Irã x Estados Unidos

Negociações no Paquistão terminam sem acordo

Conversações em Islamabade duraram 21 horas e terminaram sem acordo após os EUA tentarem impor exigências sobre o Estreito de Ormuz, os materiais enriquecidos do Irã e a guerra no

A terceira rodada das negociações entre Irã e Estados Unidos, realizada neste sábado (11) em Islamabade, no Paquistão, terminou sem acordo após 21 horas de conversações. A TV estatal iraniana anunciou na madrugada de domingo que, “apesar das numerosas iniciativas apresentadas pelo lado iraniano, as exigências excessivas e irracionais do lado americano impediram o avanço das negociações”. A delegação norte-americana deixou Islamabade sem que houvesse data ou local definidos para uma eventual nova rodada.

As reuniões haviam começado depois que o governo norte-americano aceitou discutir com base nas condições apresentadas por Teerã para a trégua de duas semanas anunciada em 8 de abril. As conversações, mediadas pelo governo paquistanês, chegaram à fase de troca de textos escritos e discussão técnica sobre os principais pontos do impasse, entre eles o Estreito de Ormuz, a liberação de ativos iranianos congelados e o fim da agressão do Estado de “Israel” contra o Líbano. Ainda assim, os EUA não cederam em nenhum desses pontos.

A abertura dessas negociações diz respeito à guerra iniciada em 28 de fevereiro, quando os EUA e o Estado de “Israel” lançaram ataques aéreos criminosos contra o Irã. O ataque assassinou altos dirigentes e comandantes iranianos, entre eles o Líder da República Islâmica, aiatolá Saied Ali Khamenei. Em resposta, as Forças Armadas iranianas realizaram pelo menos 100 ondas de ataques retaliatórios contra alvos norte-americanos e israelenses em toda a região e impuseram um bloqueio quase total do Estreito de Ormuz, rota por onde passam 20% do gás natural liquefeito e 25% do petróleo transportado por via marítima no mundo. O fechamento da passagem atingiu os mercados de energia e pressionou diretamente os Estados Unidos, onde os preços dos combustíveis subiram fortemente.

Foi nesse quadro que Donald Trump anunciou, em 8 de abril, concordância com uma trégua de duas semanas nos ataques norte-americanos ao Irã. Na mesma data, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã informou que o cessar-fogo temporário mediado pelo Paquistão havia sido acertado depois que os EUA aceitaram a proposta iraniana de dez pontos. No dia seguinte, o órgão declarou que Washington foi forçado a aceitar um marco que inclui não agressão contra o Irã, manutenção do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz, aceitação do enriquecimento de urânio, levantamento das sanções primárias e secundárias, encerramento das resoluções do Conselho de Segurança da ONU e da junta de governadores da AIEA contra o país, pagamento de compensações, retirada das forças de combate norte-americanas da região e cessação da guerra em todas as frentes, inclusive contra a Resistência Islâmica do Líbano, o Hesbolá.

As conversações em Islamabade foram o contato de mais alto nível entre Irã e EUA desde a Revolução Islâmica de 1979 e a primeira negociação presencial desde o acordo nuclear de 2015. O governo norte-americano havia se retirado daquele acordo em 2018, abrindo um novo período de tensões. Agora, depois de 40 dias de guerra e dos reveses sofridos no campo militar, aceitou sentar-se à mesa sob condições formuladas pelo próprio Irã — e saiu sem resultado.

A delegação iraniana chegou a Islamabade na sexta-feira (10), chefiada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Qalibaf, e pelo chanceler Abbas Araghchi. Também integraram o grupo o vice-chanceler Kazem Gharibabadi, Ali-Akbar Ahmadian, Ali Bagheri-Kani, o presidente do Banco Central, Abdolnasser Hemmati, além de especialistas militares, econômicos, jurídicos e nucleares. Ao todo, eram 71 integrantes. A viagem foi feita no voo “Minab 168”, em referência às 168 estudantes assassinadas pelos militares norte-americanos em 28 de janeiro. Do lado dos EUA, a delegação foi chefiada pelo vice-presidente J.D. Vance e incluiu Steve Witkoff, Jared Kushner e cerca de 300 assessores, técnicos e agentes de segurança.

Antes do início das reuniões, os iranianos se encontraram com o chefe do Estado-Maior do Exército paquistanês, general Asim Munir, com o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, e com o presidente do Parlamento do país. Foram duas reuniões com o chefe do Exército e uma com Sharif, nas quais a delegação apresentou as propostas de Teerã, definiu suas linhas vermelhas e levantou objeções ao que descreveu como violações norte-americanas dos compromissos assumidos. Vance também se reuniu com o primeiro-ministro paquistanês, acompanhado de Witkoff e Kushner. O governo do Paquistão afirmou esperar que as conversações servissem de passo para uma paz duradoura, mas reconheceu que a etapa era decisiva para saber se a trégua poderia ou não ser convertida em cessação permanente da guerra.

O Irã havia estabelecido duas condições para o início das negociações formais: a liberação dos ativos iranianos congelados no exterior e a interrupção da agressão israelense ao Líbano. Qalibaf afirmou que essas duas questões precisavam ser cumpridas antes do início das negociações. A IRNA informou que os EUA aceitaram de modo geral essas condições após intensos esforços diplomáticos. Ainda assim, o governo iraniano deixou claro que seguiria examinando se o outro lado de fato cumpriria o que havia sido aceito.

