O futebol brasileiro atingiu seu auge nas décadas de 1960 e 1970. Por conta dos interesses políticos da ditadura, o futebol foi entrando em um processo de falência que só teve uma melhora na década de 1990. Mesmo assim, surgiram fenômenos, entre eles Romário, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, inegavelmente gênios da bola.
Com a ascensão do neoliberalismo e o surgimento da Lei Pelé, que retirou a cláusula que protegia os jogadores do mercado, as joias do futebol brasileiro foram exportadas em massa para o futebol europeu, já que, a esta altura do campeonato, o mercado europeu já era muitas vezes superior ao brasileiro.
Com isso, começamos a ver o processo de “europeização” dos jogadores brasileiros.
Ao contrário do que diz a imprensa esportiva brasileira, que bombardeia nos canais de televisão a tese da “modernização” do futebol por meio da Europa, o futebol europeu não passa de uma “carnificina”, como diria João Saldanha, o homem que montou a seleção de 70, considerada por muitos como a melhor da história.
O futebol arte, produto de um amálgama das dificuldades do povo brasileiro, da criatividade em superar problemas, da fusão do samba e do negro, resultou em uma evolução artística ao esporte originado na Inglaterra.
Este futebol arte foi sendo trocado pelo futebol burocrático, europeu, fenômeno que os abutres — refiro-me à imprensa esportiva brasileira — chamam de “evolução do futebol”.
Resumo da ópera: aos poucos, iniciou-se o processo de degradação do futebol arte.
Eis que cai um raio na Vila Belmiro; surge um jovem, desde os primeiros momentos partindo para cima, driblando com jogadas geniais, ostentando sua alegria nas pernas.
Logo no início, foi muito atacado por sua audácia e personalidade dentro de campo; foi apontado como um jogador desrespeitoso, irreverente e marrento. Quem não se lembra do famigerado “estamos criando um monstro”?
No entanto, seu estilo de jogar fez o público se render ao poder altamente decisivo do craque, que, apesar de nunca ter jogado como centroavante, sempre foi artilheiro.
Neymar, longe de ser um jogador midiático et cetera, demonstrou ser um verdadeiro gênio, resgatando o quase desaparecido futebol arte no meio de um dos momentos mais complicados do futebol brasileiro.
Abutres incansáveis
Como dentro de campo se tornou impossível negar a genialidade de Neymar, os maiores inimigos do futebol brasileiro, como diria Nelson Rodrigues, em suas crônicas esportivas, buscaram outra forma para continuar sua histórica campanha contra o futebol brasileiro: a vida particular do atleta.
Muricy Ramalho, famoso por sua filosofia “aqui é trabalho”, rasgou elogios à dedicação de Neymar nos treinos: “o primeiro a chegar e o último a sair”. No entanto, para a imprensa, foi insuficiente!
Os materiais sensacionalistas começaram a buscar a presença de Neymar em festas e outros detalhes da vida privada, como se isso alguma vez tivesse tido importância. Quem não se lembra das farras de Romário, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho, Edmundo, Renato Gaúcho e tantos outros? Não entrarei no mérito por dois motivos:
Creio que o jogador deve ser valorizado por seu desempenho em campo.
Para esta coluna, tamanha escatologia não cabe. Haveria necessidade de um livro, o que prova que Neymar, em comparação aos demais citados, transforma-se em um verdadeiro santo católico.
Mesmo assim, com Neymar, até o número de brigadeiros que come em uma festa vira manchete na redação dos abutres. “Olha só quanta falta de profissionalismo”, dizia um “respeitável” comentarista esportivo e ex-jogador cujos hábitos antiprofissionais são bem conhecidos de todos.
Para nossa felicidade, as fracassadas tentativas da imprensa não impediram que Neymar construísse uma carreira impecável; para muitos, o melhor jogador do mundo das últimas décadas, trazendo alegria para quem ama futebol, particularmente aos brasileiros que têm o privilégio de ter o craque como camisa 10 da seleção canarinha.
O que a política e a esquerda têm com isso?
Solicito calma, querido leitor. Descrevi um pouco da carreira e da campanha da imprensa contra Neymar para apresentar o panorama geral da polêmica em que nos encontramos.
É necessário deixar claro um fato muito ignorado pela esquerda. O futebol, assim como inúmeras esferas da vida cotidiana, é um mercado gigantesco que movimenta muito dinheiro. A imprensa nacional, mesmo esportiva, não tem um pingo de seriedade ou imparcialidade em sua campanha. Assim como nos assuntos políticos e, fundamentalmente, econômicos, o futebol não escapa das garras do imperialismo, que repudia a soberania do Brasil diante dos outros países do mundo, particularmente o futebol europeu, tão exaltado pelos prestadores de serviço do grande capital.
É problemático que a esquerda acompanhe esta campanha orquestrada contra o principal nome do Brasil no futebol das últimas décadas. Poderíamos acreditar que a antipatia com Neymar se deve exclusivamente ao seu posicionamento político, mas isso não é fato, pois o ataque da esquerda a Neymar é anterior ao surgimento do líder da extrema direita. É possível notar que outros jogadores de direita — e não são poucos! — não sofrem a mesma perseguição.
O “bolsonarismo” ou o “fascismo” de Neymar é apenas uma desculpa para a esquerda ficar a reboque da imprensa pró-imperialista, assim como fica em relação à campanha repressiva do STF, à ideia do golpe de Estado no 8 de Janeiro e a toda perseguição política e censura defendidas pela esquerda de mãos dadas com a imprensa dita “nacional”.
É importante frisar que, assim como toda campanha que acompanha as ideias do grande capital, trata-se de uma posição extremamente impopular. À revelia do povo brasileiro, por exemplo, alguns mais exaltados e histéricos chegaram a comemorar as lesões do craque para que não jogasse pelo Brasil.
Como estamos na era inquisitória do cancelamento e do identitarismo, o craque foi rotulado de “fascista”, “misógino” e todo tipo de adjetivo negativo, o que só serve para que o cidadão comum seja atraído pela extrema direita, que, vamos ser normais, tem uma posição mais comum em relação ao craque.
A sanha persecutória da esquerda levou o ataque ao nível de loucura, distanciando-a cada vez mais do povo. Em pleno ano de Copa, houve, até o dia 18, data da convocação final para a Copa do Mundo, uma verdadeira guerra para que Neymar não fosse convocado: a imprensa apontou Neymar como “aposentado”, “ex-jogador”, “não tem condições físicas nem psicológicas” e outras besteiras, tudo isso enquanto o craque vinha carregando o limitadíssimo time do Santos nas costas, demonstrando um futebol de altíssimo nível.
Mais uma vez, a campanha histérica dos abutres fracassou e Neymar foi convocado por seu alto rendimento.
Novamente, a esquerda e todo o conjunto da imprensa entraram em clima de histeria. Não raro, aparecem alguns malucos dizendo: “não vou torcer para uma seleção de ‘fascistas’”.
Em ano eleitoral, com uma eleição disputadíssima, com o PT enfrentando uma série de crises — Banco Master, fracasso da indicação de Messias ao STF e toda campanha da imprensa burguesa que já mostra as garras da traição —, por que não se colocar contra a esmagadora maioria da população no país do futebol?
É natural que a classe média esquerdista odeie o futebol, mas, se pretende ser popular, será um caminho tortuoso declarar guerra ao futebol brasileiro, o esporte mais popular do mundo, particularmente no país do futebol.





