O porta-voz militar das Brigadas Al-Qassam, Abu Obeida, saudou nesta terça-feira (31) as operações realizadas pela Resistência Islâmica no Líbano, o Hesbolá, contra as forças de ocupação israelenses no sul do Líbano e pediu a intensificação das ações, inclusive com a captura de soldados inimigos, para garantir a libertação de prisioneiros palestinos e árabes. A declaração foi divulgada em meio a uma escalada dos combates em Ainata e Beit Lif e logo depois do governo de Benjamin Netaniahu anunciar a ampliação da ocupação terrestre do sul libanês.
Em nota, Abu Obeida exaltou a ação do Hesbolá e vinculou diretamente a necessidade de novas operações à aprovação, por “Israel”, da lei que autoriza a execução de prisioneiros palestinos. “Benditas sejam as mãos dos heróis da resistência islâmica no Líbano, que continuam a impor pesadas perdas ao inimigo sionista, mais recentemente na importante operação realizada ontem. Chamamos a intensificar os esforços para capturar soldados sionistas a fim de garantir a libertação dos prisioneiros palestinos e árabes das trevas das prisões da ocupação, especialmente após a aprovação da lei que permite a execução dos prisioneiros.”
O porta-voz afirmou ainda que a experiência da resistência palestina demonstrou que a luta armada é o caminho mais curto para libertar os prisioneiros e lembrou o papel de Gaza nesse esforço. Segundo ele, as organizações da resistência palestina fizeram grandes sacrifícios em operações voltadas à libertação dos prisioneiros e, por isso, conclamou o Hesbolá a dar continuidade a essa tarefa comum.
Na mesma declaração, Abu Obeida denunciou as medidas impostas por “Israel”, entre elas o fechamento da Mesquita de Al-Aqsa e a agressão em curso contra vários povos árabes e muçulmanos. “Essa arrogância sionista, demonstrada mais recentemente por meio da aprovação da lei de execução dos prisioneiros, do crime de fechar Al-Aqsa e da agressão contra nossos povos árabes e islâmicos, obriga todos os componentes de nossa nação e os povos livres do mundo a fazer todo esforço possível para punir a ocupação por seus crimes ou, no mínimo, pressioná-la a interromper sua agressão.”
Ainata virou centro dos combates
As declarações de Abu Obeida vieram depois de um dos dias mais duros para as tropas israelenses no sul do Líbano. Segundo informações do correspondente da rede Al Mayadeen, as forças de ocupação que avançavam pelo eixo Aitaroun-Ainata foram submetidas a ataques diretos e contínuos com mísseis guiados, projéteis de artilharia e explosivos, sofrendo baixas confirmadas e mergulhando em confusão operacional.
As concentrações de tropas e os agrupamentos militares israelenses em Ainata e ao longo de todo o eixo Aitaroun-Ainata foram atingidos durante todo o dia por dezenas de disparos de mísseis e de artilharia. Ainda segundo o correspondente, o sul do Líbano assistiu a uma das mais intensas operações recentes da resistência contra as forças de ocupação, tendo Ainata como principal centro das ações coordenadas.
Testemunhas relataram que soldados israelenses caíram em emboscadas preparadas com antecedência pelos combatentes da resistência e sofreram grandes perdas em confrontos corpo a corpo, a curta distância. Tanques que avançavam pela estrada entre Aitaroun e Ainata foram atingidos por mísseis guiados e artefatos explosivos, o que provocou baixas importantes entre oficiais e soldados.
Em uma das ações, uma unidade israelense tentou se proteger em um prédio residencial em Ainata, mas o edifício foi atingido por um míssil de precisão, deixando vários soldados mortos ou feridos. A resistência também distribuiu explosivos nas principais rotas de avanço das tropas, combinando esse método com enfrentamentos a curta distância com armas leves e médias.
Nove operações em um dia
O Hesbolá anunciou na segunda-feira (30) uma série de operações contra as forças de ocupação que tentavam penetrar em território libanês, sobretudo em Ainata e nos arredores. Em comunicados sucessivos, a organização informou que seus combatentes enfrentaram as tropas inimigas com mísseis guiados, foguetes e explosivos, impondo baixas confirmadas.
No conjunto dessas ações, a resistência realizou nove operações apenas em Ainata, incluindo a detonação de explosivos e ataques contra agrupamentos de soldados e veículos blindados. A própria imprensa israelense reconheceu ao menos dois “incidentes de segurança” no sul do Líbano, entre eles ataques com explosivos e bombardeios aéreos, e informou que mortos e feridos foram evacuados por helicópteros para hospitais dentro dos territórios ocupados.
