Brasil

O mundo está em guerra, mas governistas só pensam em eleições

Para surpresa de ninguém, a esquerda só pensa naquilo. Uma parte adota novamente o discurso de ´já ganhou´ que quase terminou mal em 2022

Enquanto o mundo pega fogo, com Saied Ali Khamenei assassinado no Irã e Maduro sequestrado nos Estados Unidos, o setor inabalavelmente otimista do petismo procura pintar o cenário de cor de rosa e tranquilizar o eleitorado de esquerda no Brasil. Nesse cenário, Lula é um líder internacional que peita o imperialismo e cujo governo atual é responsável por melhorias importantes na vida do povo brasileiro.

O otimista Emir Sader decretou em coluna no Brasil 247: “Lula vai ser reeleito no primeiro turno”. Esse é o título da sua coluna em 5 de março. A pesquisa citada na coluna, no entanto, aponta empate técnico de Lula contra dois candidatos num possível segundo turno, Flávio Bolsonaro e Ratinho Júnior. Acertadamente, Sader chama as pesquisas de “peças da campanha eleitoral”, que “servem para alimentar a campanha da oposição”.

Nesse sentido, tudo certo. Porém isso vale sempre, não apenas quando não gostamos dos resultados apresentados. A pesquisa realizada pelo instituto Real Time Big Data foi repercutida no site do Uol/Folha de S.Paulo e aponta vitórias apertadas de Lula, tanto no primeiro quanto segundo turnos. Também acertadamente, Sader critica o universo de apenas duas mil pessoas entrevistadas, como sendo pouco representativo. Como já colocado, as pesquisas eleitorais cumprem papel na manipulação da opinião pública, seja inflando a popularidade de um candidato ou escondendo essa popularidade. Essas variáveis podem ser manipuladas dependendo dos objetivos da burguesia e seu planejamento para as eleições. Em 2022, por exemplo, algumas pesquisas inflaram a tendência de votos de Lula, o que cumpria o papel de desmobilizar a militância de esquerda e até o comparecimento de eleitores lulistas nas urnas.

Nesse momento, o ceticismo de Emir Sader não estava afiado e sua coluna do Brasil 247 de 12 de maio de 2021 (atualizada em 18 de novembro de 2022) foi intitulada “Lula dispara no Datafolha para ganhar no primeiro turno”. O otimismo na ocasião estava dirigido tanto a uma vitória acachapante de Lula, quanto ao impeachment de Bolsonaro. Nem um, nem outro cenário se concretizaram. A vitória de Lula no segundo turno foi apertadíssima e se deu graças à militância, que foi em peso às ruas após o susto do primeiro turno. Dessa vez, Sader traz como argumentos para a possível eleição no primeiro turno a inabilidade de Flávio Bolsonaro em debates e a comparação entre os legados dos governos Lula e do governo Jair Bolsonaro. Nas palavras do autor:

“Politicamente, até a direita parece conformada com a vitória do Lula, concentrando-se nas eleições parlamentares para tentar dar continuidade aos obstáculos que coloca atualmente ao governo. Enquanto um setor do centrão, que tem dificuldade de ficar muito tempo fora do governo, já se aproxima explicitamente do governo.

Além disso, o filho do Bolsonaro escolhido por este para ser candidato já desmaiou e sujou as calças em um debate com a Jandira Feghali. Dá para imaginar como vai se comportar em um debate no horário eleitoral com o Lula? Já busca razões para não comparecer. O que ele poderia contrapor à herança dos governos do Lula, como herança do pífio governo do seu pai?

Um debate eleitoral seria um massacre midiático, que só consolidaria a perspectiva do favoritismo do Lula, que passaria a tender a ganhar já no primeiro turno”.

(Lula vai ser reeleito no primeiro turno, Brasil 247, Emir Sader, 05/03/2026)

Aparentemente ignorante quanto à forma como opera a imprensa golpista, Sader sugere uma conformação com a vitória de Lula, que obviamente não é o candidato ideal para a burguesia. Isso com vários meses para a campanha eleitoral extra oficial que essa imprensa sempre faz e com pelo menos dois escândalos de corrupção para explorar: INSS e Banco Master. Vale lembrar que nem precisa aparecer nada que implique Lula, ou alguém já esqueceu do golpe de 2016 que derrubou o governo Dilma Rousseff com base em “pedaladas fiscais”. Sader também sonha com um debate limpo, onde a superioridade de Lula como um orador de massas se sobreporia ao inábil Flávio Bolsonaro, que passou mal durante um debate para a prefeitura do Rio de Janeiro. Nas últimas eleições, por exemplo, os debates presidenciais foram um circo tamanho que contaram até com o bizarro Padre Kelmon, que obteve 0,07% dos votos e mesmo assim foi enfiado nos debates para avacalhar com Lula. Por que agora em 2026 seria razoável esperar por um debate sério?

Finalmente, é importante ressaltar dois pontos a respeito das eleições de 2026. O primeiro é que tentar enfiar goela abaixo essa versão dos fatos onde o Brasil está indo muito bem é um tiro no pé, pois a realidade se impõe. O mundo está em crise e o governo brasileiro não tomou nenhuma medida radical para enfrentar esse cenário ou para compensar os retrocessos dos governos Temer e Bolsonaro. E o segundo ponto diz respeito ao potencial de desmobilização que esse excesso de otimismo coloca. Se Lula está praticamente eleito, se até a direita já jogou a toalha, então por que a militância de esquerda precisaria tomar as ruas e disputar a opinião pública? Mesmo que tenha que aceitar uma nova eleição de Lula, a burguesia não vai fazer isso deixando o petista acumular o capital político de uma vitória por ampla margem. O ideal, para a classe dominante, é manter Lula sob pressão, como foi nas últimas eleições e como está sendo durante seu governo. Ignorar a realidade e as lições dos últimos anos não é uma estratégia inteligente.

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