Marjane Satrapi

Heroína do MRT/Esquerda Diário é sionista e propagandista do imperialismo contra o Irã

Grupo escreve obituário meloso lamentando a morte de uma das principais iranianas que se opõem publicamente ao regime revolucionário iraniano

De acordo com as previsões do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI), dezenas de milhões de pessoas deverão comparecer ao funeral do mártir Aiatolá Saied Ali Khamenei, o que certamente será uma das maiores manifestações políticas da história humana. Seu assassinato covarde causou profunda revolta e tristeza entre os oprimidos. Mas não para o Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT).

No dia 4 de junho, o portal Esquerda Diário, órgão do MRT, publicou um obituário profundamente sentimental lamentando a morte não de Ali Khamenei, mas da quadrinista iraniana Marjane Satrapi. Sob o título Olhar a opressão com os olhos de uma menina, o texto adota um tom lírico e quase religioso para transformar a obra de uma porta-voz do imperialismo e do sionismo em um “legado fundamental sobre a luta das mulheres”.

O primeiro fato que o texto do MRT apaga deliberadamente é a origem de classe de Marjane Satrapi. Ela era descendente direta da dinastia Qajar, a família real que governou o Irã até a década de 1920. Seu avô materno era filho de um príncipe Qajar. A dinastia Qajar governou o Irã de 1789 a 1925, concentrando a riqueza nacional sob uma estrutura feudal e autocrática. Longe de partilhar as dores da classe operária persa que vivia sob o terror da SAVAK (a polícia secreta do Xá), Satrapi cresceu nos bairros ricos de Teerã, estudou no Lycée Français e vivia cercada por empregados domésticos — contradição que a própria autora é forçada a admitir de forma superficial em seus quadrinhos. A SAVAK, criada em 1957 com o auxílio da CIA e do Mossad, torturou e executou milhares de opositores políticos e militantes de esquerda até a queda do regime em 1979.

A matéria do MRT afirma, de forma poética, que Satrapi “adotou Paris como trincheira e exílio”. A França, no entanto, não é um exílio para lutadores da liberdade, mas sim uma das principais potências da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), com um histórico sangrento de colonização no Oriente Médio e na África. O tratamento que o Estado francês dispensa aos verdadeiros revolucionários anti-imperialistas é a prisão e o isolamento — como prova o caso do combatente libanês Georges Ibrahim Abdallah, mantido em cárcere pelo governo francês há 42 anos, a despeito de todas as ordens de soltura. Preso em 1984 e elegível para liberdade condicional desde 1999, Abdallah teve sucessivos recursos negados pelo sistema judiciário francês sob pressão diplomática explícita dos governos dos Estados Unidos e de “Israel”, consolidando-se como o prisioneiro político há mais tempo encarcerado na Europa.

Em contraste absoluto com Abdallah, o “exílio” de Marjane Satrapi em Paris foi pavimentado com as maiores honrarias concedidas pelo próprio Estado capitalista francês. Em 2007, o Ministério da Cultura da França concedeu a Satrapi a insígnia de Chevalier des Arts et des Lettres (Cavaleiro das Artes e das Letras), uma condecoração oficial do Estado destinada a agentes que prestam serviços relevantes à cultura francesa.

Seu filme baseado no quadrinho Persépolis recebeu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, além de uma indicação ao Oscar de Melhor Animação nos Estados Unidos. A obra foi financiada e coproduzida pelo Canal+, que pertence ao Vivendi, um dos maiores e mais poderosos conglomerados de imprensa e entretenimento no mundo. O grupo Vivendi, controlado pelo grande capital financeiro europeu, registrou faturamento superior a 10 bilhões de euros em anos recentes, demonstrando o peso dos monopólios de imprensa por trás do projeto. A Sony Pictures Classics, por sua vez, adquiriu os direitos de distribuição mundial, injetando milhões na campanha que levou o filme ao Oscar nos Estados Unidos. A produção alcançou uma bilheteria global superior a 22 milhões de dólares. Fundos de investimento privados e bancários franceses altamente vinculados ao mercado financeiro europeu, a exemplo da CinéCinéma e da Soficas, que operam sob as leis de incentivo fiscal do Ministério da Economia da França, também participaram de seu financiamento.

