Nesta sexta-feira (3), durante sua entrevista semanal à TV 247, o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, comentou a chamada “Lei Tabata”, a ofensiva imperialista contra o Irã, o quadro da eleição presidencial de 2026 e os limites da política do PT. Ao tratar do projeto voltado a punir manifestações contra o Estado de “Israel”, Pimenta afirmou que a proposta representa o mais grave ataque à liberdade de expressão apresentado no Brasil nos últimos anos.
Segundo ele, a iniciativa não teria outra utilidade senão ampliar a perseguição aos apoiadores da causa palestina. Pimenta declarou que o projeto constitui uma operação do sionismo internacional e que, se aprovado, serviria para impor penas pesadas a quem criticar o genocídio promovido por “Israel” na Palestina.
“É uma barbaridade, a pior coisa que apareceu aqui em termos de censura é isso. É uma operação do sionismo internacional, não há dúvida nenhuma, verdadeiro complô contra o Brasil. Se a lei for aprovada, a única serventia dela vai ser a de perseguir ainda mais, porque já existe uma perseguição bastante grande aos movimentos de luta pela Palestina. É uma barbaridade. Dependendo do que você falar, que é uma lei de censura, basicamente, você pode pegar 12 anos de cadeia. Imagine só, por criticar o Estado de Israel, que está cometendo um genocídio na Palestina.”
Ao responder sobre a palavra de ordem “Palestina livre, do rio ao mar”, Pimenta declarou que se trata de uma formulação legítima e vinculada à própria história da expropriação do povo palestino. Na avaliação dele, a deformação promovida sobre essa palavra de ordem decorre do desconhecimento da formação do Estado de “Israel” e da expulsão em massa dos palestinos de sua terra.
“Ela é uma expressão legítima. Aqui a maioria das pessoas não conhece a história da Palestina, então tem uma ideia deformada do que aconteceu lá. A Palestina foi tomada de assalto pelo sionismo com a ajuda do imperialismo britânico e depois com a ajuda do imperialismo norte-americano, inclusive com a ajuda da União Soviética na época. Stalin foi um dos que ajudaram a constituir o Estado de Israel. Tomaram de assalto. Aquilo lá era Palestina, um país árabe que estava sob domínio britânico a partir da Primeira Guerra Mundial, quando entra em colapso o Império Otomano. E no final da Segunda Guerra Mundial, eles entregam uma boa parte do território, quase todo o território, para os sionistas, que chegaram lá na sua maioria depois da guerra, depois de 45. Quer dizer, foi uma operação de expropriação da população local sem precedentes. Eu não conheço uma história tão terrível como essa. Um milhão de palestinos foram obrigados, foram forçados a sair do seu próprio país. E o território que hoje seria palestino compreende apenas 22% do território da Palestina histórica.”
Pimenta também rejeitou a hipótese de ingenuidade por parte da deputada Tabata Amaral. Segundo ele, a parlamentar expressa uma política de direita vinculada ao capital internacional e aos interesses sionistas. O presidente do PCO ainda ressaltou que deputados do PT chegaram a assinar a proposta em um primeiro momento e só recuaram diante da reação contrária.
“Não, não é ingenuidade, não. Isso daí é uma política de direita, ela é uma pessoa de direita, negócio do Partido Socialista aí é uma farsa total, isso não é um partido de esquerda. E esses partidos de direita, envolvidos aí com o capital internacional e tudo, porque a Tabata é uma criatura da Fundação Lehmann, né? Isso aí também é público e notório. Isso tudo são agentes do sionismo. Não há nenhuma ingenuidade, não. Isso daí é uma coisa proposital. E o que me espantou é que vários deputados do PT, no primeiro momento, assinaram essa proposta. Aí, sob pressão, teve uma gritaria grande, o pessoal recuou e tirou a assinatura, mas mostra, por exemplo, que não há uma oposição séria dentro do Congresso Nacional a esse tipo de projeto absurdo.”
