Valéria Guerra

Jornalista (UMESP), historiadora, atriz com DRT-RJ, escritora, colunista do 247, PCO, e do meu site (https://guerraluz.prosaeverso.net/); mestre em Intervenção Psicológica no Desenvolvimento e na Educação; professora do Estado do RJ na cadeira de biologia, poetisa e ativista contra a desigualdade no Brasil e no mundo.

Coluna

Guerra de narrativas no período eleitoral: entre desmandos e truculência

Democracia precisa ser também o direito — e o dever — de cobrar daqueles que receberam o poder em nosso nome.

Em se tratando de eleição, nós, simples portadores de título eleitoral, costumamos não perceber que, na prática, os empregadores são os eleitores, enquanto os empregados são os políticos. Nesse arranjo, o povo acaba sendo apenas um detalhe nesta toada democrática que assola o nosso país há tantos séculos.

Na verdade, deveríamos encarar a situação eleitoral sob uma perspectiva bastante diferente: os políticos são os empregados e os eleitores, os empregadores. Afinal, é o cidadão quem, por meio do voto, concede ao representante um mandato para exercer determinada função pública. Não se trata, portanto, de uma concessão de poder absoluto, mas de uma delegação temporária de responsabilidade.

A retórica, sem dúvida, faz da profissão política o ponto alto metodológico do contexto da representatividade. O trabalhador, em sua maioria, não sabe exatamente o que significa o termo, em um país com uma tradição democrática marcada por distorções sob a forma de narrativas.

Nesta contemporaneidade, que vai além da sociedade do espetáculo e perpassa os chamados tempos líquidos, vivemos um momento em que a retórica alcança uma espécie de encantamento coletivo. Não se trata apenas de convencer, mas de seduzir; não apenas de apresentar propostas, mas de construir narrativas capazes de envolver uma população que, muitas vezes, sobrevive às custas de auxílios e ajudas de custo.

É nesse cenário que a política encontra terreno fértil para transformar necessidade em instrumento de persuasão. Quanto maior a vulnerabilidade social, maior pode ser o poder de uma narrativa que promete proteção, pertencimento ou esperança, e assim o povo vai perdendo a vida e a esperança.

O eleitor, então, deixa de perceber o político como aquele que deve prestar contas e passa a enxergá-lo como aquele de quem depende.

E chegamos às narrativas atuais.

Há candidatos envolvidos em acusações gravíssimas, inclusive relacionadas a crimes sexuais, enquanto outros carregam trajetórias políticas marcadas por denúncias e acusações de corrupção. É necessário, evidentemente, distinguir acusação de condenação. Mas a existência dessas narrativas, por si só, revela o grau de deterioração do debate público e a dimensão do espetáculo político que atravessa o nosso tempo.

Tudo isso acontece em um país cujo salário mínimo, em 2026, é de R$ 1.621,00.

Segundo dados do IBGE, o rendimento médio mensal real de todas as fontes da população com rendimento chegou a R$ 3.367 em 2025, enquanto o rendimento domiciliar per capita ficou em torno de R$ 2.264. A população brasileira, naquele período, aproximava-se de 213 milhões de habitantes.

Os números ajudam a dimensionar a distância entre o discurso político e a vida real.

Para milhões de brasileiros, três mil reais não representam riqueza. Representam, muitas vezes, apenas a possibilidade de sobreviver com alguma dignidade. E uma parcela expressiva da população permanece dependente de políticas de transferência de renda.

O Bolsa Família, em julho de 2026, alcançava mais de 19 milhões de famílias, com mais de R$ 13 bilhões repassados somente naquele mês.

Não se trata aqui de negar a importância da assistência social. Uma sociedade que possui milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade precisa, evidentemente, proteger seus cidadãos. Nenhum deles — e muitos deles com boa cognição e formação intelectual — conseguiu sequer conhecer o Nordeste, que dirá Paris.

Até que ponto uma política de transferência de renda consegue ultrapassar a emergência e produzir autonomia econômica?

O auxílio pode aliviar a fome, a miséria e a insegurança imediata. Mas não substitui emprego digno, educação de qualidade, qualificação profissional, produtividade, salários melhores e condições concretas para que o cidadão deixe de depender permanentemente da assistência estatal.

O problema aparece quando a assistência, necessária em uma sociedade desigual, corre o risco de ser transformada em instrumento permanente de dependência política.

O cidadão que deveria ser o empregador termina, muitas vezes, colocado na posição de dependente do próprio empregado.

É como se a política tivesse criado o seu próprio universo, enquanto o eleitor permanece do lado de fora, observando a narrativa que lhe é apresentada e escolhendo, entre diferentes personagens, aquele a quem entregará novamente as chaves da casa.

