Eleições 2026

Lula virou a salvação da velha direita?

Depois de Haddad lamentar o desaparecimento do PSDB, Moisés Mendes sustenta que a direita tradicional depende de uma vitória de Lula para sobreviver

Lula Paladino

Moisés Mendes resolveu deixar as cerimônias de lado para dizer de maneira explícita o que a política da frente ampla vinha deixando cada vez mais evidente. Em artigo publicado nesta quarta-feira (23) no Brasil 247, o jornalista apresentou uma razão quase inacreditável para se desejar a vitória de Lula: impedir o desaparecimento político da velha direita.

O próprio título já escancara a tese: Só a vitória de Lula impede que a velha direita seja comida pelo fascismo. Segundo Mendes, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Augusto Cury e Renan Santos somente conseguiriam permanecer como possíveis candidatos à Presidência nos próximos anos caso Flávio Bolsonaro seja derrotado em 2026.

“Os quatro só têm chance de sobrevivência se Lula vencer”, escreve o jornalista. Mais adiante, sustenta que a direita somente continuaria existindo como projeto para 2030 se o bolsonarismo fosse derrotado por Lula. E termina com uma formulação ainda mais clara afirmando que “a velha direita inteligente sabe que depende da vitória de Lula”.

Está tudo ali, preto no branco, sem meias palavras. Mendes está apresentando a vitória do candidato petista como condição para preservar politicamente uma série de adversários encarniçados da esquerda: direita pró-imperialista, latifundiária, assassina de índios e de trabalhadores sem-terra.

Pobres eleitores do PT que imaginavam que a eleição de Lula seria para defender salários, emprego, direitos dos trabalhadores ou combate aos grandes capitalistas. Estavam todos enganados. O artigo acrescenta uma nova utilidade ao voto, o de garantir que Caiado, Zema e companhia ainda tenham alguma coisa para disputar em 2030.

A ironia é que Mendes nem sequer foi o primeiro, nos últimos meses, a demonstrar preocupação com a saúde política da velha direita.

Em julho, Fernando Haddad lamentou publicamente o enfraquecimento do PSDB. Em entrevista ao MyNews, o dirigente petista declarou que “queria que o PSDB voltasse a existir”. Também afirmou ser “uma pena” o desaparecimento do partido e disse que petistas e tucanos, embora divergissem, possuíam “conceitos e valores comuns” que considerava importantes para o País.

Haddad foi ainda mais específico. Segundo ele, a antiga disputa entre PT e PSDB ocorria em torno de questões como privatizações e salário mínimo, enquanto certos valores seriam compartilhados. Na mesma entrevista, lamentou a ausência de uma força organizada de “centro-direita” e afirmou que isso tornaria a democracia brasileira “mais complicada”.

Dois meses depois, Mendes praticamente completa o raciocínio.

Haddad gostaria que o PSDB voltasse a existir. Mendes explica como ajudar a velha direita a continuar existindo, basta que Lula vença.

Com isso se modifica o argumento tradicional empregado para justificar a frente ampla. Durante anos, a aproximação com setores conservadores foi apresentada como uma necessidade excepcional para enfrentar Bolsonaro. A direita seria tolerada como aliada circunstancial diante de um adversário considerado mais perigoso.

No artigo de Mendes, já se chegou a outra formulação. A preservação da direita tradicional aparece, ela própria, como uma consequência importante da eleição de Lula.

Não seria mais apenas necessário aceitar Caiado, Zema, Kassab e outros setores semelhantes para derrotar o bolsonarismo. Seria necessário derrotar o bolsonarismo para que esses setores possam continuar fortes.

O problema está colocado pelo próprio Mendes, que afirma que, se Flávio Bolsonaro vencer, estruturas partidárias da direita tradicional poderão ser absorvidas pelo bolsonarismo e que seus atuais pretendentes presidenciais perderiam espaço. Daí extrai a conclusão de que esses políticos deveriam compreender que sua própria sobrevivência dependeria de Lula.

Nesse raciocínio, a campanha petista quase poderia abrir um departamento especializado na conservação de adversários.

“Vote Lula, salve Zema!”

“Lula 2026, Caiado 2030”

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