Na questão dos ativos congelados, as informações permaneceram contraditórias ao longo do sábado. Uma fonte iraniana sênior declarou à Reuters que os EUA concordaram em liberar recursos retidos no Catar e em outros bancos estrangeiros. Segundo essa fonte, a medida estava diretamente ligada à garantia de passagem segura no Estreito de Ormuz. A agência Mehr informou, depois de mais de duas horas de sessão, que Washington havia concordado em liberar os fundos. Um correspondente da IRIB e veículos próximos à delegação norte-americana também noticiaram o entendimento. Pouco depois, porém, os próprios EUA negaram publicamente que tivessem aceitado o descongelamento. Algo que não deve causar surpresa dado que os norte-americanos mentiram sistematicamente ao longo de toda a guerra.

No caso do Líbano, o impasse também continuou. O plano iraniano incluía a cessação dos ataques israelenses ao país e a outros territórios da região. Depois da trégua, porém, os EUA e o Estado de “Israel” passaram a afirmar que a frente libanesa ficaria fora do acordo. O Paquistão confirmou o contrário: o tema estava incluído. Relatos indicaram que “Israel” deixou de atacar Beirute, mas manteve operações no sul do Líbano. A delegação iraniana considerou isso insuficiente e continuou pressionando os mediadores. Netanyahu declarou abertamente que insistiu para excluir o Hesbolá do cessar-fogo temporário com o Irã e que a agressão ao Líbano continuaria. Araghchi condenou os ataques israelenses e cobrou ação imediata para interrompê-los.

As negociações começaram na tarde de sábado, no Hotel Serena, em Islamabade. Primeiro vieram as discussões políticas, no nível das delegações principais. Em seguida entraram em cena as equipes técnicas, com especialistas econômicos, militares, jurídicos e nucleares. Houve uma primeira rodada, depois uma segunda e, por fim, uma terceira, já com participação de Qalibaf, Araghchi e Bagheri-Kani. Antes e depois dessa etapa, os dois lados trocaram textos escritos numa tentativa de fixar um marco comum para as propostas. As sessões se prolongaram por 21 horas consecutivas e terminaram sem acordo.

O principal choque ocorreu quando a negociação chegou ao Estreito de Ormuz e aos materiais enriquecidos iranianos. Segundo as agências Tasnim e Fars, a delegação norte-americana apresentou exigências sobre o controle da via marítima e sobre o programa nuclear que Washington não havia conseguido impor em 40 dias de guerra. Uma fonte citada pela Fars resumiu a situação dizendo que os EUA tentaram obter na mesa o que não alcançaram no campo de batalha. A mesma fonte acrescentou que Washington também fez exigências inaceitáveis em outros dossiês e que a delegação iraniana entrou na reunião determinada a preservar os ganhos obtidos no campo militar. Teerã declarou que a situação do Estreito de Ormuz não mudará sem um “acordo razoável”. Outra fonte afirmou que o Irã rejeita qualquer tentativa de separar os EUA do Estado de “Israel” e responsabiliza diretamente o governo norte-americano pelo fracasso das conversações.

Uma fonte próxima à equipe negociadora iraniana declarou à Fars que a delegação norte-americana parecia buscar um pretexto para abandonar as conversações. Segundo essa fonte, a equipe iraniana buscou preservar os ganhos obtidos no campo de batalha e é Washington quem mais precisa de um acordo para reparar sua posição no cenário internacional. O Irã não tem, no momento, planos de retomar as negociações.

Na madrugada de domingo, o vice-presidente Vance declarou que as negociações duraram 21 horas, mas não produziram resultado. Alegou que os objetivos centrais dos EUA não foram atingidos apesar do que chamou de “flexibilidade significativa” do lado norte-americano. Segundo Vance, o Irã “escolheu não aceitar nossos termos”, e a proposta apresentada é a “oferta final e melhor” de Washington. Teerã apresentou a versão oposta: foram as exigências irracionais dos EUA que inviabilizaram qualquer avanço, e a responsabilidade pelo fracasso recai inteiramente sobre o governo norte-americano.

De Islamabade, o vice-chanceler Kazem Gharibabadi afirmou que a etapa atual “difere fundamentalmente das rodadas anteriores”, sobretudo pela “falta de sinceridade, o engano e a traição dos americanos às negociações”. Acrescentou que esta já não foi “meramente diálogo e negociação, mas uma rodada de exigências”. Segundo ele, o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz é um dos fatores que obrigaram os EUA a aceitar as negociações. Araghchi, em conversa com o chanceler alemão, declarou que o Irã entrou no processo com “completa desconfiança” por causa das repetidas violações norte-americanas e afirmou que a República Islâmica defenderá com firmeza os direitos e interesses da nação. A porta-voz do governo, Fatemeh Mohajerani, também declarou que Teerã “não fará concessões e não recuará de seus direitos”.

Em paralelo às reuniões, a Marinha do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) declarou neste sábado que exerce “controle total e inteligente” sobre o Estreito de Ormuz e advertiu que qualquer tentativa de travessia por embarcações militares receberá “resposta decisiva e contundente”. A nota acrescentou que apenas navios não militares podem receber autorização para transitar pela área. Na sexta-feira (10), o Quartel-General Central Khatam al-Anbiya já havia informado, citando o Líder da Revolução Islâmica, aiatolá Saied Mojtaba Khamenei, que o Irã entrou em uma “nova etapa” na gestão da via marítima após a agressão iniciada em fevereiro.

Também neste sábado, o comandante da Força Quds do CGRI, brigadeiro-general Esmail Qa’ani, afirmou que o Eixo da Resistência está mais forte e mais coeso do que em qualquer outro momento de sua história. O secretário-geral do Hesbolá, xeique Naim Qassem, declarou que o derramamento de sangue no Líbano busca mascarar os fracassos acumulados diante da resistência e reafirmou que a luta continuará até o último suspiro. O governo iraniano voltou a dizer que a cessação da agressão contra o Líbano é parte inseparável de qualquer entendimento mais amplo.

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