Análise Internacional

‘Irã domina a situação no Golfo Pérsico’, diz Rui Pimenta

Pré-candidato à Presidência do PCO afirmou que o controle do Estreito de Ormuz impede uma vitória fácil do imperialismo contra a República Islâmica

O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência, Rui Costa Pimenta, afirmou, nesta quinta-feira (30), no programa Análise Internacional, do Diário Causa Operária no YouTube, que a crise aberta no Golfo Pérsico colocou o imperialismo norte-americano diante de uma situação de difícil solução. O programa, transmitido todas as quintas-feiras, às 12h30, tratou da guerra contra o Irã, da crise na Ucrânia, da situação política da América Latina, da Palestina e do declínio do regime britânico.

Logo no início da análise, Pimenta destacou que o ponto central da crise militar e econômica está no Estreito de Ormuz, por onde passa parte decisiva do petróleo transportado no mundo. Segundo ele, a República Islâmica tem uma vantagem que os Estados Unidos não conseguiram superar até agora.

“O Irã tem uma vantagem que é inegável. Independentemente do confronto militar direto, eles têm o controle do estreito de Ormuz. E potencialmente, através dos aliados, têm o controle do estreito de Bab al-Mandeb. Quer dizer, eles possuem uma situação que é de estrangulamento econômico total. Os Estados Unidos atacaram o Irã, fizeram um bombardeio criminoso, mataram muitos civis, destruíram alguns alvos militares, mas também, principalmente, destruíram alvos civis. Não conseguiram nada. O X do problema em termos militares é o Golfo Pérsico”, afirmou.

Para Pimenta, o fato de os Estados Unidos ainda não terem conseguido controlar a situação no Golfo Pérsico mostra a fraqueza da operação norte-americana. “O fato de que os Estados Unidos até o momento não tenham feito nada mostra que eles não têm condições de controlar o Golfo Pérsico”, disse. “Nós temos aí um conjunto de fatores, com o estreito de Ormuz se colocando no centro desses fatores, que praticamente impedem a vitória do imperialismo”.

O dirigente também comentou as informações contraditórias que circulam na imprensa norte-americana sobre a posição de Donald Trump. De um lado, o jornal The New York Times indicou que Trump avalia declarar vitória e recuar. De outro, setores do imperialismo defendem um bloqueio prolongado aos portos iranianos. Pimenta avaliou que a contradição mostra a indecisão do governo dos Estados Unidos.

“Porque o próprio governo está indeciso, não sabe o que fazer. Esse problema, por exemplo, de bloquear o petróleo iraniano é complicado, porque se os iranianos mantiverem o Estreito de Ormuz bloqueado, o petróleo vai de US$126,00 que já está — estava US$80,00 no começo da guerra, esse é um aumento de mais de 50% no preço do barril — a situação pode chegar a US$200,00, US$250,00 o barril. E aí? É uma situação insustentável. Eu acho que a alternativa de cantar vitória e sair fora é a melhor”, afirmou.

Ao tratar da saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP, Pimenta afirmou que o país foi o que mais se alinhou aos Estados Unidos entre as monarquias do Golfo. Na avaliação dele, a guerra demonstrou que os países da região estão indefesos diante da força iraniana e que o imperialismo não consegue protegê-los.

“Todos os países do Golfo perceberam que eles são países sem defesa diante do Irã. O imperialismo não consegue defender os países do Golfo. O Irã praticamente dominou a situação ali. E a Arábia Saudita, que seria o principal país da articulação que existe entre os países do Golfo, também não conseguiu se opor ao Irã”, disse.

Ucrânia

Na sequência, Pimenta analisou a crise do regime ucraniano, em meio a novos escândalos de corrupção, disputas internas nos órgãos de inteligência e especulações sobre uma possível tentativa de afastar Volodimir Zelensqui do governo. Segundo ele, a decomposição do regime político da Ucrânia está evidente.

“Olha, eu acho que a decomposição do regime político ucraniano é patente. São muitos os indícios dessa decomposição. Começa pelo problema chave do recrutamento. Eles não estão conseguindo manter o recrutamento de pessoas para serem enviadas ao campo de batalha, porque a maioria considera isso aí como morte certa, que eles são bucha de canhão. E depois nós temos os repetidos escândalos de corrupção. Esse daqui, por exemplo, é um escândalo muito grande. O cidadão que está envolvido no escândalo é, segundo a imprensa, parceiro de negócios do Zelensqui. Quer dizer, um escândalo de grandes proporções”, afirmou.

Pimenta disse que existem setores do próprio governo ucraniano interessados em se livrar de Zelensqui, mas que a operação encontra obstáculos. O principal deles, segundo o dirigente do PCO, é a interferência do imperialismo, que mantém Zelensqui como peça decisiva da guerra contra a Rússia.

“Eu acho que há um esforço de setores dentro do governo ucraniano para se livrar do Zelensqui. Agora, nós temos que considerar que isso aí é complicado por dois motivos. Primeiro, pela situação geral do país: qual que é a solução que um novo governo apresentaria? Porque os russos vão exigir uma capitulação, não vão querer um acordo qualquer. E segundo, pelo fato de que há uma interferência muito grande do imperialismo dentro desse governo, sustentando o Zelensqui. Para o imperialismo, o Zelensqui é uma peça fundamental.”

O dirigente também comentou a crise dentro do próprio governo Trump sobre a Ucrânia. Para ele, o caso confirma que Trump não representa diretamente o setor fundamental do Estado norte-americano responsável pela política imperialista tradicional.