Ainda sobre a Palestina, Pimenta afirmou não considerar majoritário o apoio popular brasileiro a “Israel”. De acordo com ele, a experiência das campanhas de rua em defesa do povo palestino mostrou simpatia popular pela causa, e não hostilidade. O dirigente disse também que responde a um processo e a outros inquéritos em razão de suas posições favoráveis à Palestina.
Ao passar para a guerra contra o Irã, Pimenta avaliou que a resistência iraniana diante da ofensiva dos Estados Unidos e de “Israel” representa um fato de grande importância na política internacional. Segundo ele, apesar do sofrimento imposto pelos bombardeios, a manutenção da posição iraniana constitui um golpe contra o imperialismo.
“Eu acho uma coisa transcendental na política internacional o fato de que um país atrasado tenha levantado a cabeça contra os Estados Unidos e tenha conseguido manter a situação, até o momento ao que tudo indica. A situação vai terminar mais ou menos do jeito que está. O Trump ameaçou de bombardear as instalações elétricas do Irã, que é mais um monstruoso crime de guerra. É um ataque direto contra a população fazer isso. Eles já cometeram vários crimes de guerra. A dupla Netaniahu-Trump são dois criminosos de guerra. Apesar dessas tentativas, ninguém conseguiu desobstruir o estreito de Ormuz e a briga continua. O Irã, ontem, bombardeou várias instalações norte-americanas novamente, continua bombardeando. Então, eu vejo isso com satisfação, porque a luta contra o imperialismo é uma luta muito difícil.”
Na entrevista, o presidente do PCO sustentou que o alvo permanente do imperialismo é deter o Irã e o Eixo da Resistência, justamente porque a República Islâmica apoia a luta do povo palestino, do povo libanês e de outras forças que enfrentam o domínio imperialista na Ásia Ocidental. Na avaliação dele, a guerra mostrou os limites dos agressores e pode terminar fortalecendo o próprio Irã.
“É um país que, nesses 50 anos de Revolução Islâmica, levantou a cabeça, se constituiu como uma potência militar, apoia a luta dos palestinos, apoia a luta dos libaneses contra Israel, apoiou a revolução levada adiante pelo Ansar Alá no Iêmen, apoiou vários outros movimentos revolucionários ali naquela região. Então, isso daí é uma ameaça permanente para o imperialismo. A existência do Eixo da Resistência, que são essas forças, isso daí é uma ameaça permanente para o imperialismo. O imperialismo tem como objetivo e tem como uma questão prioritária deter o Irã. Agora, é difícil. Eles estão mostrando que eles não têm capacidade de deter o Irã. Por isso que tem surgido análises como na Economist, que o Irã sairá dessa guerra mais forte e mais perigoso. Estão dizendo isso. O Irã pode emergir como uma superpotência daquela região da Ásia Ocidental.”
Pimenta afirmou ainda que, diante do fracasso da operação, setores do imperialismo passaram a trabalhar com a possibilidade de sacrificar Donald Trump politicamente. Segundo ele, os governos europeus apoiariam plenamente a aventura militar caso ela tivesse produzido uma vitória rápida, mas mudaram de posição ao perceber que a operação não daria o resultado esperado.
No terreno da política brasileira, Pimenta afirmou que existe uma diferença importante entre Lula e os candidatos da direita na questão palestina. Segundo ele, embora o governo brasileiro não tenha adotado uma política firme sobre o tema, Lula condenou explicitamente o genocídio mais de uma vez e não pode ser colocado no mesmo plano dos nomes apoiados pela direita pró-sionista.
“Não, obrigatório não, porque isso depende de muitas coisas, sem dúvida nenhuma que isso daí marca uma diferença importante entre o Lula e os candidatos de direita. Porque o Lula, apesar de eu achar que a política do governo brasileiro nunca foi firme na questão da Palestina, o Lula não é sionista. O Lula condenou o genocídio explicitamente, em mais de uma oportunidade. Então, quer dizer, há uma diferença significativa, importante, decisiva, até eu diria.”
