Mais de 70% dos palestinos rejeitam o desarmamento do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) antes da retirada completa das tropas de “Israel” da Faixa de Gaza. Segundo pesquisa do Centro Palestino de Pesquisas Políticas e de Opinião, 72% acreditam que os sionistas retomariam o genocídio e se recusariam a deixar o território caso a resistência entregasse suas armas.
O resultado derruba uma das principais campanhas da imprensa imperialista contra o Hamas. Os grandes monopólios de comunicação procuram apresentar a resistência como uma força isolada da população palestina, que insistiria na luta armada apesar da vontade popular. A pesquisa aponta justamente para o sentido oposto.
Depois de quase três anos de massacre, destruição e tentativas de expulsar a população da Faixa, os palestinos não chegaram à conclusão de que deveriam se entregar. Para a ampla maioria, abandonar as armas enquanto o Exército sionista continua ocupando Gaza significaria ficar completamente indefeso diante de uma nova agressão.
Essa é também a posição sustentada pelo Hamas nas negociações sobre o futuro da Faixa.
Sem retirada, sem desarmamento
A imprensa capitalista anunciou nos últimos dias que o Hamas teria aceitado entregar suas armas. Conforme revelou o Diário Causa Operária, isso não corresponde ao que foi acertado pelas organizações palestinas.
O entendimento discutido prevê que qualquer medida sobre o armamento pesado somente possa começar após “Israel” cumprir integralmente suas obrigações na primeira etapa do acordo. Entre elas estão o fim dos ataques, a retirada de todas as tropas israelenses de Gaza, a entrada do Comitê Nacional para a Administração de Gaza (CNAG) e o desarmamento das milícias colaboracionistas financiadas pela ocupação.
Mesmo depois disso, não está prevista a entrega das armas a “Israel”, aos Estados Unidos ou a qualquer outra força estrangeira. O armamento pesado seria desativado e armazenado sob controle palestino. As armas pessoais continuariam em mãos palestinas, submetidas às normas estabelecidas pelo novo governo da Faixa.
A tentativa de apresentar esse acordo como uma capitulação do Hamas tem uma finalidade evidente. O desarmamento da resistência seria uma das maiores vitórias que “Israel” poderia obter depois de não conseguir eliminar militarmente o movimento durante a guerra.
O Hamas, no entanto, deixou claro que nem sequer as medidas relativas às armas pesadas serão colocadas em prática antes da retirada sionista.
Os palestinos apoiam essa posição porque sabem o que significaria fazer o contrário. “Israel” já demonstrou repetidas vezes que assina acordos para depois violá-los. Entregar as armas antes que o Exército israelense deixe Gaza seria abrir mão do principal instrumento de pressão existente para obrigar os sionistas a cumprir o cessar-fogo.
Cisjordânia mostra o resultado do desarmamento
A própria experiência palestina fornece o exemplo mais claro.
Na Cisjordânia, a Autoridade Palestina de Mahmoud Abbas adotou há décadas uma política de colaboração com “Israel”. Suas forças de segurança perseguem militantes, reprimem organizações da resistência e atuam para impedir o desenvolvimento da luta armada contra a ocupação.
Isso não impediu “Israel” de avançar.
Os assentamentos continuaram crescendo, famílias palestinas seguem sendo expulsas de suas terras, cidades são invadidas por tropas israelenses e colonos armados agem com a proteção do Exército.
Na pesquisa, 87% dos moradores da Cisjordânia afirmaram temer que a expansão dos assentamentos e postos avançados israelenses lhes custe suas casas ou suas terras.
A política de Abbas não trouxe paz nem soberania. Serviu para desarmar e controlar os palestinos enquanto “Israel” ampliava sua ocupação.
É exatamente essa experiência que explica por que a população rejeita uma repetição do mesmo caminho em Gaza.
Abbas é repudiado pela população
O levantamento também revela a profundidade da crise da Autoridade Palestina. Nada menos que 79% querem que Mahmoud Abbas deixe a presidência. Nos últimos três anos, esse índice permaneceu entre 79% e 89%.