Também na segunda-feira, o Hesbolá informou ter atacado repetidamente, entre 10h30 e 11h30, concentrações de soldados israelenses na colina de Friz, na cidade de Ainata, com foguetes e projéteis de artilharia. A organização divulgou ainda imagens de três tanques Merkava sendo atingidos por mísseis antitanque nos arredores da cidade de Debl. Ao longo dos últimos dias, dezenas de Merkavas foram atingidos pela resistência. Imagens divulgadas no fim de semana já mostravam disparos de curto alcance e mísseis antitanque acertando diretamente tanques e tropas em avanço na localidade de Qantara.
Imprensa israelense admite agravamento das perdas
A imprensa israelense também passou a alertar para a situação enfrentada pelas tropas no sul do Líbano. O Canal 14 afirmou que os soldados que operam dentro do território libanês permanecem “em movimento constante e expostos”, o que permite ao Hesbolá explorar as vantagens do terreno para atingi-los.
Segundo esse mesmo relato, a resistência utiliza uma combinação de projéteis de artilharia, mísseis antitanque, foguetes e VANTs de ataque para golpear as forças israelenses destacadas em território libanês. O quadro coincide com o reconhecimento, por parte de “Israel”, de perdas crescentes na frente libanesa.
Emboscada em Beit Lif matou comandante
Outro episódio importante veio à tona nesta terça-feira, quando uma investigação do próprio exército israelense revelou que uma força militar foi atraída para uma emboscada mortal em Beit Lif, no sul do Líbano, em 30 de março. Segundo a apuração militar, quatro soldados foram mortos, entre eles o comandante da unidade, e vários outros ficaram feridos.
De acordo com o correspondente militar do jornal Maariv, Avi Ashkenazi, a tropa atuava na área de Beit Lif quando, por volta de 18h30, encontrou combatentes da resistência a curta distância. Quatro soldados morreram, três ficaram gravemente feridos e dois tiveram ferimentos moderados. Durante a retirada, houve ainda fogo antitanque e uma tentativa de atingir as forças encarregadas da evacuação.
Os soldados pertenciam à Unidade de Reconhecimento Nahal. Segundo o relato divulgado na imprensa hebraica, a tropa deixou um prédio, o destacamento de frente atravessou uma estrada e encontrou os combatentes. Quando uma outra fração saiu para resgatar os feridos, foi atacada pelos flancos e pela retaguarda. O mesmo correspondente informou ainda outros episódios de combate nos quais quatro soldados ficaram feridos, além de três reservistas da Brigada 226 atingidos pela explosão de um VANT no setor oeste. Outro soldado foi ferido por estilhaços no ombro.
Canais hebraicos classificaram a situação da noite de segunda-feira como “muito difícil” e mostraram helicópteros transportando militares feridos para hospitais israelenses.
Netaniahu amplia ocupação
A escalada das ações da resistência ocorre ao mesmo tempo em que o governo israelense anuncia uma ampliação da ofensiva terrestre. No sábado (29), Netaniahu declarou ter ordenado ao exército que aprofundasse a operação no sul do Líbano para expandir a chamada “zona de segurança” e tomar mais território libanês. Segundo ele, o objetivo é “mudar fundamentalmente a situação” nos assentamentos do norte de “Israel” e afastar o fogo antitanque da fronteira.
No dia seguinte, o ministro da Defesa, Israel Katz, afirmou que, ao fim da operação, o exército controlará a área até o rio Litani, inclusive as pontes remanescentes, e que as forças Radwan seriam eliminadas na região. Ele declarou ainda que todas as casas nas aldeias próximas à fronteira seriam destruídas “segundo o modelo de Rafá e Beit Hanoun”, e que os mais de 600 mil libaneses expulsos de suas casas não poderão retornar enquanto não estiver garantida a “segurança” dos assentamentos israelenses no norte.
As novas declarações israelenses vieram depois de uma sequência de choques em várias frentes do sul do Líbano. Desde o início da incursão terrestre, o Hesbolá vem enfrentando diretamente as tropas invasoras e, ao mesmo tempo, mantendo ataques transfronteiriços contra posições militares israelenses. A resistência também vem atacando novos postos israelenses estabelecidos depois do cessar-fogo de 2024, posições criadas após o fracasso de “Israel” em ocupar território e manter o terreno conquistado durante a invasão de outubro daquele ano.
Desde o início de março de 2026, “Israel” admitiu a morte de 10 de seus soldados dentro do sul do Líbano. Em um dos comunicados mais recentes, os próprios militares reconheceram a morte de um soldado e o ferimento grave de um oficial em um ataque com míssil antitanque realizado pela resistência libanesa.




