Irã e EUA para um memorando de entendimento que, segundo as fontes citadas pela agência, ainda depende da solução de divergências importantes.

A formulação final do memorando ainda não foi concluída. As fontes ouvidas pela Tasnim destacaram que qualquer anúncio deve ser feito de maneira conjunta. Segundo elas, uma declaração unilateral do governo dos Estados Unidos, especialmente por parte do presidente Donald Trump, poderia apresentar uma versão “não inteiramente precisa” do que está sendo negociado.

Pelo esboço divulgado pela agência iraniana, a primeira etapa do entendimento prevê o fim das hostilidades em todas as frentes, a liberação dos US$12 bilhões em ativos bloqueados, o levantamento do bloqueio marítimo contra o Irã e a reabertura do Estreito de Ormuz. A Tasnim informou ainda que, após a implementação dessa etapa inicial, seria aberto um período de 60 dias de negociações, prorrogável, para tratar do programa nuclear iraniano.

As fontes iranianas afirmaram que, nessa primeira fase, o Irã não assumiu compromissos sobre seus materiais enriquecidos nem sobre a suspensão das atividades de enriquecimento. Também defenderam a suspensão das sanções que impedem a venda de petróleo, petroquímicos e derivados iranianos durante o período de negociação.

A reabertura do Estreito de Ormuz e o fim do bloqueio marítimo devem ser concluídos em até 30 dias, conforme a Tasnim.

A agência Fars, também do Irã, informou que um membro da equipe negociadora iraniana advertiu que Trump pode anunciar unilateralmente, nas próximas horas, a conclusão de um acordo entre os dois países. Segundo o negociador, tal gesto serviria para pressionar o Irã e criar a impressão pública de que todos os pontos já foram resolvidos.

O integrante da delegação iraniana afirmou que “vários arquivos e questões” continuam pendentes e que nenhum acordo será concluído antes que todos os temas de interesse do Irã sejam resolvidos. Ele acrescentou que o Irã anunciará oficialmente o resultado somente quando todas as questões estiverem acertadas.

A televisão estatal iraniana também divulgou detalhes de uma minuta preliminar e não oficial do memorando. O texto prevê que os EUA se comprometam a levantar o bloqueio marítimo contra o Irã. Em troca, o Irã retomaria a navegação comercial nas principais rotas marítimas aos níveis anteriores à escalada militar, dentro de um mês.

A minuta não se aplica a embarcações militares. O documento também estabelece que a gestão e a regulamentação das rotas de trânsito marítimo ficariam sob supervisão iraniana, em coordenação com o Omã.

Outro ponto divulgado pela televisão iraniana trata da presença militar norte-americana ao redor do Irã. A minuta afirma que os EUA aceitariam, em princípio, retirar forças militares de áreas próximas ao território iraniano, incluindo meios militares deslocados recentemente para a região. No entanto, a situação das tropas já instaladas em bases militares permanentes continuaria sujeita a novas negociações.

A televisão iraniana acrescentou que, caso um acordo final seja alcançado em até 60 dias, ele poderia ser apresentado ao Conselho de Segurança da ONU para adoção como resolução vinculante. A emissora ressaltou, no entanto, que o entendimento discutido em Islamabade permanece não resolvido e não finalizado. O Irã, segundo a emissora, não dará passos sem confirmação verificável e concreta da implementação das medidas acertadas.

As tratativas ocorrem com a mediação do Paquistão, o crescimento do papel do Catar e a participação de Omã nas discussões sobre o Estreito de Ormuz. As negociações, porém, encontraram obstáculos em temas considerados fundamentais pelo Irã: o fim das hostilidades no Líbano e o mecanismo de liberação dos ativos iranianos bloqueados.

A CNN informou que o memorando segue incerto, apesar de sinais anteriores de consenso entre os negociadores. Diplomatas citados pelo canal afirmaram que ainda não se sabe quando nem onde o documento pode ser assinado. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, declarou na terça-feira que as negociações ainda precisavam de “um par de dias” para resolver divergências sobre “uma palavra ou frase”.

Rubio afirmou, durante visita à Índia, que as conversas continuam em Doha e estão concentradas em “linguagem específica no documento inicial”. Segundo ele, Trump “vai fazer um bom acordo ou nenhum acordo”.

Trump, por sua vez, afirmou em reunião de gabinete que os EUA não aceitarão que o Irã e Omã controlem o Estreito de Ormuz.

