O Irã suspendeu, nesta segunda-feira (1º), as negociações indiretas e a troca de mensagens com os Estados Unidos por meio de mediadores, diante da continuidade dos ataques de “Israel” contra o Líbano e das ameaças de bombardeio contra Dahiyeh, subúrbio sul de Beirute. A informação foi divulgada pela agência iraniana Tasnim, segundo a qual Teerã considera que a frente libanesa fazia parte das condições centrais do cessar-fogo firmado com os norte-americanos.
A decisão ocorreu depois de Benjamin Netaniahu ordenar novos ataques contra Dahiyeh, alegando supostas “violações repetidas” da trégua por parte do Hesbolá. O chefe do governo sionista afirmou que ele e o ministro da Defesa de “Israel”, Israel Katz, instruíram o exército a atacar “alvos” na região.
A ameaça provocou deslocamento de moradores do subúrbio sul de Beirute. A emissora libanesa MTV informou que o trânsito ficou intenso nas saídas das vias que levam a Dahiyeh, enquanto forças de segurança tentavam organizar o fluxo.
O cessar-fogo no Líbano entrou em vigor em 17 de abril e foi prorrogado posteriormente por mais 45 dias, a partir de 17 de maio, após negociações mediadas pelos EUA. Mesmo assim, “Israel” manteve ataques contra o território libanês. Segundo o Ministério da Saúde do Líbano, as agressões sionistas no período anterior e posterior à aplicação da trégua assassinaram mais de 3.400 pessoas. Outras informações indicam quase 10.200 feridos e mais de 1,6 milhão de deslocados desde a ofensiva ampliada iniciada em 2 de março.
Teerã suspende conversas com os EUA
De acordo com a Tasnim, autoridades iranianas decidiram interromper as negociações e a troca de mensagens com os EUA até que as preocupações de Teerã sobre o Líbano sejam atendidas. A agência informou que os negociadores iranianos exigem o fim imediato das agressões sionistas em Gaza e no Líbano, além da retirada completa das forças de “Israel” das áreas ocupadas no sul libanês.
Segundo a informação divulgada pela agência iraniana, não haverá novas negociações enquanto a posição do Irã e do Eixo da Resistência sobre esses pontos não for considerada. A suspensão atinge os contatos indiretos que vinham sendo realizados por intermédio de mediadores, após a trégua entre Irã e EUA.
A posição iraniana é que o cessar-fogo entre Irã e EUA inclui todas as frentes da guerra regional. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, publicou uma mensagem sobre o assunto.
“Para atenção imediata: o cessar-fogo entre o Irã e os EUA é inequivocamente um cessar-fogo em todas as frentes, inclusive no Líbano”, afirmou Araghchi. “Sua violação em uma frente é uma violação do cessar-fogo em todas as frentes. Os EUA e ‘Israel’ são responsáveis pelas consequências de qualquer violação”.
A trégua entre Irã e EUA entrou em vigor em 8 de abril, após mediação do Paquistão, no 40º dia da guerra imposta pelos norte-americanos e por “Israel” contra a República Islâmica. Donald Trump havia anunciado unilateralmente o cessar-fogo no dia anterior. As negociações seguiram em Islamabade, mas não chegaram a um acordo final por causa das exigências descabidas dos EUA, incluindo o bloqueio naval contra navios e portos iranianos.
O memorando de entendimento em discussão entre Irã e EUA deveria encerrar o ciclo iniciado pela agressão de 28 de fevereiro, quando os EUA e “Israel” passaram a atacar a República Islâmica e outras áreas da região. Para Teerã, nem o governo norte-americano nem o regime sionista cumpriram os compromissos assumidos.
Ghalibaf: ‘a conta chega’
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que o bloqueio naval imposto pelos EUA ao Irã e a escalada sionista no Líbano comprovam que os norte-americanos não cumprem o cessar-fogo.“O bloqueio naval e a escalada dos crimes de guerra no Líbano pelo regime sionista genocida são uma evidência clara do descumprimento do cessar-fogo pelos EUA”, escreveu Ghalibaf.
O dirigente iraniano acrescentou uma advertência direta aos EUA e a “Israel”: “toda escolha tem um preço, e a conta chega. Tudo se encaixará”.
Ghalibaf é um dos principais negociadores iranianos nas conversas indiretas com os EUA. Sua declaração foi feita no momento em que “Israel” intensificou ataques contra áreas civis libanesas, manteve incursões ao norte do rio Litani e emitiu ordens de deslocamento forçado contra comunidades do sul do Líbano.