E para que tanto apoio a uma história em quadrinhos? Não é difícil descobrir.

Nas últimas duas décadas, para que o imperialismo norte-americano e o sionismo pudessem impor sanções econômicas brutais que matam milhares de crianças iranianas por falta de insumos médicos, ou para justificarem as ameaças constantes de bombardeio nuclear contra a República Islâmica, foi necessária uma ampla campanha na opinião pública europeia. Essa campanha exige a desumanização total do Irã — como não lembrar o editorial fascista Ninguém vai chorar pelo Irã, publicado pelo jornal brasileiro O Estado de S. Paulo? O bloqueio bancário e comercial impede o Irã de importar medicamentos vitais, gerando crises de abastecimento que provocam a morte de pacientes vulneráveis, como as crianças portadoras de Epidermólise Bolhosa, privadas de curativos especiais devido às sanções imperialistas.

A narrativa de Satrapi reduz a complexa sociedade iraniana — que resiste há décadas ao cerco militar — a um bloco monolítico de “fundamentalistas” barbudos e mulheres oprimidas sem vontade própria. Além disso, promove a ideia de que a única libertação possível para o povo iraniano vem através da assimilação dos valores liberais, estéticos e de consumo dos países imperialistas.

Essas ideias não estão presentes apenas em suas obras, mas também nas entrevistas, nas quais ela apresenta abertamente suas opiniões reacionárias. Marjane Satrapi acabou se tornando a guru ideológica dos protestos “feministas” no Irã após a morte de Mahsa Amini, em setembro de 2022. Satrapi abandonou um hiato de duas décadas nos quadrinhos para atuar como a curadora do livro coletivo Woman, Life, Freedom, publicado pela editora Seven Stories Press.

Em meio aos protestos, o Departamento de Estado dos EUA logrou impor novas rodadas de sanções secundárias e manter o congelamento de bilhões de dólares em ativos financeiros do Irã em bancos estrangeiros, bloqueando a importação de alimentos e insumos médicos básicos.

Os protestos foram visivelmente organizados por agências de inteligência imperialistas, think tanks sionistas e Organizações Não Governamentais (ONGs) financiadas por fundações como a Open Society e o National Endowment for Democracy (NED). A comoção em torno da morte de Mahsa Amini foi inflada artificialmente nos monopólios para impulsionar uma campanha pela “mudança de regime”. Na época, Satrapi foi promovida por amplas campanhas de difusão na grande imprensa — com destaque para as sabatinas no The Guardian e no The New York Times. Em uma das entrevistas, ela declarou:

“Eu chamo de revolução. Não é uma revolta, não é um movimento, é uma revolução de verdade. Já disse isso muitas vezes e ninguém diz o contrário: acho que é a primeira revolução realmente feminista.”

Sobre a suposta rebeldia da “juventude” iraniana — ainda que a verdadeira juventude esteja hoje nas fileiras do CGRI —, Satrapi disse:

“O que eles estão pedindo, na verdade, é poder vestir o que querem, poder cantar o que querem, poder escrever o que querem, ter a liberdade de pensar.”

Em outro momento, disse ainda:

“Nunca se esqueça, todas as ditaduras são iguais. Na noite anterior à queda, todos dizem: eles são tão sólidos, é impossível que caiam. Então eles caem, e todo mundo pergunta: como eles conseguiram se manter por tanto tempo?”