Além disso, 83% dos entrevistados consideram que há corrupção nas instituições da AP e 65% enxergam a própria Autoridade Palestina como um peso, e não como uma conquista nacional.
A rejeição é política.
Abbas tornou-se o principal representante de uma política de submissão ao imperialismo e de colaboração com a ocupação sionista. Enquanto “Israel” amplia assentamentos e reprime a população da Cisjordânia, as forças da AP atuam contra os próprios palestinos que procuram resistir.
É esse governo que os Estados Unidos, a União Europeia e a imprensa imperialista apresentam como alternativa “moderada” ao Hamas.
Os palestinos não parecem interessados nessa alternativa.
Enquanto 79% querem Abbas fora, 72% rejeitam justamente a política que o imperialismo pretende impor ao Hamas: entregar as armas antes do fim da ocupação.
Dilúvio de al-Aqsa
O apoio à resistência não começou agora. Pesquisas realizadas desde a Operação Dilúvio de al-Aqsa, iniciada em 7 de outubro de 2023, registraram em diferentes momentos apoio majoritário entre os palestinos à decisão de lançar a operação.
Isso ocorreu apesar da campanha internacional que procurou responsabilizar o Hamas pelos crimes cometidos por “Israel” depois de 7 de outubro.
Durante toda a guerra, a propaganda imperialista insistiu que os palestinos acabariam voltando-se contra a resistência por causa da destruição de Gaza. O cálculo não se confirmou.
O motivo é simples. Para os palestinos, o problema fundamental não começou em 7 de outubro. São décadas de ocupação, assassinatos, prisões, bloqueio, expulsões e roubo de terras.
A Operação Dilúvio de al-Aqsa não criou esse conflito. Foi uma explosão da luta acumulada contra a ocupação sionista, impulsionada pela pressão do próprio povo de Gaza, sufocado por um bloqueio asfixiante há duas décadas.
Mesmo diante da superioridade militar israelense e do apoio dos Estados Unidos, a resistência conseguiu impedir que “Israel” realizasse seus objetivos centrais: destruir o Hamas, eliminar a resistência palestina e expulsar a população da Faixa.
Por isso a questão das armas tornou-se um ponto decisivo das negociações.
Hamas e a população palestina
A imprensa imperialista procura transformar o Hamas numa espécie de força externa imposta à sociedade palestina. Os próprios números divulgados pelo Centro Palestino de Pesquisas Políticas e de Opinião tornam essa versão difícil de sustentar.
A política fundamental do Hamas neste momento — não entregar as armas enquanto “Israel” permanecer em Gaza — é apoiada por quase três quartos dos palestinos.
Ao mesmo tempo, Mahmoud Abbas, que representa a política oposta, é rejeitado por quase quatro quintos da população.
A disputa pela sucessão da Autoridade Palestina aponta na mesma direção. Marwan Barghouti, dirigente palestino preso por “Israel” há mais de duas décadas e identificado com a luta contra a ocupação, aparece como o nome preferido para substituir Abbas.
Entre todos os entrevistados, Barghouti recebeu 39% das preferências. O atual máximo dirigente do Hamas Khalil al-Hayya, que acabou de ser eleito pelo birô político da entidade, aparece depois, com 16%, seguido de Mohammed Dahlan, com 15%, e Mustafa Barghouti, com 6%.
Entre os que afirmam que votariam numa eventual eleição presidencial, Marwan Barghouti alcança 54%, Al-Hayya chega a 26% e Abbas fica com apenas 14%.
Não é, portanto, apenas o Hamas que se encontra à esquerda da política de colaboração da Autoridade Palestina. A própria população palestina se desloca em direção às forças identificadas com a resistência.
O apoio às armas da resistência nasce dessa experiência concreta. Na Cisjordânia, onde Abbas colaborou com o desarmamento e a repressão dos palestinos, “Israel” avançou sobre as terras ocupadas. Em Gaza, apesar de toda a destruição, a resistência armada impediu uma vitória completa do sionismo.
Exigir que o Hamas entregue suas armas enquanto o Exército israelense continua armado, ocupa território palestino e recebe apoio ilimitado do imperialismo significa exigir a rendição dos palestinos.