“São águas internacionais. Ninguém vai controlar. Nós vamos vigiar. Vamos vigiar, mas ninguém vai controlar”, disse Trump. “Isso faz parte da negociação que temos”.

O presidente norte-americano também ameaçou Omã diretamente: “Omã vai se comportar como todos os outros, ou teremos que explodi-los”.

As declarações entram em choque com a posição iraniana. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, afirmou anteriormente que a coordenação sobre o Estreito de Ormuz envolve Omã, e não os EUA. O vice-secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ali Bagheri Kani, reiterou que o trânsito pelo estreito é assunto dos países costeiros, ou seja, Irã e Omã.

Trump também tentou vincular um eventual acordo com o Irã à ampliação dos chamados “Acordos de Abraão”, a normalização de relações entre países árabes e “Israel”. O presidente dos EUA disse que países como Arábia Saudita, Catar e Paquistão deveriam aderir ao plano.

“Isso realmente seria um sinal tremendo, e acho que esses países nos devem isso”, afirmou. “Não tenho certeza se deveríamos fazer o acordo se eles não assinarem, quer saber a verdade”.

Em seguida, Trump recuou parcialmente, sem estabelecer a adesão como condição formal. Ainda assim, disse que os EUA só aceitarão um acordo nos termos desejados pelo governo norte-americano: “podemos fazer um bom acordo agora, mas talvez não um grande acordo. E, se não for um grande acordo, não faremos”.

O presidente também rejeitou aliviar sanções em troca da entrega do urânio enriquecido iraniano. “Não estamos falando de nenhum alívio de sanções nem de dar dinheiro. Sem sanções, sem dinheiro, sem nada”, declarou. “Temos controle de dinheiro que eles dizem ser deles. Vamos manter o controle desse dinheiro. Quando eles se comportarem adequadamente e fizerem o que é certo, deixaremos que tenham seu dinheiro”.

A posição norte-americana contradiz pontos que aparecem nas informações divulgadas pela Tasnim, segundo as quais a suspensão das sanções que bloqueiam as vendas iranianas de petróleo e petroquímicos é uma exigência para o período de negociação.

O presidente da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa do Parlamento iraniano, Ebrahim Azizi, afirmou que o Irã não recuará de suas linhas vermelhas por causa das ameaças de Trump. Segundo ele, esses pontos são o direito iraniano ao enriquecimento de urânio, a manutenção dos materiais enriquecidos, o controle sobre o Estreito de Ormuz e a retirada das sanções ilegais dos EUA.

As declarações de Azizi foram acompanhadas por novas advertências militares iranianas. Ali Naderi, vice de relações públicas da Força Aeroespacial do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI), afirmou em programa da televisão iraniana que qualquer nova agressão militar contra o país terá uma resposta diferente da vista até agora.

“Se os inimigos recorrerem novamente à ação militar, o método de confronto da República Islâmica será diferente do que testemunharam até agora, e enfrentarão uma nova face e imagem do poder de combate do Irã no campo de batalha.”

Naderi afirmou que o Irã se tornou mais forte nos campos ofensivo e defensivo e que as linhas de produção de mísseis e VANTs operam em capacidade maior que antes. Segundo ele, um dos principais objetivos dos EUA e de “Israel” nas guerras impostas contra o Irã era interromper essa produção, o que não foi alcançado.

O Canal 12 de “Israel” informou ainda que os EUA comunicaram à entidade sionista a intenção de retirar todas as aeronaves militares norte-americanas do Aeroporto Ben Gurion, perto de Telavive, caso um acordo com o Irã seja alcançado. Segundo a emissora, a frota seria evacuada em até 72 horas para bases na Europa, ficando pronta para retornar se a guerra contra o Irã for retomada.

A informação não foi confirmada oficialmente pelos EUA nem por “Israel”. Nas últimas semanas, companhias aéreas israelenses manifestaram preocupação com a presença de dezenas de aeronaves militares norte-americanas no aeroporto. A ministra dos Transportes da entidade sionista, Miri Regev, enviou uma carta urgente ao primeiro-ministro Benjamin Netaniahu e ao ministro da Guerra, Israel Katz, pedindo a retirada imediata dos aviões de reabastecimento dos EUA, sob o argumento de que eles prejudicam as operações civis no aeroporto.

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