As agressões sionistas também atingiram a infraestrutura libanesa. Além dos bombardeios, as forças de ocupação de “Israel” continuam em áreas do sul do país e impuseram uma chamada “Linha Amarela”, faixa militar coercitiva semelhante às medidas de controle aplicadas pelo regime sionista na Faixa de Gaza.
Comando iraniano alerta colonos
O quartel-general central Khatam al-Anbiya, do Irã, emitiu um alerta aos colonos do norte da Palestina ocupada. Em comunicado, o comando afirmou que, se “Israel” executar a ameaça de bombardear Dahiyeh e Beirute, os moradores das regiões do norte e das colônias militares devem deixar a área “se não quiserem ser atingidos”.
O comandante Ali Abdollahi reforçou o aviso, apontando as repetidas violações sionistas do cessar-fogo. Segundo ele, a ameaça de Netaniahu contra Dahiyeh e Beirute exige uma resposta iraniana caso seja levada adiante.
“Netaniahu, dando continuidade a seus atos na região, ameaçou bombardear Dahiyeh e Beirute e emitiu avisos de deslocamento para seus moradores”, afirmou Abdollahi. “Diante das repetidas violações do cessar-fogo pelo regime, caso essa ameaça seja executada, advertimos os moradores das áreas do norte e das colônias militares nos territórios ocupados: se não quiserem ser atingidos, deixem a área”.
A Organização de Inteligência do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) também indicou que Teerã está preparado para abrir novas frentes e adotar medidas de retaliação caso “Israel” avance no Líbano e em Gaza. O órgão afirmou que a continuidade dos ataques representa uma guerra direta contra a segurança nacional iraniana e contra a Resistência Islâmica.
“Quem semeia vento colherá tempestade”, afirmou a Inteligência do CGRI, indicando que o Irã manterá operações defensivas e a chamada equação do Estreito de Ormuz.
Segundo a Tasnim, o fechamento do Estreito de Ormuz e a ativação de outras frentes, incluindo Babelmândebe, passaram a ser considerados como parte das medidas de resposta a “Israel” e seus aliados.
Forças Armadas do Irã condenam ataques
O porta-voz do Estado-Maior das Forças Armadas do Irã, brigadeiro-general Abolfazl Shekarchi, também condenou a agressão contra o Líbano. Ele afirmou que “a entidade sionista agressora e assassina de crianças” aproveitou o cessar-fogo para derramar o sangue de mais de 3.000 civis inocentes, incluindo mulheres e crianças.
Segundo Shekarchi, os governos imperialistas adotaram o caminho do silêncio ou do apoio aos crimes cometidos por “Israel” no Líbano.
“Isto ocorre em um momento em que os governantes dos países ocidentais seguiram o caminho do silêncio ou do apoio a esses crimes contra a humanidade”, afirmou. “Advertimos os dirigentes da entidade sionista bárbara e seus protetores de que a continuação dos crimes brutais contra o Líbano não será tolerada pelas Forças Armadas da República Islâmica”.
A declaração foi feita após Netaniahu autorizar a retomada da agressão contra o subúrbio sul de Beirute. O bombardeio ameaçado foi apontado como a escalada mais grave contra a capital libanesa desde a trégua anunciada em abril.
Pezeshkian cobra ação internacional
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, também tratou da situação regional em conversa telefônica com o primeiro-ministro do Japão. Pezeshkian expressou preocupação com as violações do cessar-fogo no Líbano, o deslocamento de civis libaneses e o apoio dos EUA às ações sionistas.
O presidente iraniano pediu que a comunidade internacional assuma suas responsabilidades e adote medidas efetivas para impedir a escalada. A posição se soma às declarações do Ministério das Relações Exteriores, do Parlamento, das Forças Armadas e do CGRI.
O chefe do Conselho de Discernimento do Irã, Sadegh Amoli Larijani, também publicou mensagem de apoio ao Líbano. Segundo ele, o Hesbolá libanês representa “um símbolo da resistência popular” que esteve lado a lado com o povo iraniano “nos campos mais difíceis”.
Larijani afirmou que, diante da agressão sionista contra o Líbano, o povo iraniano permanece “em uma só fileira” com o povo libanês “nas trincheiras da frente de resistência”.
EUA participam da agressão
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, declarou que o cessar-fogo no Líbano é inseparável de qualquer acordo final para encerrar a guerra. Ele afirmou que a região enfrenta uma política permanente de guerra do regime sionista, sustentada pelos EUA.
