São Paulo

Moradores de Heliópolis protestam contra o terrorismo da Polícia Militar

Manifestação fechou ruas da comunidade após duas mortes em operação da Rota; desde o atentado contra um tenente, sete pessoas foram mortas pela corporação

Moradores de Heliópolis, na zona sul de São Paulo, realizaram na noite de segunda-feira (13) um protesto contra a violência das operações policiais conduzidas na comunidade. O ato ocorreu nas proximidades da rua Comandante Taylor, onde manifestantes fecharam vias com barricadas feitas de madeira, pneus e outros materiais. A Polícia Militar respondeu com bombas de efeito moral.

A mobilização foi convocada depois de uma série de incursões da Rota — Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar — em busca de suspeitos de participação no atentado contra o primeiro-tenente Ronickson Pimentel dos Santos, de 39 anos. O policial foi baleado na cabeça em 27 de junho, quando seu carro estava parado em um semáforo de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo.

Desde então, sete pessoas foram mortas por policiais da Rota em ações relacionadas à investigação. Duas delas morreram na manhã de quinta-feira (9), durante uma operação em Heliópolis. Segundo a versão policial, um dos homens era suspeito de envolvimento no ataque ao tenente. As circunstâncias das mortes são investigadas pela Polícia Civil.

Os moradores afirmam que as buscas vêm sendo acompanhadas por invasões de casas, ameaças e agressões. O protesto de segunda-feira expressou a revolta contra a transformação da comunidade em alvo de uma operação de retaliação. Com as barricadas, o trânsito ficou lento nas ruas próximas e veículos tiveram de procurar rotas alternativas.

A Secretaria da Segurança Pública declarou que policiais foram atingidos por pedras, garrafas e fogos de artifício lançados durante a manifestação. A pasta afirmou ainda que um policial ficou ferido e um ônibus foi danificado. Depois do lançamento das bombas, as vias foram desobstruídas pela PM.

A secretaria também declarou que a Corregedoria da Polícia Militar está disponível para receber denúncias de abusos e desvios de conduta. A nota oficial sustenta que a corporação apura as acusações. A declaração, porém, foi divulgada quando o número de mortos nas ações já havia chegado a sete, em operações realizadas em diferentes pontos da Grande São Paulo.

A série de mortes começou depois que o governo estadual mobilizou a estrutura policial para localizar os envolvidos no atentado. A Justiça decretou a prisão de suspeitos apontados como participantes diretos e indiretos, e o governo de São Paulo anunciou uma recompensa de R$50 mil por informações sobre o homem acusado de efetuar o disparo.

De acordo com a investigação, o ataque contra Pimentel foi preparado com antecedência e contou com divisão de tarefas. A Polícia Civil afirma ter identificado veículos usados como apoio e indícios de acompanhamento prévio da rotina do tenente. Nenhuma dessas informações, no entanto, autoriza a PM a aplicar uma punição coletiva contra os moradores da periferia ou a executar suspeitos durante as buscas.

Heliópolis tem sido um dos principais alvos da operação. A entrada de tropas da Rota na comunidade, somada às mortes registradas em poucos dias, produziu um estado permanente de tensão. O protesto ocorreu justamente para denunciar que os trabalhadores do bairro estão sendo tratados como inimigos pela polícia do governo de Tarcísio de Freitas.

O tenente permanece internado na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Estadual Mário Covas, em Santo André. Ele está sedado e recebe ventilação mecânica. Depois de uma traqueostomia, não foram registradas complicações significativas. A equipe médica programou para sexta-feira (17) um ultrassom doppler transcraniano, exame necessário para planejar a redução gradual da sedação.

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