Quando tomei conhecimento do ocorrido no debate entre candidatos ao governo de São Paulo na Faculdade de Saúde Pública da USP, nas vésperas do primeiro turno das eleições, minhas suspeitas sobre a decadência mais absoluta do chamado movimento estudantil foram confirmadas.
Mais precisamente, foi confirmada a minha suspeita de que não existe mais movimento estudantil de fato, o que existe é uma panela cada vez mais minoritária dentro da universidade que fala pra si mesma e que não aceita nada que seja minimamente diferente dela.
Comecei a militar no movimento estudantil da Unicamp (podemos ampliar isso chamando de movimento unificado das universidades paulistas), em 2003, anos antes de ser militante do PCO. Sempre houve problemas no movimento, debates bizarros, polêmicas, pequenos golpes, enfim, coisas da política. Até certo ponto são problemas comuns em movimentos políticos onde se concentram muitos grupos diferentes, partidos, organizações, estudantes independentes. Debatia-se as ideias, muitas vezes de forma exaltada, o que sempre fez parte da luta política. Os pelegos, parte da burocracia que dominava os CAs e DCEs e a UNE viviam tentando dar o golpe na oposição e na maioria dos estudantes, a oposição berrava, exigia respeito e assim a coisa seguia.
Mas o que vimos em plena FSP da USP num debate entre candidaturas ao governo atesta sem dúvida o fim do movimento estudantil. Melhor dizendo, o movimento estudantil real pode voltar a existir, mas os elementos desclassificados que tomaram conta do que eles chamam de movimento, na verdade não têm absolutamente nenhuma relação com nada que diga respeito à luta e deixou de ser minimamente de esquerda.
Apesar de todas as divergências que sempre existiram entre os diversos grupos, havia certo censo comum. O mais forte deles dizia respeito à polícia. A Universidade não é lugar de polícia!
Era consenso entre os estudantes do movimento que a universidade é um lugar em que a discussão de ideias deve ser a mais livre possível, que a simples presença da polícia, por ser um instrumento de repressão do Estado, atenta contra a livre manifestação de ideias, a livre organização política e social da comunidade universitária e, assim, atenta contra um princípio básico do movimento estudantil: a autonomia universitária. É ela que garante o desenvolvimento científico, a discussão de ideias, a atuação política, coisas que são o papel fundamental de uma universidade.
Logicamente que isso não era uma invenção do movimento estudantil, mas são preceitos históricos fundamentais da discussão acadêmica que os estudantes, por representarem a parte mais revolucionária da universidade, defendiam com unhas e dentes, até as últimas consequências. Eu mesmo e outros companheiros de minha organização e de outras, já fomos em mais de uma ocasião detidos por lutar contra a presença da polícia na Universidade. Em 2009, por exemplo, o reitor nomeado por José Serra (da direita que hoje chamam de “democrática”), João Grandino Rodas, enfiou a PM dentro da USP, o que resultou num confronto com os estudantes.
O que faz, portanto, que elementos que se dizem do movimento estudantil não apenas queiram calar uma pessoa num debate de ideias e, o que é mais grave, chamem a polícia para dentro dessa universidade por conta de algo que foi falado? A resposta é simples: esses elementos desclassificados não são de esquerda, não são parte de um movimento real dos estudantes. São elementos infiltrados no movimento para controlar, vigiar, reprimir os estudantes que queiram lutar, com o objetivo de acabar com qualquer luta real dentro da universidade. Além das ameaças de chamar a PM, usaram um velho truque no debate que é se retirar para não precisar debater. Isso também é comum, não têm argumentos, inventam um motivo para não discutir e se retiram. Mas como esse truque é muito velho e não convence mais qualquer pessoa com metade do cérebro funcionando, estão apelando para a força bruta do Estado.
Se esses elementos desclassificados são ligados à UP, nome fantasia de um antigo partido stalinista chamado PCR que nunca teve importância no movimento estudantil, é preciso cobrar desse partido um posicionamento claro. Vocês são de esquerda ou são agentes policiais infiltrados no movimento? Aos demais partidos, organizações e estudantes independentes que participam do movimento, a mesma pergunta deve ser feita.
É preciso urgentemente EXPURGAR do movimento estudantil (se é que ele ainda existe e se não existe é preciso construir um novo) esses elementos reacionários. Logicamente, não com a polícia, mas com a luta política que sempre foi o método correto da esquerda.
É preciso tratar quem chama a polícia para dentro da universidade como um inimigo dos estudantes e do povo. Não dá para aceitar que aquilo que é apresentado como movimento estudantil seja transformado num puxadinho dos órgãos repressivos do Estado burguês.
O movimento estudantil não é caso de polícia!
Por fim, é irônico saber que os que se arvoram como defensores dos “trans” se consideram aliados da polícia, a mesma polícia agressora da população oprimida, entre ela os próprios travestis. Fica claro que esse “trans” hipotético que dizem defender é o “trans” de classe média, como um setor que está seguindo uma tendência da moda, já que há um incentivo da grande burguesia imperialista para coisas como essa. Com raras exceções, ser “trans” de classe média universitária é como preferir pintar o cabelo de determinada cor. Amanhã, a moda passa e o que fica são aqueles que sempre foram de fato discriminados e oprimidos. Colocar uma peruca na cabeça, deixar o cabelo crescer ou raspa-lo, vestir uma saia ou um macacão, fazer cirurgia de mudança de sexo ou qualquer coisa nesse sentido não transforma ninguém em oprimido, muito menos em revolucionário.