“O Trump não leva adiante a política do setor fundamental, do setor imperialista, que domina o Estado norte-americano. A declaração desse senador aí de que os Estados Unidos podem perder o seu status como principal potência por causa da Ucrânia é uma realidade, porque os russos estão até o momento impondo naquela região a sua preponderância, sobretudo sobre o imperialismo. A Operação Militar Russa foi um desafio à ordem imperialista”, disse.

Segundo Pimenta, a crise ucraniana e a crise no Golfo Pérsico expressam uma perda de controle do imperialismo sobre regiões decisivas do planeta. “É uma situação muito dramática para o imperialismo”, afirmou. “E uma delas está sendo provocada pelo próprio Trump, pelo presidente dos Estados Unidos, que é a Ucrânia. Na verdade, ele está provocando as duas, porque a operação militar muito mal concebida dele levou ao desastre que nós estamos vendo aí no Golfo Pérsico”.

América Latina

Na parte dedicada à América Latina, Pimenta analisou a queda de popularidade de Javier Milei, na Argentina. Segundo ele, o resultado era inevitável diante da política neoliberal aplicada pelo governo argentino, marcada por ataques às condições de vida da população.

“Política neoliberal é uma política de ataque às condições de vida da população, da esmagadora maioria da população. É política duríssima de ajustes. É difícil que essa política passe em brancas nuvens. Quando a política foi aplicada pela primeira vez na Argentina, governo Menem — lembrar que o Menem era um peronista também —, ele começou com uma política de ajuste, uma espécie de política do FHC no Brasil, privatizações, essa coisa toda”, afirmou.

Pimenta comparou a situação atual da Argentina com a crise posterior ao governo Menem, que resultou na queda de Fernando de la Rúa diante de uma gigantesca mobilização popular. Para ele, Milei conseguiu avançar até agora principalmente pela falta de iniciativa da oposição peronista.

“Eu acho que o que facilitou muito o Javier Milei até agora foi justamente a falta de iniciativa da oposição, principalmente da oposição peronista. As principais alas do peronismo deram apoio a ele, com uma retórica e tal, mas deram apoio. E a esquerda não fez nada, a esquerda kirchnerista do peronismo. O restante da esquerda também, uma nulidade. Nem para levantar o ‘fora Milei’ e nada. Enquanto o Milei destrói a economia argentina, eles ficam preocupados com o identitarismo”, afirmou.

O presidente do PCO também comentou a situação do Chile sob José Antonio Kast. Segundo ele, o país vive um processo semelhante ao da Argentina, mas de maneira mais rápida, em razão da fragilidade da economia chilena e da crise prolongada que atravessa o país. “O que nós temos aqui no Chile, na minha opinião, é um efeito Milei, só que muito mais rápido”, disse.

Palestina

Outro ponto tratado no programa foi a política da esquerda diante da luta palestina. Pimenta criticou os setores que afirmam apoiar a Palestina, mas se recusam a apoiar o Hamas e o Hesbolá. Para ele, essa posição mantém a esquerda presa à política do imperialismo.

“A esquerda não consegue romper totalmente com o imperialismo. Nós vimos no caso brasileiro, essa política do ‘mas’ é a política do governo Lula. Recentemente o governo Lula foi protagonista de outro vexame internacional, quando brasileiros foram mortos pelos bombardeios sionistas e o governo repudiou tanto o sionismo quanto o Hesbolá. Então quer dizer, o Itamaraty já não disfarça mais a sua política pró-sionismo”, afirmou.

Pimenta disse que a oposição ao Hamas e ao Hesbolá, no momento em que essas forças estão na linha de frente da luta contra “Israel”, significa colocar o destino da Palestina nas mãos das potências imperialistas.

“Nós somos contra os bombardeios sionistas no Líbano, mas o Hesbolá, mas o Hamas… quer dizer, essa restrição ao Hamas e ao Hesbolá é uma política pró-imperialista. Não faz sentido. Na realidade, quer que o imperialismo resolva o problema da Palestina, porque se não vai ser resolvido pela luta — e a única luta que faz sentido nesse momento é a luta armada para palestinos e libaneses — tem que ser resolvido pela diplomacia dos países imperialistas. É colocar o destino da Palestina e dos palestinos na mão do imperialismo.”

Reino Unido

Pimenta também comentou a suspensão da deputada britânica Zarah Sultana, punida no Parlamento por ter chamado o primeiro-ministro Keir Starmer de mentiroso. Para o dirigente do PCO, o episódio mostra o caráter repressivo do chamado decoro parlamentar.

“O decoro parlamentar é uma ferramenta de intimidação dos próprios parlamentares. Não tem que ter decoro. O parlamentar, quando ele sobe na tribuna, ele teria que ser intocável. Quer dizer, quando ele toma a palavra dentro do parlamento, não tem nenhum tipo de restrição. Não pode haver nenhum tipo de restrição”, afirmou.

Segundo Pimenta, a punição da deputada mostra o declínio do regime político britânico e o medo da burguesia diante do surgimento de uma esquerda que escape ao controle tradicional do Partido Trabalhista.

“A punição da deputada mostra também em que pé está o regime político britânico. É uma crítica política bem acertada. A imprensa revelou que uma pessoa indicada pelo primeiro-ministro, o Starmer, cuja popularidade está lá no porão de tão baixo, estava envolvida no escândalo do Epstein. E o ministro foi lá e deu uma de louco. Inclusive, a agência de inteligência do governo falou que tinham coisas estranhas no passado dele e recomendou que ele não fosse indicado para o cargo. O Starmer ignorou isso”, disse.

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