Caso Master

Moraes está sujo da careca aos pés

Documentos e conversas revelados ampliam as suspeitas sobre a relação promíscua entre Alexandre de Moraes e o dono do Banco Master

Novas informações sobre o caso Banco Master colocam Alexandre de Moraes novamente no centro das suspeitas envolvendo Daniel Vorcaro. Registros obtidos pelo Estadão indicam que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) participou da edição do contrato milionário entre o banco e o escritório de sua mulher. Paralelamente, conversas encontradas no celular do banqueiro levaram investigadores a suspeitar que Moraes possa ter fornecido informações reservadas sobre a operação da Polícia Filial que terminaria com a prisão de Vorcaro.

Os metadados de uma versão do contrato entre o Master e o escritório Barci de Moraes mostram que o arquivo foi alterado por uma conta do Office 365 identificada com o nome de Alexandre de Moraes.

A alteração foi feita na noite de 15 de janeiro de 2024, pouco depois de Vorcaro devolver ao escritório uma versão revisada do documento.

O escritório de Viviane Barci de Moraes confirmou que o ministro acessou e modificou o arquivo. Segundo a banca, Moraes teria sido consultado para verificar se havia algum impedimento legal à contratação.

Mesmo com essa explicação, o episódio é extremamente comprometedor. O contrato dizia respeito diretamente ao escritório de sua mulher e previa pagamentos milionários feitos por um banqueiro com quem Moraes, como agora se sabe, mantinha contato pessoal.

O acordo previa 36 pagamentos mensais de R$3 milhões líquidos. Considerados os impostos, o valor total ultrapassava R$131 milhões.

O negócio não ficou apenas no papel. Documentos enviados ao Senado indicam que o Banco Master realizou 22 pagamentos ao Barci de Moraes entre 2024 e 2025, somando mais de R$80 milhões.

A participação pessoal de Moraes na edição do contrato acrescenta um elemento importante ao caso. Até então, poderia ser alegado que se tratava simplesmente de uma relação comercial mantida pelo escritório de sua mulher. Os novos registros mostram que o próprio ministro tomou parte na preparação do documento.

Ao mesmo tempo, outra frente da investigação revela uma proximidade ainda mais problemática.

Mensagens extraídas do telefone de Vorcaro mostram que, nos dias anteriores à primeira fase da Operação Compliance Zero, o banqueiro recorria a Moraes para tentar descobrir quais medidas poderiam ser tomadas contra ele.

Em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de sua prisão, Vorcaro chegou a perguntar ao ministro se deveria estar fora do Brasil na segunda-feira seguinte.

No domingo, voltou a procurar Moraes para saber se havia possibilidade de alguma medida ser tomada já na manhã do dia seguinte.

Vorcaro acabou preso na noite de 17 de novembro, no Aeroporto Internacional de São Paulo, quando se preparava para embarcar em um avião particular.

As conversas entre os dois haviam começado a tratar da investigação pelo menos desde o início daquele mês. Vorcaro perguntava sobre a possibilidade de buscas, quebra de sigilo e outras providências judiciais. Também queria saber se havia meios de impedir medidas contra ele e dizia aguardar novas informações do ministro.

Nos dias seguintes, o banqueiro continuou pressionando Moraes em busca de notícias. Queria saber se a situação estava sob controle, se alguma providência contra o Master poderia ser impedida e se seria necessário adotar imediatamente alguma medida judicial.

É justamente esse padrão de comunicação que despertou a atenção dos investigadores.

Segundo pessoas envolvidas na apuração ouvidas pelo Estadão, existe a suspeita de que Moraes tenha repassado a Vorcaro informações sensíveis sobre os primeiros movimentos da Operação Compliance Zero, inclusive sobre possíveis diligências da Polícia Filial.

Isso ainda não está comprovado.

Parte importante das respostas de Moraes não pôde ser recuperada porque os dois utilizavam recursos de visualização única e enviavam imagens contendo textos. Por isso, o material apreendido permite conhecer diversas perguntas, cobranças e reações de Vorcaro, mas não todo o conteúdo encaminhado pelo ministro.

Essa lacuna impede afirmar que Moraes efetivamente vazou informações sigilosas. Não impede, porém, que se constate a natureza extremamente imprópria da relação revelada pelas mensagens.

Por que a comunicação era feita desta maneira, se não havia nada de mais nisso? O que Moraes e Vorcaro temiam, para esconderem suas mensagens dessa forma?

