Dois dias depois de estudantes e professores marcharem pela Grécia, o Parlamento aprovou, nesta sexta-feira (23/10), a proibição de redes sociais para menores de 15 anos. O governo de Kyriakos Mitsotakis promete proteger as crianças da “rolagem infinita”. Nas ruas, os jovens falam de outro problema: o aluguel que não conseguem pagar, as escolas sem recursos e o custo de vida que consome o salário de suas famílias.
Cerca de 10 mil pessoas participaram dos atos em Atenas e seus arredores na quarta-feira (21/10), segundo a polícia. Houve manifestações também em outras cidades. Alunos de escolas e universidades exigiram mais verbas, instalações em melhores condições e turmas menores. Professores entraram em greve; médicos protestaram contra os baixos salários e a falta de pessoal. Antes da passeata, estudantes montaram barracas na praça Sintagma, diante do Parlamento.
Uma universitária ouvida durante a marcha contou que seus pais já não conseguem sustentar o aluguel, a conta de eletricidade e as despesas necessárias para que ela estude. O governo anunciou projetos para construir alojamentos, mas seus próprios anúncios não pagam o quarto de quem precisa morar na cidade hoje. A carestia e os cortes sofridos pela educação durante anos de austeridade estão na origem da mobilização.
Os manifestantes gregos não escondem a ligação com a revolta estudantil francesa. Em Atenas, pediram educação pública e gratuita “da Grécia à França”. Estudantes dos dois países já haviam se reunido na capital grega para denunciar a repressão de Emmanuel Macron. Na Itália, jovens também saíram às ruas contra os preços altos, os baixos salários e a deterioração dos serviços públicos. A juventude, atingida em cheio pela falta de moradia e pela destruição do ensino, passou à frente dessas lutas.
Na França, Macron respondeu às manifestações com detenções em massa e ameaças de proibir atos. Na Grécia, a polícia acompanhou de perto a passeata em Atenas e revistou pessoas a caminho do protesto. É diante dessa movimentação que Mitsotakis obtém do Parlamento uma lei para impedir os mais novos de frequentar redes pelas quais circulam notícias, imagens das manifestações e chamados à organização.
A proposta grega foi anunciada em abril, meses antes dos atos desta semana. Sua aprovação, porém, ocorre agora, quando o governo enfrenta estudantes e professores nas ruas. A proibição começará a valer em 1º de janeiro de 2027 e atingirá o acesso às plataformas. Mitsotakis deu às empresas dois meses e meio para criar meios de verificar a idade dos usuários. Para barrar os menores, terão de fiscalizar quem tenta entrar.
Mitsotakis e Macron vêm trabalhando juntos nessa política. Em abril, o presidente francês reuniu dirigentes europeus para discutir um limite de idade para as redes; o primeiro-ministro grego defendeu um sistema de verificação válido para toda a União Europeia. Os dois voltaram ao assunto em setembro. Na França, uma lei semelhante foi derrubada pelo Conselho Constitucional em agosto. O revés francês não fez Mitsotakis abandonar a campanha.
O governo apresenta a medida como um favor aos pais. As empresas que prendem os usuários às telas continuam controlando as plataformas; o Estado, por sua vez, impõe a elas o bloqueio de uma faixa inteira da juventude. Quem tem menos de 15 anos será tratado como incapaz de ler uma notícia, acompanhar uma greve ou conversar livremente nas redes. Para pagar aluguel e estudar em prédios decentes, entretanto, o jovem grego encontra o mesmo governo disposto a conservar a política que o levou ao protesto.
Essa campanha também encontrou defensores na esquerda brasileira. Sob o argumento de proteger crianças e adolescentes, apoiaram restrições à comunicação pela Internet e o banimento de celulares nas escolas. A resistência apareceu entre os próprios atingidos: crianças e adolescentes organizaram protestos dentro do Roblox após o bloqueio de conversas no jogo e exigiram que os meios de comunicação fossem restabelecidos. Uma política apresentada como benéfica aos jovens despertou sua oposição direta.
A esquerda que aplaude essas proibições entrega ao Estado um instrumento contra um setor disposto à luta. O caráter reacionário da campanha fica claro na Grécia: o Parlamento encontra tempo para votar o bloqueio das redes, enquanto estudantes e professores precisam paralisar aulas e ocupar as ruas para exigir verbas. Em Atenas, os jovens apontaram o que lhes falta. Mitsotakis preferiu decidir por onde poderão falar.





