No dia quatro deste mês, o MRT e seu coletivo Pão e Rosas publicaram um texto com referência ao Dia Internacional da Mulher Trabalhadora em que saem em defesa do imperialismo contra o governo iraniano, justamente o governo que luta contra os genocidas assassinos de mulheres, crianças e idosos de “Israel”. Logo no começo do texto, no entanto, tentam disfarçar sua opinião:
“Os Estados Unidos e Israel deram início a uma guerra de agressão imperialista contra o Irã, aprofundando a aliança que tem levado adiante o maior genocídio da nossa época contra o povo palestino, agora já assassinou centenas de civis iranianos, destruiu infra-estrutura e também matou o aiatolá e líder supremo iraniano Ali Khamenei. Abriu-se uma situação sem fim previsível, onde os EUA e Israel aprofundam seus ataques, bombardeando também o sul do Líbano e o Irã responde atacando bases militares em países aliados aos Estados Unidos e à capital israelense.”
Poderíamos estar de acordo, no entanto, logo na sequência:
“Retomando a tradição de enfrentamento à guerra da Conferência Internacional de Mulheres Socialistas contra a Guerra em 1915 com Clara Zetkin à frente e todo seu enfrentamento ao imperialismo, nós do Pão e Rosas nos colocamos lado a lado com as mulheres e trabalhadores iranianos contra a agressão imperialista. Isso não significa defender o regime iraniano, mas sim as centenas de milhares de manifestantes que tomaram as ruas em janeiro em defesa das condições de vida da população se enfrentando com este mesmo regime, e estar ao lado das centenas de milhares de mulheres que tomaram as ruas por justiça para Masah Amini desde 2023, enfrentando a polícia da moral iraniana. Por isso, defendemos que é urgente a construção de um grande movimento mundial contra a agressão imperialista, com a classe trabalhadora e a juventude de todo o planeta!”.
Ou seja, querem defender o Irã, mas, ao mesmo tempo, querem defender os protestos organizados pelo Mossad e pelas agências de inteligência do imperialismo, justamente os “protestos” que serviram como preparação para a agressão ao Irã.
É interessante que o texto comente sobre o assassinato de crianças em uma escola justamente no primeiro dia de agressão:
“A poucos dias do 8 de Março, Dia Internacional de Luta das Mulheres Trabalhadoras, mais de 150 meninas foram mortas com ataques de bombas estadunidenses no Irã como parte de um novo salto na ofensiva imperialista de Trump no Oriente Médio, instaurando uma guerra regional.”.
A parte em destaque aparece logo no olho do texto. Logo na sequência, porém, defendem os protestos no Irã, o que é contraditório, pois crianças também foram assassinadas durante esses protestos, não nas ruas pelo governo iraniano, mas pelos próprios “manifestantes”. As balas encontradas nos corpos das crianças e dos mais de 3 mil mortos pelos agentes infiltrados de “Israel” foram apresentadas pelo governo iraniano como sendo munições israelenses.
Ou seja, a declaração da organização em solidariedade às meninas assassinadas e suas famílias de nada vale, é apenas demagogia, já que no caso das crianças assassinadas por infiltrados do imperialismo e de “Israel” durante as manifestações, a organização em questão se coloca junto dos assassinos.
É também interessante que o grupo precise voltar à uma posição de Clara Zetkin de 1915 para justificar seu apoio ao imperialismo. A posição, no entanto, não tem nada a ver com o que está acontecendo atualmente na guerra contra o Irã, já que, em 1915, os bolcheviques estavam em meio à Primeira Guerra Mundial. Naquela época, a posição de não apoiar nenhum dos lados da guerra se dava pois os dois lados da guerra eram imperialistas.
Agora, no entanto, a guerra é entre o imperialismo e países oprimidos como o Irã.