Ao comentar a disputa de 2026, Pimenta disse considerar a entrada de Ronaldo Caiado um elemento novo, capaz de alterar a configuração da direita. Para ele, o grande capital tende, em princípio, a olhar com mais simpatia para Caiado do que para Flávio Bolsonaro, mas ainda seria preciso observar como essa movimentação evoluirá.
Segundo o dirigente do PCO, Caiado tentará se insinuar nas bases bolsonaristas, não enfrentá-las frontalmente. Ele lembrou que a primeira declaração do governador goiano ao lançar-se no cenário presidencial foi prometer anistia a Jair Bolsonaro, o que indicaria uma tentativa de apresentar-se como continuidade aceitável do bolsonarismo perante a burguesia.
Pimenta afirmou ainda que o enfraquecimento de Trump pode abrir espaço para uma posição diferente do imperialismo em relação às eleições brasileiras. Na avaliação dele, caso a prioridade passe a ser o combate ao trumpismo, uma vitória de Lula poderia tornar-se mais útil para setores dominantes, embora isso dependa da combinação entre fatores econômicos e políticos.
Sobre a aliança entre Lula e Geraldo Alckmin, Pimenta declarou não ver novidade. Segundo ele, a política de Lula continua sendo a de buscar apoio em um setor secundário do antigo centro político, hoje já bastante enfraquecido. Para o presidente do PCO, o “centro” real da disputa tende a se deslocar mais para a direita, em torno de nomes como Caiado.
Ao tratar da situação brasileira de conjunto, Pimenta afirmou que a economia nacional permanece estrangulada pelo imperialismo e descreveu o País como submetido a uma estrutura colonial. Ele citou o esquartejamento da Petrobrás e a continuidade das privatizações como parte desse processo.
“O Brasil, sob o controle do imperialismo, é um país estrangulado. Você viu essa crise com o diesel agora, isso aí é típico. O Brasil tinha uma das maiores empresas petrolíferas do mundo, que é a Petrobrás, mas é um gigante. A empresa foi sendo privatizada, foi sendo esquartejada. Isso só acontece num país colonial, é uma política colonial. Você vê que o governo do PT não fez isso, ele não esquartejou a empresa, não privatizou nenhuma grande empresa, mas também não reverteu, nunca teve a força necessária para reverter essa situação. Agora, como é que nós podemos crescer se a economia toda foi privatizada? Isso aí é um verdadeiro aspirador de dinheiro que sai do País, que não vai ser reinvestido no Brasil.”
Nesse mesmo ponto, Pimenta criticou o PT e disse que o partido não procura enfrentar o sistema de maneira aberta. Segundo ele, o partido se acomodou à estrutura existente e limitou sua ação a vencer eleições e aplicar reformas moderadas, sem organizar um confronto mais profundo contra a dominação imperialista.
“O PT não busca. Todo mundo usa o termo pragmático sem se dar conta de que o pragmatismo é uma coisa muito negativa. Porque pragmatismo significa que você não tem princípios, que você faz qualquer tipo de negócio desde que sirva ao seu interesse imediato. A política do PT não é bater de frente com esse sistema, é ganhar a eleição, fazer algumas reformas. É meio que um partido que se acomodou ao sistema existente.”
Ao recordar os primeiros anos do PT, Pimenta disse que o partido teve uma base bastante radical em sua origem, embora a maioria de sua direção não tivesse inclinação revolucionária. Ele relatou ter conversado com Fernando Morais para a biografia de Lula justamente sobre esse período inicial e sobre a luta sindical do fim dos anos 1970 e começo dos anos 1980. Segundo ele, o próprio Lula assumiu posições mais à esquerda naquele momento, antes de voltar a se deslocar para a direita sob pressão eleitoral.
Pimenta confirmou ainda que segue na pré-candidatura presidencial pelo PCO. Ele afirmou que a definição deve passar pelo congresso do partido, previsto para junho, e por uma conferência eleitoral posterior. Segundo ele, uma eventual candidatura teria, em grande medida, caráter de propaganda política, com o objetivo de empurrar o debate nacional para a esquerda e recolocar em pauta temas como a reversão das privatizações e o enfrentamento mais duro ao imperialismo.




