Oriente Próximo

Intercept: EUA fraudou número de baixas na guerra contra o Irã

Reportagem mostra como governo vem escondendo propositalmente estatísticas sobre a quantidade de mortos e feridos

O portal norte-americano The Intercept publicou, nesta terça-feira (26), uma reportagem de Nick Turse mostrando que o governo norte-americano está deliberadamente fraudando o número oficial de militares dos Estados Unidos mortos e feridos na guerra de agressão contra a República Islâmica do Irã. O dado aparece poucas horas depois de novas ações militares no sul do país persa, apresentadas pelo Comando Central norte-americano como ataques de “autodefesa”.

Em 8 de abril, dia em que o acordo de cessar-fogo foi fechado entre os Estados Unidos e o Irã, o balanço oficial de mortos e feridos norte-americanos era de 385. Mesmo depois da pausa nas hostilidades, o total subiu lentamente para 428, segundo os números do próprio Pentágono citados pelo Intercept. Depois, em 21 de abril, houve uma alteração sem explicação pública. O número de militares feridos em ação caiu 15 de uma vez, e o total oficial passou para 413. O Departamento de Guerra não explicou a mudança. O Intercept afirma que fez perguntas repetidas ao Pentágono durante um mês, mas não recebeu esclarecimento sobre a diferença.

Desde então, a contagem voltou a subir. A reportagem informa que o número de mortos aumentou em um caso e que os feridos chegaram a 409 na terça-feira. A soma resultou no total oficial de 423 militares norte-americanos mortos e feridos.

O sistema oficial utilizado para acompanhar mortos, feridos, doentes e lesionados das Forças Armadas dos EUA é o Sistema de Análise de Baixas da Defesa. É ele que fornece dados ao Congresso e ao presidente norte-americano. Mesmo assim, a reportagem mostra que esse sistema não inclui centenas de casos conhecidos. Durante semanas, várias páginas oficiais registraram 13 mortes norte-americanas na guerra. Mas uma delas já apontava 14 mortes na última terça-feira, segundo o Intercept.

Um dos exemplos citados pelo Intercept é o do major Sorffly Davius, oficial de comunicações da Guarda Nacional do Exército de Nova Iorque. Ele estava ligado ao quartel-general da 42ª Divisão de Infantaria e morreu em 6 de março, em Camp Buehring, no Cuaite, após uma doença súbita enquanto estava em serviço.

Segundo a reportagem, o nome de Davius ainda não aparece na lista oficial de mortos do Pentágono. Ao mesmo tempo, sua morte foi reconhecida publicamente. O deputado republicano Mike Lawler falou sobre ele durante uma cerimônia memorial, e o general Dan Caine, presidente do Estado-Maior Conjunto, também mencionou Davius ao homenagear os militares mortos. O Intercept informou que o Comando Central não respondeu se Davius era o caso de morte não relacionada a combate mencionado anteriormente.

O caso mais grave citado pela reportagem envolve o porta-aviões USS Gerald R. Ford. Em 12 de março, um incêndio atingiu a embarcação, e mais de 200 marinheiros foram tratados por inalação de fumaça ou cortes. Esses marinheiros não aparecem no balanço oficial de feridos da guerra.

O governo norte-americano justificou a ausência desses números afirmando que o sistema oficial registra mortes “não hostis” em zonas de guerra, mas não inclui da mesma maneira ferimentos e doenças “não hostis”. O Intercept também cita o caso de um marinheiro que sofreu uma lesão não relacionada a combate a bordo do USS Abraham Lincoln, em 25 de março. O navio participava de missões de ataque em apoio à Operação Fúria Épica.

Se os dados oficiais já indicam centenas de baixas norte-americanas, e se há indícios de que esses números podem estar subnotificados, a verdadeira dimensão do fracasso militar contra o Irã pode ser muito maior do que tem sido divulgado. O Intercept, um portal que faz oposição ao governo Trump, já trouxe à tona elementos importantes sobre o acobertamento das baixas. Caso outros setores opositores do próprio regime norte-americano decidam publicar a totalidade das perdas militares, e caso essas perdas sejam tão grandes quanto os indícios sugerem, o governo poderá enfrentar uma crise incontornável.

Nenhum governo consegue justificar facilmente uma guerra cara, perigosa, capaz de criar uma tensão mundial gigantesca, se ao final não obtém uma vitória clara e ainda retorna para casa com centenas — ou possivelmente milhares — de soldados mortos e feridos. Esse tipo de derrota tem efeitos profundos sobre o regime político, porque expõe não apenas o fracasso militar, mas também a mentira usada para arrastar a população à guerra.

A história dos Estados Unidos já mostrou isso no Vietnã. Naquele caso, a guerra produziu uma crise política imensa, abalou a confiança no governo, desmoralizou as Forças Armadas e abriu uma crise interna que marcou toda uma geração. A guerra contra o Irã teve, até aqui, uma duração muito menor, mas o estrago político pode ser enorme, dependendo da realidade dos números que o Pentágono tenta esconder.

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