O Ministério das Relações Exteriores do Irã condenou, nesta terça-feira (26), a violação do cessar-fogo pelos Estados Unidos na província de Hormozgan, no sul do país, região voltada para o Estreito de Ormuz. A nota afirmou que a República Islâmica responderá a qualquer agressão contra sua segurança nacional e não hesitará em se defender.
A declaração foi divulgada após o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) admitir que forças norte-americanas realizaram ataques no sul do Irã, inclusive contra posições de lançamento de mísseis e embarcações que, segundo a versão dos EUA, tentavam colocar minas navais perto da cidade de Bandar Abbas. O ataque ocorreu enquanto uma delegação iraniana participava, em Doha, de nova rodada de negociações para encerrar a guerra dos Estados Unidos e de “Israel” contra o Irã.
Em nota, o Ministério iraniano denunciou que os ataques coincidiram com o processo diplomático mediado pelo Paquistão e expuseram, mais uma vez, a má-fé do governo norte-americano.
“A prática desses atos agressivos, coincidindo com o processo diplomático em curso mediado pelo Paquistão, revelou mais uma vez a má-fé e a má vontade do establishment governante dos Estados Unidos diante da nação iraniana, dos povos da região e da comunidade internacional”, afirmou o comunicado.
O Ministério também afirmou que os ataques violam o Artigo 2º, parágrafo 4º, da Carta das Nações Unidas, além do acordo de cessar-fogo de 8 de abril. A declaração responsabilizou os Estados Unidos por todas as consequências da agressão.
“Sem dúvida, a República Islâmica do Irã não deixará nenhum ato de agressão sem resposta e não hesitará minimamente em defender a essência do Irã”, alertou a nota.
Agências iranianas noticiaram sons semelhantes a explosões em áreas costeiras a leste de Bandar Abbas e nas proximidades de Sirik e Jask. O porta-voz do Centcom, Tim Hawkins, reconheceu que os EUA realizaram ataques no sul iraniano, alegando tratar-se de “ataques de autodefesa” para proteger tropas norte-americanas.
A justificativa foi rejeitada por Teerã. Para o governo iraniano, a operação norte-americana confirma que os EUA buscam manter a pressão militar mesmo durante as conversações diplomáticas. Segundo a nota, a política da República Islâmica combina diplomacia, mobilização popular e capacidade de dissuasão militar, partindo de uma “profunda suspeita” em relação ao regime norte-americano.
Minuta prevê Ormuz, petróleo e novo prazo de 60 dias
Antes da nova violação do cessar-fogo, a Axios havia informado que Estados Unidos e Irã se aproximavam de uma minuta de acordo para reabrir o Estreito de Ormuz, reduzir a pressão sobre o mercado mundial de petróleo e iniciar uma nova etapa de conversas sobre o programa nuclear iraniano.
Segundo a publicação, o texto previa um memorando de entendimento. Pelo documento em discussão, o Irã reabriria o Estreito de Ormuz, retiraria minas navais instaladas na passagem e permitiria a retomada do tráfego marítimo. Em troca, os EUA suspenderiam o bloqueio contra portos iranianos e emitiriam autorizações para que Teerã voltasse a exportar petróleo livremente.
A proposta também estabelecia um novo prazo de 60 dias para o cessar-fogo, com possibilidade de prorrogação por consentimento mútuo. Apesar disso, autoridades citadas pela Axios advertiram que as negociações continuavam em andamento e que o acordo ainda poderia fracassar antes de sua conclusão.
Baghaei diz que acordo não é iminente
Na segunda-feira (25), antes da nova violação do cessar-fogo, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, afirmou que uma parte importante das conversas havia avançado. Ele, no entanto, descartou a ideia de que um acordo estivesse prestes a ser assinado.
“Dizer que chegamos a uma conclusão sobre uma grande parte dos assuntos em discussão seria correto. No entanto, dizer que isso significa que um acordo está prestes a ser assinado não é algo que alguém possa afirmar”, declarou Baghaei.
O porta-voz iraniano explicou que o programa nuclear não estava em discussão nesta etapa. Segundo ele, o centro das negociações indiretas era o fim da agressão em todas as frentes. Baghaei também afirmou que a gestão do Estreito de Ormuz não estava sendo tratada naquele momento.
Paquistão, Catar e China
O cessar-fogo de 8 de abril foi mediado pelo Paquistão. Segundo Ebrahim Azizi, presidente da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa do Parlamento iraniano, foram os norte-americanos que solicitaram a trégua e a abertura das negociações durante a segunda semana da guerra.