Ao chorar o fim da “tinta” de Satrapi, o MRT ignora que essa mesma tinta foi utilizada para carimbar o alvo no peito do povo iraniano, justificando a agressão internacional sob o pretexto hipócrita de “salvar as mulheres” do Oriente Próximo — a mesma desculpa utilizada para destruir o Afeganistão e o Iraque. A invasão e posterior ocupação do Iraque pelas forças imperialistas a partir de 2003 resultaram na morte direta de mais de 200.000 civis por violência armada, além de projeções estatísticas que calculam mais de um milhão de mortes indiretas causadas pelo colapso total da infraestrutura de saúde e saneamento do país. Esse cenário somou-se ao impacto do embargo econômico da década de 1990, que ceifou a vida de cerca de 500.000 crianças iraquianas por desnutrição e falta de medicamentos. No Afeganistão, a intervenção militar liderada pelos EUA ao longo de 20 anos provocou a morte direta de mais de 46.000 civis e deixou o país em uma crise humanitária crônica, na qual mais de 90% da população atual enfrenta insegurança alimentar grave sob o congelamento de bilhões de dólares de suas reservas internacionais por bancos imperialistas.

Para sustentar a santificação de Marjane Satrapi, o Esquerda Diário precisa falsificar a história da Revolução Iraniana de 1979. O MRT afirma textualmente em sua matéria que a revolução “foi cooptada por forças reacionárias” e que o regime revolucionário dirigido por Ruholá Khomeini “baseou seu poder na perseguição à vanguarda operária”.

A Revolução de 1979, no entanto, foi uma profunda mobilização nacional que subverteu inteiramente a estrutura política e econômica do Irã para pôr fim à estabilidade imperialista na região. A República Islâmica é um regime nacionalista radical — o mais radical e anti-imperialista do planeta. O clero xiita funcionou, na realidade, como a coluna vertebral e a camada militante da própria vanguarda revolucionária, cujos líderes históricos, a exemplo do aiatolá Ali Khamenei, foram presos e torturados nas masmorras da ditadura do Xá.

Ao contrário da tese do MRT de que o clero “sequestrou” a revolução, as mesquitas — como a Mesquita Karamat, liderada pelo clero radicalizado — eram os únicos centros de articulação social e política capazes de canalizar a revolta das massas exploradas contra a ditadura sanguinária do Xá. O Partido Tudeh (autodeclarado comunista) e outros setores de esquerda falharam não por serem “vítimas”, mas porque capitularam politicamente diante das agressões imperialistas subsequentes, como a guerra por procuração provocada pelo Iraque de Saddam Hussein (financiado pelos Estados Unidos) contra o Irã. A Guerra Irã-Iraque (1980-1988) gerou aproximadamente um milhão de baixas totais e foi ativamente estimulada pelo imperialismo, que forneceu suporte de inteligência militar, armas e bilhões de dólares em créditos para o Iraque na tentativa de esmagar o novo Estado iraniano, consolidando a coesão interna da população em torno do governo islâmico.

O MRT se recusa a responder à pergunta crucial: se o regime iraniano é puramente “reacionário” e contrarrevolucionário, como explicar que o Irã se transformou na espinha dorsal do Eixo da Resistência? Como explicar que essa mesma “teocracia” é a força material que financia, treina e arma o Hamas na Palestina, o Hesbolá no Líbano e os combatentes do Iêmen contra o imperialismo?

Os mísseis do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) que atingem bases norte-americanas e o território de “Israel” são fatos militares concretos de natureza anti-imperialista. A narrativa de Satrapi foca exclusivamente no ataque interno ao regime, atuando em sentido oposto. O arsenal de mísseis balísticos do Irã, que inclui vetores como o Khorramshahr e o Haj Qasem com alcance de até 2.000 quilômetros, aliado ao fornecimento logístico regional, converteu o país no principal polo de dissuasão militar contra a hegemonia norte-americana e a expansão sionista na região. Na atual guerra, a aviação militar e os sistemas de radares dos Estados Unidos sofreram um revés expressivo com a perda de mais de 35 aeronaves, incluindo 17 veículos aéreos não tripulados (VANTs) de última geração derrubados pela sofisticada engenharia de defesa iraniana.

A heroína do MRT é, objetivamente, parte da engrenagem sionista e imperialista. Toda vez que Satrapi subia em um palco europeu para atacar o regime iraniano, suas declarações eram utilizadas por think tanks sionistas e diplomatas imperialistas para justificar por que o Irã deve continuar sob bloqueio, por que seus ativos financeiros devem ser congelados e por que o país deve ser excluído dos organismos internacionais.

