O Irã e os Estados Unidos se aproximaram de um memorando de entendimento para encerrar a guerra e reduzir a tensão militar no Golfo Pérsico, segundo informações divulgadas neste domingo (24) por Axios, Al Mayadeen e pela agência iraniana Tasnim. As negociações são mediadas pelo Paquistão e envolvem o Estreito de Ormuz, o bloqueio naval norte-americano, os ativos iranianos congelados e uma possível nova rodada de conversações sobre o programa nuclear da República Islâmica.
Segundo o Axios, uma autoridade norte-americana afirmou que os dois países discutem um acordo inicial de 60 dias. Pelo texto apresentado pelo veículo, o Irã reabriria o Estreito de Ormuz, retiraria minas navais e permitiria a retomada do tráfego marítimo irrestrito. Em troca, os Estados Unidos suspenderiam o bloqueio contra portos iranianos e concederiam autorizações para que Teerã voltasse a exportar petróleo.
A mesma autoridade reconheceu que a medida representaria um forte impulso para a economia iraniana. O argumento norte-americano é que o acordo também reduziria a pressão sobre o mercado internacional de petróleo, afetado pela interrupção do tráfego em uma das rotas marítimas mais importantes do mundo.
“O quanto mais rápido os iranianos retirarem as minas e permitirem a retomada da navegação, mais rápido o bloqueio será suspenso”, disse a autoridade ao Axios.
A versão apresentada pelos Estados Unidos, no entanto, foi contestada por fontes iranianas. Segundo a Tasnim, Teerã não aceita vincular a liberação de seus ativos congelados à transferência de reservas de urânio enriquecido ou a concessões no dossiê nuclear. A agência afirmou que os recursos bloqueados devem ser liberados imediatamente em uma primeira fase, como condição para qualquer entendimento.
De acordo com a Tasnim, a liberação dos ativos é uma das “linhas vermelhas” do Irã. Caso os Estados Unidos não cumpram essa condição, “não haverá entendimento”. A agência também afirmou que o texto preliminar deve se basear no princípio de “encerrar a guerra”, e não em exigências unilaterais contra a República Islâmica.
A Al Mayadeen informou que o memorando em elaboração não é um acordo final, mas um quadro político e militar imediato para encerrar a guerra e organizar medidas de redução da tensão. Segundo as fontes ouvidas pelo canal, o documento não inclui cláusula sobre o programa nuclear iraniano, que será discutido em uma via separada após a assinatura do entendimento inicial.
Ainda segundo a Al Mayadeen, o texto prevê o fim do bloqueio naval norte-americano contra o Irã, a retirada da frota dos Estados Unidos das áreas próximas ao país e a liberação de metade dos ativos iranianos congelados, estimados em cerca de US$12 bilhões. O acordo também abriria um prazo de 30 dias para tratar separadamente do dossiê nuclear.
Donald Trump afirmou, em publicação na Truth Social, que um acordo com o Irã está “amplamente negociado” e que restam apenas detalhes finais antes de um anúncio oficial. O presidente norte-americano disse que conversou com dirigentes da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Paquistão, Turquia, Egito, Jordânia e Barém sobre um memorando relacionado ao Irã e à “paz”.
Trump também confirmou que conversou separadamente com o primeiro-ministro de “Israel”, Benjamin Netaniahu. Segundo fontes citadas pelo Axios, Netaniahu demonstrou preocupação com pontos do acordo referentes ao fim da guerra israelense contra o Líbano.
A proposta, segundo o veículo norte-americano, inclui cláusulas para encerrar a agressão de “Israel” contra o Líbano. Uma autoridade dos Estados Unidos afirmou que o acordo não significaria um cessar-fogo unilateral, pois “Israel” manteria a possibilidade de responder caso o Hesbolá tentasse se rearmar ou realizar ataques.
“Se o Hesbolá se comportar, Israel se comportará”, disse a autoridade ao Axios.
O acordo, nesse sentido, preserva margem de ação para “Israel”, ao mesmo tempo em que os Estados Unidos buscam reduzir a crise regional aberta pela guerra contra o Irã. Mesmo assim, a reação de Netaniahu indica que a negociação é vista pelo sionismo como um recuo diante da resistência iraniana e do impacto econômico da guerra.
