A Folha de São Paulo publicou uma reportagem dizendo que mulheres hétero dizem estar no ‘mapa da fome’ nesse domingo (12). A matéria retrata a frustração sexual e romântica de mulheres heterossexuais solteiras e responsabiliza homens por isso, assim como “Redpills” responsabilizam o comportamento das mulheres pela sua própria frustração.
Foram ouvidas 5 mulheres comuns na matéria. As mulheres relatam “problemas no mercado sexual”, “heteropessimismo”, “sobrecarga emocional feminina” e culpam o movimento pílula vermelha (Redpill) pela “explosão de feminicídios”, embora não seja comprovado um aumento real dos assassinatos conjugais de mulheres em descompasso com o aumento do número geral de homicídios e crimes passionais. Sugere ainda que muitas mulheres optam por “celibato” ou solidão como ato de preservação. O caso elucida como o discurso de mulheres comuns pode se aproximar dos “masculinistas” tão atacados pela grande imprensa.
O “masculinismo” seria um espectro de grupos com ideias confusas, as quais buscam explicar o sofrimento dos homens, geralmente tentando atribuir causas diversas à exploração capitalista. As denominações dos subgrupos incluem Redpill, Blackpill, Whitepill, Goldpill e, em geral, qualquer pensamento sobre a dificuldade sexual masculina seguido pelo sufixo “pill”, que significa pílula em inglês. Além desses, há também os “celibatários involuntários” (Incels), subdivididos em verdadeiros (Truecels) e falsos (Fakecels), “celibatários voluntários” (volcels), Homens que Buscam seu Próprio Caminho (“MGTOW”), entre outros. A grande pluralidade de denominações é sinal de falta de centralidade e coesão nos grupos e também de que nenhuma oferece uma solução real, levando homens a circular entre várias na procura por soluções ou explicações.
Na grande imprensa, todas essas correntes aparecem como “misóginas” e defensoras da violência contra as mulheres. Por isso, estaria justificada a repressão e censura presente no PL da “Misoginia”. No entanto, em uma pesquisa na Rede Social X, foi possível identificar que, na verdade, eles falam as mesmas coisas que mulheres comuns falam sobre homens.
As mesmas queixas que as mulheres fazem, quando saem da boca de homens comuns – ou especialmente daqueles que se identificam como Redpill ou se autodenominam celibatários involuntários (incels) –, viram imediatamente “misoginia”, “ódio” e “discurso de ódio” passível de censura ou até cadeia para quem falar.
A seguir, colocamos em correspondência direta algumas afirmações das entrevistadas da Folha com falas reais de internautas no X. Note que as postagens de perfis “masculinistas” afirmam coisas similares ao contrário – e, por isso, são acusadas pela grande imprensa de “misoginia”.
Entrevistada: “Você fica nessa inconstância: será que o problema sou eu? Será que fiz alguma coisa errada?”
Postagem equivalente (ao contrário): “A ideia era nos encontrarmos em um bar de pinheiros […] Estava tudo bem, mas hoje de manhã ela parou de responder e também me tirou dos seguidores. O que eu fiz de errado agora?” (@DiarioIncel)
Entrevistada: “Me disponho a ir até o cara, tratá-lo bem, mas percebo que não é recíproco”.
Postagem equivalente (ao contrário): “E as mulheres só querem usar os homens de graça. Nunca pensam em retribuir a gentileza ou em serem gratas. Acham q o homem deve servir sem esperar algo da mulher.” (@RedpillMike)
Entrevistada: “muitos homens só falam sobre si”.
Postagem equivalente (ao contrário): “Elas nunca nem se importam se o cara tá bem, precisando de algo, triste ou em depressão. Só falam de si mesmas. A maioria q acha q tem amigos homens nem sabe q a maioria tá em depressão pq nem se importa.” (@RedpillMike)
Entrevistada: “a ideia de subserviência e de que o cuidar é tarefa da mulher, o que gera sobrecarga emocional”.
Postagem equivalente (ao contrário): “Então o homem n tem obrigação alguma de ser provedor e protetor.” (@RedpillMike)
Entrevistada: “Enquanto isso, o movimento Redpill tenta manter o sistema funcionando, e o fato de as mulheres estarem rompendo com esse modelo ajuda a explicar a explosão de casos de feminicídio”.
Postagem equivalente (ao contrário): “E a redpill só existe por causa do feminismo, que odeia homens, bora criminalizar misandria também? Ou mais de mil mulheres matando parceiros todo ano não tá bom?” (@SoragamiB)
Os homens reclamam das mesmas coisas: falta de reciprocidade, egoísmo, da falta de resposta das suas mensagens, sobrecarga, expectativa de provedor ou cuidadora, da frustração que leva ao celibato.
A raiz do problema não são os homens e nem as mulheres: é o capitalismo em crise
As dificuldades relacionais não surgem no vácuo. O capitalismo aliena o indivíduo do resultado de seu trabalho, do restante da produção e das demais pessoas presentes na cadeia produtiva, fazendo parecer que o trabalhador está sozinho. Isso favorece o isolamento. A crise capitalista agrava a exploração, torna a vida mais precária e aumenta a insegurança sobre a manutenção das condições de vida do trabalhador, o que faz disparar problemas de saúde mental na população. Como resultado a população fica exausta, ansiosa e com maior dificuldade de construir laços estáveis.
Além disso, o capitalismo transforma as relações afetivas em relações patrimoniais. O afeto cede lugar ao cálculo econômico, à divisão de contas e bens. Uma das mulheres entrevistadas pela Folha chegou a falar em “investimento emocional”, o que explicita a necessidade da entrevistada de quantificar o tempo que cada um dedica ao outro no relacionamento afetivo, um traço reflexo da ideia comercial e patrimonial sobre os relacionamentos.
Tanto homens quanto mulheres sentem essa frieza e cada grupo interpreta a crise à sua moda. O discurso “masculinista” surge justamente para explicar de maneira confusa ou totalmente fantasiosa as dificuldades concretas dos homens, inclusive frente às leis repressivas do Estado burguês.
Embora exista essa similaridade das reclamações das mulheres e dos homens, porque os problemas sociais com relacionamentos são comuns, a grande imprensa busca usar atribuir unilateralmente as reclamações corriqueiras de homens sobre relacionamentos como causa de todo o problema social da mulher, na tentativa de justificar a proibição da “misoginia”. A esquerda, ao apoiar essa política autoritária de censura contra uma ampla camada de homens, além de favorecer o fechamento gradual do regime político para uma ditadura da burguesia, também joga milhões de homens diretamente para a direita.


