No último domingo, 29 de março, o portal Brasil 247 publicou o artigo O alerta ao Brasil dos protestos contra Trump nos EUA, de autoria do jornalista Gustavo Tapioca. O texto busca analisar as manifestações ocorridas nos Estados Unidos sob o lema “No Kings” (Sem Reis) e tenta estabelecer uma ponte direta entre a crise política norte-americana e a sucessão presidencial brasileira de 2026. Segundo o autor, o enfraquecimento de Donald Trump diante da pressão das ruas e a tese de sua suposta “deterioração mental” serviriam de advertência para o Brasil, reforçando a necessidade de uma união em torno da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva contra o “bolsonarismo”.
O artigo de Tapioca inicia celebrando o slogan “No Kings” como uma expressão de resistência de massas. Para o autor, o alvo das ruas seria um “método de governo” assentado na figura de um presidente narcisista. Entretanto, ao focar na simbologia do “rei”, a análise ignora completamente o problema central da humanidade: a existência do imperialismo.
O que o autor apresenta como um levante democrático contra um autocrata é, na verdade, uma operação política capitaneada pela ala “democrático” do imperialismo — o Partido Democrata. Ao personalizar a crise na figura de Trump, o movimento “No Kings” serve como uma cortina de fumaça: tenta-se convencer o mundo de que o problema do imperialismo é o “rei” de turno, e não o próprio Estado imperialista, suas instituições militares e sua necessidade econômica de expansão e guerra.
Um dos pontos mais problemáticos do texto de Tapioca é a tentativa de atribuir a escalada militar contra o Irã exclusivamente a uma suposta “psicopatologia” de Trump. Citando Jeffrey Sachs, o autor afirma que o presidente vive em um “mundo delirante” e que sua “psicopatologia está piorando”.
Historicamente, o Partido Democrata e o aparato burocrático e de inteligência são os setores mais beligerantes do imperialismo. Foi essa máfia que exerceu pressão incessante sobre Trump para que ele partisse para o confronto direto no Oriente Médio.
O que assistimos não é o delírio de um homem só, mas a capitulação de Trump diante dos setores que ele prometeu combater. Agora que a aventura militar no Irã mostra sinais de fracasso e gera desgaste, esses mesmos setores democratas e a imprensa liberal utilizam os protestos para descartar Trump, pintando-o como “louco” para salvar o regime que eles mesmos operam.
À medida que o artigo avança para a realidade brasileira, o tom jornalístico de Tapioca dá lugar a um oportunismo eleitoral explícito. O autor utiliza o medo do “Trumpismo/Bolsonarismo” para enquadrar o eleitor brasileiro em uma armadilha política:
“A eleição presidencial de 2026 não pode mais ser lida apenas como disputa doméstica… Será uma disputa entre campos históricos. Entre um projeto de reconstrução democrática… e um projeto de submissão ideológica à nova extrema direita global.”
Aqui, o autor revela o verdadeiro objetivo de sua análise. Ao pintar um cenário de “Democracia contra Barbárie”, Tapioca tenta interditar qualquer crítica à política de conciliação de classes da Frente Ampla no Brasil. O argumento é o de que, diante de uma ameaça “global”, o trabalhador deve abrir mão de suas reivindicações e de sua independência política para apoiar, sem questionar, um governo que mantém intacta a estrutura econômica que sustenta o bolsonarismo: os juros altos, o teto de gastos e a submissão ao capital financeiro.
A análise de Gustavo Tapioca é o retrato de uma esquerda que se recusa a enxergar a luta de classes. Ela prefere acreditar em “reis” malucos e em salvadores democráticos do que reconhecer que o imperialismo ianque, seja sob o comando de um Republicano ou de um Democrata, é o inimigo mortal dos povos oprimidos.