O Catar passou a sediar as conversas. A delegação iraniana em Doha incluía, segundo as informações divulgadas, o ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi, o presidente do Parlamento e principal negociador Mohammad Bagher Ghalibaf, além do presidente do Banco Central, Abdolnaser Hemmati.
A China também apareceu nas articulações diplomáticas. O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, esteve em visita de quatro dias ao país, acompanhado pelo chefe do Exército, marechal Asim Munir. Ambos se reuniram com o presidente Xi Jinping e com o primeiro-ministro Li Qiang.
Os EUA pressionaram por semanas para que a China atuasse sobre o Irã em relação a Ormuz. Antes da reunião, porém, o governo Trump afirmou que não precisava da ajuda chinesa.
Trump também tentou vincular as negociações aos chamados Acordos de Abraão, de normalização de relações entre países árabes e “Israel”. O presidente norte-americano defendeu que Arábia Saudita, Catar e Paquistão aderissem ao processo, procurando transformar o possível acordo com o Irã em uma operação diplomática mais ampla em favor dos interesses dos EUA e de “Israel”.
Irã exige medidas concretas
Azizi afirmou que os EUA precisam cumprir cinco medidas antes de qualquer acordo: fim da guerra em todas as frentes, especialmente no Líbano; garantias de que a guerra não será retomada; fim do bloqueio naval; aceitação dos arranjos iranianos para Ormuz; suspensão das sanções ao petróleo; e liberação dos ativos iranianos congelados.
“Se essas cinco medidas de criação de confiança forem realizadas, entraremos em um prazo de 30 e 60 dias, seguido por discussões sobre os detalhes das sanções e os temas restantes; caso contrário, esse acordo não acontecerá”, afirmou Azizi.
O parlamentar disse que a guerra de 40 dias mostrou a incapacidade dos EUA de impor uma vitória militar ao Irã. Segundo ele, mesmo um eventual acordo não encerraria o conflito fundamental entre Teerã e o imperialismo norte-americano.
O assessor de assuntos políticos do presidente do Parlamento iraniano, Amir Ebrahim Rasouli, reforçou a posição em entrevista à Al Mayadeen. Ele afirmou que Teerã exige liberação de fundos soberanos, suspensão das sanções, retomada das exportações de petróleo e fim das restrições marítimas. Rasouli também declarou que a gestão de Ormuz deve ficar sob supervisão iraniana.
Líbano entra nas negociações
Outro ponto central para Teerã é o Líbano. Ghaleb Abou Zainab, integrante do Conselho Político do Hesbolá, afirmou à Al Mayadeen que o Irã avisou os EUA, por meio de mediadores, que qualquer ataque de “Israel” contra Beirute e seu subúrbio sul comprometerá as negociações.
Segundo Abou Zainab, os EUA dão cobertura política total à agressão israelense contra o Líbano e procuram separar o país das conversas mediadas pelo Paquistão. Ele afirmou que há determinação iraniana para que o Líbano seja incluído em qualquer acordo para encerrar a guerra.
As declarações vieram após novas sanções dos EUA contra figuras libanesas, incluindo três deputados do Hesbolá, um ex-ministro ligado ao partido, integrantes do movimento Amal e oficiais libaneses. Para Abou Zainab, a medida busca pressionar o presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, a aceitar negociações diretas com “Israel”.
Resposta pode ultrapassar a região
Também nesta terça-feira, o porta-voz-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Irã, general de brigada Abolfazl Shekarchi, afirmou à Al Jazeera que o país está preparado para qualquer guerra e já possui alvos definidos em caso de nova agressão.
“Se a guerra for retomada, seu alcance se estenderá para além das fronteiras da região”, afirmou Shekarchi.
O general disse que uma nova agressão terá resposta diferente das anteriores. “Em caso de um novo conflito, a resposta será mais intensa, dura e poderosa que em guerras anteriores”, declarou.
Shekarchi afirmou que a produção iraniana de mísseis e VANTs não foi interrompida durante a guerra e que os inimigos não conseguiram localizar suas posições. Sobre Ormuz, o oficial disse que o Irã administrará a passagem com firmeza para garantir sua segurança e defender seus interesses “com todos os meios necessários”.
“O Estreito de Ormuz não é um assunto norte-americano”, afirmou.
Segundo Shekarchi, se as exportações de petróleo iraniano forem impedidas, o Irã não permitirá a saída de petróleo da região. Ele disse que a atuação iraniana em Ormuz busca impedir a intervenção estrangeira e novas agressões contra o país.