Mas a casa é nossa.

Os três Poderes atravessam uma fase em que o clímax parece ser justamente este: o povo está sofrendo. Os professores estão sofrendo.

E, enquanto as narrativas se multiplicam nos palanques, nos tribunais e nos gabinetes, a vida real continua cobrando sua conta.

A reforma previdenciária, nesse contexto, revela uma de suas faces mais cruéis: coloca nas cordas aqueles que chegaram aos 60 anos de idade depois de uma vida inteira de trabalho, muitas vezes recebendo míseros tostões, valores que, aos olhos de uma determinada cúpula de poder, parecem perfeitamente compatíveis com aquilo que se convencionou chamar de justiça social.

Mas que justiça é essa?

Que democracia é essa em que o trabalhador precisa envelhecer para descobrir que o seu tempo de contribuição não necessariamente lhe garante dignidade?

Que sistema é esse em que professores, depois de décadas dentro das salas de aula, precisam continuar lutando para que sua sobrevivência não seja transformada em estatística?

A retórica institucional fala em equilíbrio, responsabilidade fiscal, sustentabilidade e direitos. São palavras importantes.

Mas palavras, quando divorciadas da realidade daqueles que sustentaram o sistema durante décadas, podem adquirir a aparência de uma sofisticada forma de violência burocrática.

É justamente diante dessa realidade que também se insere uma iniciativa que apresentei ao Senado Federal: uma proposta legislativa voltada à revogação dos dispositivos da Emenda Constitucional nº 103, de 2019, que alteraram de forma profundamente prejudicial o cálculo das aposentadorias por incapacidade permanente dos servidores públicos.

No caso dos servidores públicos do Estado do Rio de Janeiro, a situação assume contornos ainda mais dramáticos.

Pessoas que dedicaram décadas ao serviço público, ao atingirem uma condição de incapacidade que as impede de continuar trabalhando, podem se deparar com uma redução brutal de seus rendimentos, passando a sobreviver com valores muito inferiores àqueles que recebiam na ativa.

É difícil falar em dignidade humana quando a incapacidade para o trabalho transforma-se também em uma espécie de punição financeira.

Minha proposta legislativa nasce exatamente dessa inconformidade: da necessidade de rever uma legislação que, em vez de proteger aquele que se tornou incapaz depois de uma vida laboral, pode lançá-lo em uma situação de vulnerabilidade econômica justamente no momento em que mais necessita de proteção.

Não se trata de privilégio.

Trata-se de discutir se uma sociedade que se pretende democrática pode considerar razoável que alguém que dedicou sua vida ao serviço público seja submetido, ao adoecer ou tornar-se permanentemente incapaz, a uma redução tão expressiva de sua renda.

A questão previdenciária, portanto, não é apenas matemática.

Não estamos falando somente de percentuais, cálculos atuariais ou equilíbrio fiscal.

Estamos falando de pessoas.

Estamos falando de professores, servidores e trabalhadores que envelhecem e adoecem depois de décadas de contribuição.

E talvez seja esse o ponto em que a guerra de narrativas encontre o seu maior paradoxo: enquanto se discute, nos grandes espaços de poder, a sustentabilidade dos sistemas, há seres humanos concretos tentando descobrir como sustentar a própria vida.

Foi por isso que levei essa questão ao Senado Federal.

Porque o cidadão não pode ser apenas eleitor no momento da urna. Também precisa ser sujeito político capaz de questionar, propor e participar da construção das leis que determinarão o seu próprio destino.

E talvez seja justamente aí que a guerra de narrativas alcance seu ponto máximo: quando aquilo que é apresentado como necessário, técnico e inevitável pela cúpula do poder é experimentado, na ponta, como sofrimento por quem trabalhou, contribuiu e envelheceu.

O empregador — o povo — continua pagando a conta.

E o empregado, em vez de prestar contas, parece cada vez mais ocupado em explicar ao empregador por que a conta precisa continuar aumentando.

Talvez seja necessário, portanto, recuperar uma verdade elementar da democracia: o poder não pertence ao político. O poder é delegado pelo cidadão.

O político não deveria ser visto como salvador, proprietário do Estado ou dono da verdade.

É um servidor temporariamente contratado pelo voto popular.

E todo empregado deveria saber que existe uma pergunta que nenhum discurso, nenhuma retórica e nenhuma narrativa consegue eliminar:

O que você fez com o mandato que recebeu?

É essa pergunta que o eleitor precisa reaprender a fazer.

Porque democracia não pode ser apenas o direito de escolher quem ocupará o poder.

Democracia precisa ser também o direito — e o dever — de cobrar daqueles que receberam o poder em nosso nome.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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