Sob o pretexto de defender os “direitos humanos” e a “emancipação das mulheres”, Satrapi adota a mesmíssima propaganda que o Departamento de Estado dos EUA utiliza para desestabilizar governos nacionalistas. Isto é, a exportação dos valores liberais hipócritas como desculpa para desarmar a resistência de um povo oprimido.

O MRT dedica linhas e linhas de sentimentalismo pequeno-burguês para destacar que a personagem de Satrapi “escutava bandas de rock ocidentais que estavam proibidas (como Iron Maiden) e usava tênis por baixo da túnica”, elevando o consumo de futilidades capitalistas ao status de “resistência”.

Enquanto o MRT se desmancha em lágrimas pelo “direito de usar tênis” e ouvir heavy metal de uma aristocrata exilada em Paris, o portal se cala covardemente sobre o terror real que o imperialismo e o sionismo impõem na região. O texto não menciona as centenas de meninas palestinas e libanesas despedaçadas por bombas de fósforo fornecidas pelos Estados Unidos. O texto ignora o massacre de estudantes e a destruição sistemática de escolas e hospitais promovidos pelas forças sionistas no Oriente Médio.

A única coisa que o texto entende é que a França é o país da liberdade porque abraçou Satrapi. Mas não só ela. Gao Xingjian, opositor do regime chinês, foi transformado em herói pela burguesia europeia e rapidamente premiado com o Nobel de Literatura para servir de fachada moral contra o Partido Comunista Chinês. Ele também cumpre seu “exílio” na França. O mesmo vale para Marina Ovsyannikova, paparicada pela imprensa imperialista para justificar a agressão militar e econômica contra a Rússia.

Como já mencionado, o revolucionário libanês Georges Ibrahim Abdallah padece há 42 anos nas prisões francesas por lutar contra o sionismo. A “democracia” europeia que o MRT defende é uma farsa total: ela prende quem pega em armas contra o imperialismo, mas estende o tapete vermelho e distribui medalhas para quem ataca os países que resistem ao cerco.

Quem quiser levar a sério o que escreve o Esquerda Diário irá concluir, necessariamente, que a França é um país menos repressivo que o Irã. Afinal, lá morava a heroína do MRT. O problema é que a crise do imperialismo é tamanha que nem mesmo os países europeus conseguem sustentar a fachada “democrática” de outrora. 

Os países imperialistas que celebraram Persépolis estão impondo um regime de censura brutal contra qualquer um que denuncie o massacre na Palestina. Na Alemanha, o simples ato de pronunciar a frase “Palestina livre do rio ao mar” ou carregar símbolos de resistência é motivo de prisão imediata e perseguição política pelo Estado. No Reino Unido, mais de 20 mil pessoas foram detidas, fichadas ou perseguidas pelas forças de segurança pública por se mobilizarem ativamente contra o genocídio em Gaza. O uso sistemático de dispositivos legais repressivos expandiu o escopo de prisões preventivas de ativistas políticos e o fechamento de entidades civis pró-Palestina na Europa.

Ao ignorar a luta de classes e apresentar a discussão no campo dos costumes, o MRT se revela uma vez mais como linha de transmissão ideológica do imperialismo. O grupo fornece a cobertura “pela esquerda” que a burguesia precisa para impor ao cidadão de classe média o massacre militar de um país.

As mulheres trabalhadoras do Irã e de todo o Oriente Médio não precisam da tutela ideológica do imperialismo, nem muito menos dos lamentos hipócritas da esquerda pequeno-burguesa.

No atual estágio da crise de decomposição do capitalismo imperialista, a política mundial não deixa espaço para uma “terceira via”.

Diante da agressão imperialista, a única posição genuinamente revolucionária é a defesa incondicional dos povos agredidos e de suas organizações combatentes, doa a quem doer. Aos que preferem chorar pela perda de uma agente do imperialismo, resta o lixo da história das ideias pequeno-burguesas.

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