“Nossa região enfrenta o belicismo contínuo do regime sionista. Isso não é apenas sobre hoje ou ontem. Ao longo dos últimos 80 anos, o regime sionista, com apoio dos EUA, travou uma guerra permanente e sem fim contra os países da região”, disse Baghaei.
O porta-voz iraniano afirmou que os acontecimentos dos últimos meses constituem uma “violação clara e flagrante” do cessar-fogo de 8 de abril. Para ele, os EUA não podem ser separados das ações do regime sionista.
“Não podemos considerar os Estados Unidos e a entidade sionista como partes separadas”, disse Baghaei. “Tudo o que acontece no Líbano tem, sem dúvida, os Estados Unidos como um pilar central”.
Baghaei afirmou ainda que o cessar-fogo no Líbano vem sendo violado de forma sistemática e que a paralisação da agressão sionista contra o país deve constar de qualquer entendimento final.
“O cessar-fogo no Líbano é parte inseparável de qualquer cessar-fogo e de qualquer acordo final para encerrar a guerra”, afirmou.
Negociações militares fracassam
A exigência iraniana ocorre depois de fracassarem as negociações militares trilaterais entre Líbano, “Israel” e EUA, realizadas na sexta-feira no Departamento de Guerra norte-americano. As conversas duraram mais de nove horas e terminaram sem acordo.
Segundo fontes oficiais libanesas citadas pela rede Al Mayadeen, a delegação militar libanesa exigiu um cessar-fogo abrangente e a retirada imediata de “Israel” dos territórios que ocupa no Líbano. A delegação sionista rejeitou a exigência, recusou a retirada e manteve a reivindicação de desarmamento do Hesbolá como parte de qualquer possível arranjo.
Após a reunião, o Departamento de Guerra dos EUA afirmou que o Líbano deveria permanecer “livre” de grupos armados “não estatais”, ignorando o papel histórico do Hesbolá na defesa do país contra as invasões sionistas e sua presença consolidada na vida política libanesa.
Antes da reunião, o secretário-geral do Hesbolá, xeique Naim Qassem, já havia defendido negociações indiretas, e não diretas, com o regime sionista. Ele afirmou que negociações diretas representavam “lucros puros para ‘Israel’” e “concessões gratuitas” da autoridade libanesa.
“Chamamos pela opção das negociações indiretas, nas quais as cartas de força estejam nas mãos do negociador libanês, e pela retirada das negociações diretas, que constituem lucros puros para ‘Israel’ e concessões gratuitas da autoridade libanesa”, afirmou Qassem.
O secretário-geral do Hesbolá também rejeitou qualquer discussão sobre as armas da organização nas conversas com “Israel”. Para a Resistência libanesa, a exigência de desarmamento serve aos interesses da ocupação sionista e busca impedir que o Líbano tenha meios próprios de defesa.
Trump diz que ataque foi suspenso
Horas depois das ameaças contra Beirute, Donald Trump afirmou que uma agressão planejada por “Israel” contra a capital libanesa foi suspensa após uma ligação com Netaniahu. Em publicação na plataforma Truth Social, o presidente norte-americano disse ter tido uma conversa “muito produtiva” com o chefe do governo sionista e afirmou que “não haverá tropas indo a Beirute”.
“Tive uma ligação muito produtiva com o primeiro-ministro Bibi Netaniahu, de Israel, e não haverá tropas indo a Beirute, e quaisquer tropas que estejam a caminho já foram chamadas de volta”, escreveu Trump.
Trump também afirmou que contatos indiretos ocorreram com o Hesbolá por meio de “representantes de alto nível” e que os dois lados teriam concordado em paralisar as hostilidades.
A imprensa israelense informou que as autoridades de “Israel” comunicaram aos EUA a intenção de atacar o subúrbio sul de Beirute antes de receber autorização. O canal israelense Channel 15 afirmou que o ataque planejado contra Dahiyeh foi adiado após intervenção norte-americana. A emissora Kan informou que a agressão foi postergada depois de pressão dos EUA, enquanto o canal i24NEWS afirmou que os norte-americanos barraram a operação.
Também foram relatadas consultas intensas entre o governo norte-americano e o governo sionista ao longo do dia, incluindo a ligação entre Trump e Netaniahu. O temor era que uma grande agressão contra Beirute provocasse uma guerra regional mais ampla e enterrasse as negociações com o Irã.