Vorcaro não tratava Moraes como uma autoridade distante. Procurava o ministro justamente quando precisava saber o que poderia acontecer na investigação. Consultava-o sobre o risco de medidas policiais, buscava saber se seria necessário sair do País e perguntava se providências contra ele poderiam ser barradas.

No próprio dia da prisão, ainda tentou descobrir com Moraes se havia alguma novidade e se algo poderia ser impedido.

Outras conversas já reveladas mostraram que Vorcaro também procurava o ministro para tentar chegar ao diretor-geral da Polícia Filial, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. O banqueiro queria saber se seria possível intervir para impedir ou atrasar o avanço das investigações.

O caso, portanto, reúne duas relações que não podem ser separadas. De um lado, havia um negócio de R$131 milhões entre o Banco Master e o escritório da mulher de Moraes, contrato no qual o próprio ministro aparece como editor de uma das versões. De outro, Vorcaro utilizava seu acesso pessoal a Moraes enquanto tentava descobrir o que a Polícia Filial preparava contra ele.

O escândalo se torna ainda maior quando se observa que Vorcaro também manteve relações com outros integrantes da cúpula do regime.

Dias Toffoli levou a investigação sobre o Master ao STF e posteriormente deixou sua condução depois que vieram à tona negócios envolvendo uma empresa ligada à sua família e o resort Tayayá – para onde o ministro viajou dentro de um jatinho de uma empresa de Vorcaro. Participações no empreendimento haviam sido negociadas com fundos e pessoas próximas a Vorcaro.

As revelações mostram uma relação promíscua entre Vorcaro, em particular, mas também os banqueiros em geral, e os ditadores que sequestraram o poder no Brasil atualmente.

É justamente essa camada do Estado que passou os últimos anos censurando, bloqueando contas, determinando buscas, conduzindo investigações e prendendo pessoas com base em acusações muito menos comprometedoras do que as que agora aparecem no caso Master.

Alexandre de Moraes tornou-se o principal símbolo dessa política. Em nome da suposta defesa das instituições, concentrou poderes extraordinários e atuou diretamente contra partidos, jornalistas, dirigentes políticos e usuários das redes sociais, contra os cidadãos comuns.

Agora, porém, quando aparecem informações sobre um contrato de R$131 milhões envolvendo o escritório de sua mulher, sua própria participação na edição do documento e conversas reservadas com um banqueiro às vésperas de uma operação policial, o tratamento é completamente diferente.

Não existe nenhuma superioridade moral nos integrantes do STF. Seus poderes excepcionais não os colocam acima das relações de interesse que dominam todo o Estado burguês. Pelo contrário, o caso Vorcaro mostra justamente como os grandes banqueiros circulam pelo núcleo das instituições e mantêm acesso direto às autoridades que se apresentam publicamente como fiscais de toda a sociedade.

Se um adversário do STF tivesse um contrato milionário com uma pessoa investigada, participasse pessoalmente de sua elaboração e aparecesse em conversas nas quais o investigado tentava descobrir antecipadamente medidas policiais, as buscas, quebras de sigilo e prisões preventivas provavelmente já estariam sendo exigidas como providências elementares.

No caso dos homens que comandam o aparato judicial, a régua é outra. As autoridades que prendem qualquer um por muito menos aparecem, cada vez mais, para usar a expressão popular, mais sujas do que pau de galinheiro.

Também é suspeito que essas revelações apareçam durante a campanha eleitoral. André Mendonça, que é ministro do STF e vice-presidente do TSE, tem claras divergências com Moraes. São, digamos, de alas diferentes dentro do STF. E ele retirou o sigilo da ação, mandando a PF aprofundar a investigação.

Moraes ficou fortemente ligado a Lula desde o início do atual mandato, graças aos processos do 8 de janeiro e à perseguição ao bolsonarismo. Os dois viraram amigos, encontraram-se algumas vezes (inclusive há alguns dias) e Lula, o PT e a esquerda passaram a apresentar o ditador do STF como campeão da luta contra o fascismo. Agora, o candidato mais prejudicado pelas revelações bombásticas contra Moraes é exatamente Lula.

Por outro lado, a terceira via, que é a candidatura ideal da burguesia, aparece como totalmente distante das falcatruas de Moraes. Até mesmo Flávio Bolsonaro não está totalmente limpo nesta história, porque também teve ligações com Vorcaro.

A terceira via é quem mais tem a ganhar com essa história em pleno período eleitoral.

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