Parte da esquerda, uma vez que o governo Lula se aliou ao STF, foi longe demais na defesa dessa instituição golpista e agora não consegue fazer uma crítica consequente. É o que se pode verificar no artigo As fissuras no poder e a crise entre Lula e Moraes, de Florestan Fernandes Jr, publicado no Brasil 247 neste sábado (2). O jornalista foi um dos primeiros a adjetivar esse tribunal como “o último bastião de defesa da democracia”, e agora se depara com a realidade.
Fernandes Jr. diz que “muitas pessoas da esquerda ficaram surpresas com o título do Boa Noite 247 da sexta-feira, 1º de maio: ‘Esquerda abandona Xandão após traição a Messias’. É duro encarar os fatos, mas é exatamente isso que vem ocorrendo, dentro e fora das redes sociais”, mas estariam agora encarando “os fatos” se tivessem feito o óbvio: observado o papel do Supremo Tribunal Federal no golpe de 2016.
A esquerda esqueceu a choradeira que se sucedeu ao anúncio da indicação de Alexandre de Moraes à corte pelo então presidente, o golpista Michel Temer. O mundo então parecia que ia acabar. No entanto, ocorreu uma virada de jogo incrível, o tucano do STF, que tinha votado pela prisão de Lula, foi transformado em paladino da democracia.
Desilusão
Florestan Fernandes Jr. escreve que “uma das postagens que repercutiram foi da influenciadora Beta Bastos, que afirmou, após ouvir diversas fontes, que a jornalista Malu Gaspar, com quem costuma divergir, desta vez estaria correta. ‘O que está por trás não é simples: Moraes teria se alinhado a Flávio Bolsonaro e Davi Alcolumbre em um movimento para enfraquecer Lula’”.
As reações às reportagens de Malu Gaspar foram duramente criticadas por muitos jornalistas da imprensa alternativa, quem ousasse alertar que a coisa deveria ser levada a sério era logo esculhambado e xingando de “esquerda burra”, mas o tempo se encarregou de demonstrar quem é o quê.
Como diz o jornalista, “nos últimos dias, diferentes jornalistas que cobrem Brasília trouxeram informações que reforçam essa linha de apuração. Entre eles, Mônica Bergamo revelou, em sua coluna de 30/04, que Moraes realizou um jantar em sua casa com a presença de Davi Alcolumbre na véspera da rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF. O encontro aprofundou a desconfiança, no entorno de Lula, de que houve articulação para impor uma derrota ao governo”.
É curioso que ninguém tenha feito a mesma ligação com certos jantares e jatinhos que Moraes andou frequentando.
Segundo o jornalista, “os relatos desenham um quadro preocupante que vai além da derrota de Jorge Messias. Trata-se também de um movimento para blindar Alexandre de Moraes e o próprio Davi Alcolumbre, todos profundamente envolvidos com Daniel Vorcaro”.
Diz ainda que “as imagens da comemoração, tanto pela rejeição de Messias quanto pela derrubada do veto e aprovação da dosimetria, remetem a cenas recentes do Congresso: homens brancos, engravatados, celebrando iniciativas que, na prática, abrem espaço para a impunidade de seus aliados, como ocorreu no plenário da Câmara quando, bolsonaristas aprovaram o projeto que abria caminho para a redução das condenações impostas a Jair Bolsonaro”, mas omite um sionista que abraçou Alcolumbre após a derrota de Lula na indicação de Jorge Messias: o líder do PT no Senado, o sinonista Jacques Wagner.
Agora é tarde?
“Nos bastidores, políticos e juristas do campo progressista confirmaram [a Fernandes Jr.] o evidente: há um mal-estar profundo no Palácio do Planalto. O presidente Lula estaria indignado com as articulações que barraram o nome de seu indicado”. Esse é o resultado de uma política completamente equivocada: fazer alianças por cima em vez de buscar o apoio de classe trabalhadora.
É falso alegar que “a aproximação entre Lula e Moraes ocorreu em um momento excepcional: a defesa do Estado Democrático de Direito diante de ameaças concretas e tentativa de golpe de Estado. Foi uma convergência de circunstância, necessária para a preservação da democracia e, por consequência, à sobrevivência institucional e política do próprio Ministro”. O petista buscava apoio para governar, visto que, na falta de uma base social como sustentáculo, buscou no STF uma maneira que enfrentar o Congresso.
Não havia emergência ou ameaça real de golpe. E, caso houvesse, não seriam juízes que iriam barrar. Aliás, o Supremo nunca traiu golpistas, e isso desde 1964. Portanto, ao se unir a traidores, Lula deu um passo que talvez não consiga corrigir antes das eleições.
Para o jornalista, “é preocupante para todos nós vermos o Supremo enfraquecido, não pelas suas qualidades em defesa da Constituição, mas pela falta de critérios morais de alguns de seus ministros”. Nós quem? Este Diário nunca avalizou o STF. E não venham agora falar em “critérios morais” após terem praticamente santificado golpistas.
Segundo Fernandes Jr., “esse episódio expõe não só a fragilidade das alianças que sustentam a democracia brasileira, mas o enfraquecimento das próprias regras do jogo. E, como a história recente já mostrou, quando essas regras vacilam, quem mais perde é a democracia”. Faltou dizer que expõe também a fragilidade na capacidade de análise de boa parte da imprensa. Quanto às “regras do jogo”, nunca deixou de vigorar a máxima “Quem pode mais, chora menos”.
Após o erro grosseiro de endeusar golpistas, resta agora torcer e escrever “que Lula transforme a crise em um ponto de virada, explicite ao país o que está em jogo nestas eleições e saia, mais uma vez, politicamente fortalecido rumo a uma vitória histórica”.
O jogo está aberto, mas jogar com dois jogadores expulsos e tendo que vira a partida, é complicado – para dizer o mínimo.