O MRT se diz trotskista. Trótski deixa claro que em qualquer tipo de guerra entre um país imperialista e um país oprimido, os revolucionários devem se aliar incondicionalmente com o país oprimido. Trótski, inclusive, já usou como exemplo o próprio Brasil, dizendo que em caso de guerra entre a Inglaterra supostamente democrática e o governo semifascista de Getúlio Vargas, os trotskistas deveriam se aliar ao Brasil semifascista, pois, sua vitória levaria a que as massas não aceitassem mais a ditadura como forma de governo e, em caso de derrota, a Inglaterra colocaria um governo ainda mais opressor no governo.
No entanto, não é nem de longe esse o caso do Irã. O Irã tem um regime revolucionário desde 1979, sendo um grave problema desde então para o imperialismo, inclusive, organizando a resistência em todos os países da região. É preciso lembrar que somente os governos de Irã e Iêmen enfrentaram os sionistas diretamente, já que os demais, como o Hesbolá e as milícias do Iraque não são o governo de seus países.
As colocações do grupo Pão e Rosas e do MRT, inclusive, não têm sentido algum quando se continua o texto. Isso porque, após declararem que não defendem o regime político iraniano, que está de armas na mão enfrentado o imperialismo, por conta de supostas violações dos direitos das mulheres e de manifestantes, o mesmo artigo defende a ação do Estado capitalista no Brasil quando utiliza a política das mulheres para gerar mais prisões, mais violência contra a classe operária e os demais pobres do Brasil e mais censura:
“Diante da escalada de violência que atravessa o país, o governo Lula relançou o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, colocando ênfase na articulação dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário para enfrentar a violência de gênero. São as instituições que administram esse Estado capitalista, que é totalmente baseado nas relações patriarcais e racistas, tendo que reconhecer e de alguma forma agir diante da escalada da violência de gênero que esse mesmo Estado e suas instituições são responsáveis por perpetuar.”
Repare que o artigo não menciona apenas o governo Lula, mas todo o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, simplesmente a totalidade do Estado. Ou seja, quando se trata de reprimir movimentos armados pelo imperialismo e que atacam a população civil, o MRT se coloca completamente contra o Irã. No entanto, quando se trata de defender a política de repressão e censura do Estado capitalista brasileiro, que utiliza a questão das mulheres apenas como pretexto, o MRT fica ao lado do Estado capitalista brasileiro de conjunto.
Diferente do Estado do Irã, controlado por forças que se opõem ao imperialismo há quase 50 anos e que tem armado e treinado todo o Eixo da Resistência no Oriente Médio, o Estado no Brasil, por sua vez, é controlado pelo imperialismo. Nos dois casos, o MRT se coloca ao lado do imperialismo.
Dizer que defende a população do Irã, mas que não defende o regime que está lutando por essa população é apenas uma demonstração de que a pressão exercida pelo imperialismo sobre a opinião da pequena burguesia atinge tanto o MRT, que esse agrupamento não consegue ter uma posição diferente. Eles dizem no título do texto “pela derrota de Trump e do imperialismo na guerra do Irã!”, mas, para eles, quem enfrentará o imperialismo e irá forçá-lo a uma derrota? O vento irá derrubar os aviões? As ondas vão naufragar os navios de guerra?
A guerra atual é uma guerra entre o imperialismo, “Israel” e os Estados vassalos do imperialismo na região contra o Irã, o Hamas, o Hesbolá, o Ansar Alá, as milícias iraquianas e os demais membros do Eixo da Resistência. Não tem como torcer para a derrota de um sem torcer pela vitória do outro. Pelo contrário, quando se coloca dúvidas sobre a legitimidade daqueles que estão em luta de armas na mão, o que o MRT faz é contribuir com o imperialismo contra esses grupos.
O imperialismo é a força mais bem organizada e potente do mundo. É capaz de acabar com a vida em todo o planeta. É óbvio que, quando se diz “nem um, nem outro”, se recusando a apoiar aqueles que lutam contra essa força monstruosa, o que se está apoiando, no fundo, é a força mais poderosa. Portanto, com essa posição, o MRT apoia o imperialismo contra os iranianos.