As negociações ocorrem depois de meses de escalada militar e econômica. A agressão dos Estados Unidos e de “Israel” contra o Irã culminou em 28 de fevereiro, com ataques que assassinaram dirigentes e comandantes iranianos, incluindo o líder da Revolução Islâmica, Ali Khamenei. As Forças Armadas da República Islâmica responderam com 100 ondas de ataques contra alvos norte-americanos e israelenses em toda a região.
Em 8 de abril, após 40 dias de guerra, entrou em vigor um cessar-fogo temporário mediado por Islamabade. Os Estados Unidos depois prorrogaram unilateralmente a trégua, mas impuseram um bloqueio naval contra embarcações e portos iranianos. Teerã denunciou a medida como violação do cessar-fogo.
O assessor do líder da Revolução Islâmica, Mohsen Rezaei, afirmou neste domingo que o Irã romperá o bloqueio naval norte-americano caso os Estados Unidos retomem os ataques. Ele também advertiu que a República Islâmica pode deixar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) se a agressão voltar.
“Se vocês entrarem no Golfo Pérsico, em primeiro lugar, nós daremos uma resposta dura, dolorosa e sem precedentes e romperemos o bloqueio naval”, afirmou Rezaei.
“Mas, mais importante, podemos nos retirar do TNP. Vocês sabem o que acontecerá se nos retirarmos? Então, não cometam suicídio”, acrescentou.
Rezaei, ex-comandante do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI), afirmou que o programa nuclear iraniano é pacífico e está sob vigilância permanente da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Segundo ele, a equipe negociadora iraniana declarou firmemente que o país não abre mão de seus direitos nucleares.
O Comando-Geral do CGRI também divulgou uma mensagem neste domingo, aniversário da libertação de Khorramshahr, em 24 de maio de 1982. A cidade portuária iraniana ficou 578 dias sob ocupação iraquiana durante a guerra imposta ao Irã nos anos 1980.
Na nota, o CGRI afirmou que as Forças Armadas iranianas estão em seu mais alto grau de prontidão e dissuasão ativa, em todos os campos: mísseis, defesa aérea, marinha, forças terrestres, espaço e guerra cibernética.
“Qualquer nova agressão do inimigo terá como resultado uma resposta devastadora e infernal em nível regional e extrarregional”, afirmou o comando.
O presidente iraniano Masoud Pezeshkian também se pronunciou sobre as negociações. Em reunião com dirigentes da Radiodifusão da República Islâmica do Irã (IRIB), Pezeshkian afirmou que nenhuma decisão será tomada fora do Conselho Supremo de Segurança Nacional e sem a autorização do líder da Revolução Islâmica, aiatolá Saied Mojtaba Khamenei.
“Nenhuma decisão na República Islâmica do Irã será tomada fora do quadro do Conselho Supremo de Segurança Nacional e sem a coordenação e permissão do Líder”, declarou.
“Quando uma decisão é tomada no campo da diplomacia, todas as instituições, plataformas e movimentos devem apoiá-la para que uma voz única e coerente seja transmitida ao mundo a partir da República Islâmica”, acrescentou Pezeshkian.
Do lado norte-americano, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou, durante visita à Índia, que a proposta é “bastante sólida”, mas ainda está em andamento. Segundo ele, a negociação trata da reabertura do Estreito de Ormuz e de uma nova conversação, com prazo definido, sobre o programa nuclear iraniano.
“O presidente não fará um mau acordo”, disse Rubio, tentando responder às críticas de setores que rejeitam qualquer alívio econômico ao Irã.
A pressão interna contra Trump aumentou após relatos de que os Estados Unidos podem aceitar um acordo que permita a reabertura de Ormuz e a retomada das exportações iranianas de petróleo. Setores mais ligados ao sionismo exigem que os Estados Unidos mantenham a campanha de pressão até impor concessões mais amplas a Teerã, envolvendo enriquecimento de urânio, capacidade militar e atuação regional.
Trump respondeu aos críticos afirmando que o bloqueio aos portos iranianos continuará “em plena força e vigor” até que um acordo seja alcançado, certificado e assinado. Depois, afirmou que “ninguém viu” o acordo e que ele ainda não está totalmente negociado.
Apesar do otimismo dos Estados Unidos, a posição iraniana permanece centrada no fim da guerra, na suspensão do bloqueio naval e na liberação dos recursos congelados. A Tasnim afirmou que Teerã “não fará concessões em suas linhas vermelhas para garantir os direitos de seu povo”.




