O Correio Braziliense e o Estado de Minas anunciaram que o PCO “rompeu com Lula”. O Midiamax usou a mesma expressão; O Antagonista falou em “romper apoio”. Em 11/10, a 39ª Conferência Nacional do Partido da Causa Operária aprovou o voto nulo no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. O apoio dado a Lula em 2022 virou, quatro anos depois, pretexto para atribuir ao PCO uma aliança com o PT que nunca existiu.
O PCO não entrou no governo, não integrou a frente ampla e não compôs coligação eleitoral com Lula. Pediu o voto nele em uma eleição determinada, por razões discutidas e aprovadas pelo Partido. Apresentar a decisão atual como “rompimento” pode render manchete e criar atrito com o PT, mas embaralha duas coisas distintas: uma orientação de voto e um compromisso político permanente.
Esse é o vocabulário das negociações entre partidos burgueses. Primeiro, o apoio em troca de espaço no governo; depois, quando os interesses mudam, o rompimento e uma nova barganha eleitoral. Não havia uma troca de favores a desfazer no caso do PCO. A Conferência não discutiu cargos perdidos nem alguma desavença pessoal de Rui Costa Pimenta com Lula. Discutiu o que significaria, para os trabalhadores, apoiar uma das candidaturas neste segundo turno.
O voto de 2022 não decorreu de apoio automático ao PT. Em 2014, o PCO votou nulo no segundo turno entre Dilma Rousseff e Aécio Neves. Mas desde 2012 já vinha denunciando a preparação de um golpe contra Dilma, golpe que o Partido combateu desde então e durante anos. Era necessário enfrentar a ofensiva da burguesia contra os direitos políticos da população, independentemente da divergência com o governo petista. Do mesmo modo, a defesa de Lula contra a prisão e a exclusão da eleição de 2018 não levou o Partido a apoiar Fernando Haddad quando o PT aceitou substituí-lo na disputa.
Em 2022, a candidatura de Lula expressava, ainda, a oposição de uma parcela decisiva dos trabalhadores ao golpe de 2016, à perseguição judicial e ao governo Bolsonaro. Havia uma tendência de mobilização popular em torno dessa candidatura. O PCO considerou que intervir nesse movimento, inclusive com o apoio eleitoral a Lula, poderia ajudar a desenvolver a luta independente da classe operária. Continuou denunciando a aliança petista com Geraldo Alckmin e sua política de conciliação com os capitalistas. O voto foi uma decisão diante daquela situação, jamais uma adesão ao programa de um futuro governo.
A nota oficial publicada após a Conferência recorda por que Lula recebeu aquele apoio: “Lula cumpria a função de oposição ao sistema não pelo que pensava, mas pelo que é e pela posição em que estava colocado.” O PCO já apontava suas divergências com o petismo quando defendia a liberdade de Lula, lutava contra o golpe e pedia o voto nele.
Hoje, Lula é o presidente da frente ampla. O governo manteve o arcabouço fiscal, fez da aliança com a direita tradicional uma base de sustentação e ficou a reboque do STF, apoiando sua ditadura. Alckmin é vice-presidente; Simone Tebet ocupa lugar de destaque na administração. O PT defendeu medidas de censura e apostou nos tribunais para combater adversários. A candidatura à reeleição pede aos trabalhadores que mantenham esse bloco no poder. Já não se apresenta como expressão de uma mobilização popular capaz de avançar na direção de uma política independente dos capitalistas.
Por isso a Conferência aprovou o voto nulo, também nas disputas estaduais. O Partido não chama ninguém a votar em Flávio Bolsonaro; sua nota diz isso expressamente. Rejeitar o candidato da direita não obriga os trabalhadores a apoiar Lula e a política do seu governo. O PCO declarou sua posição e informou que não fará campanha de agitação pelo voto nulo. Sua nota aponta como tarefa a luta pelas reivindicações operárias e pelas liberdades democráticas depois da eleição, luta essa que o Partido conclama o próprio PT a participar.





