Estudantes, trabalhadores e coletes amarelos convocaram para hoje (24) a segunda grande jornada nacional contra Emmanuel Macron. Na primeira, sábado passado, saíram às ruas 800 mil pessoas, segundo as organizações participantes; o Ministério do Interior contou 550 mil em 110 passeatas. Uma semana depois, o pequeno ditador declarou que gostaria de ver o contrário: “que não haja manifestação”. Autoridades locais proíbem atos, impõem toques de recolher e alteram percursos enquanto o governo envia mais policiais às ruas.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou 70 mil policiais e gendarmes para o sábado, 10 mil a mais que no final de semana passado. Ao lado das unidades empregadas habitualmente em protestos, o governo colocará em operação RAID, GIGN e BRI, forças especializadas que normalmente não fazem o policiamento de manifestações. Militares da operação Sentinelle deverão guardar pontos fixos e liberar mais policiais para atuar nas ruas. A preparação inclui blindados Centaure e veículos lançadores de água. Macron convocou um conselho de defesa para examinar novas medidas de segurança.
Em Paris, a polícia chegou a aceitar o percurso apresentado pela Confederação Geral do Trabalho (CGT): saída da praça da Bastilha às 14 horas e chegada à praça da Nação. Depois tentou impor uma alteração, recusada pela central sindical. A prefeitura autoriza o ato no papel, mas procura controlar o caminho dos manifestantes.
Também há mobilizações anunciadas em cidades como Marselha, Lyon, Toulouse, Lille e Reims. Nem todas correspondem a passeatas autorizadas. Em Lyon, o representante do governo central no departamento do Ródano proibiu manifestações em grande parte da cidade; em Marselha e no departamento de Bouches-du-Rhône, as autoridades proibiram os atos de sábado, inclusive os declarados. O governo pretende decidir onde a população poderá protestar contra ele.
Os coletes amarelos convocaram um novo “Ato II” para este sábado. O movimento, que enfrentou Macron a partir de 2018 contra a carestia, volta a atuar ao lado de secundaristas mobilizados desde setembro. A luta contra os preços se junta às exigências por professores, prédios escolares em condições de uso e fim do Parcoursup, plataforma de seleção para o ensino superior. Dia 17, universitários, operários, servidores, aposentados e moradores de bairros populares participaram dos atos. A mobilização saiu dos liceus e alcançou os trabalhadores.
A CGT ofereceu sua estrutura para que jovens e trabalhadores possam se manifestar no sábado onde houver condições. Também convocou assembleias nos locais de trabalho para ampliar a greve de 05/11, marcada pelas centrais CGT, CFDT, FO, Unsa e FSU contra os cortes projetados no orçamento de 2027. Os trabalhadores exigem salários e aposentadorias maiores, verbas para hospitais e escolas e medidas contra a carestia. As reuniões com o primeiro-ministro Sébastien Lecornu não atenderam a essas exigências.
Macron afirmou que somente passeatas solicitadas por sindicatos e feitas em trajetos aprovados pelo Estado seriam permitidas. A regra exclui atos chamados por outras organizações e submete até os sindicatos a mudanças determinadas pela polícia. Foi o que aconteceu em Paris. O pequeno ditador usa os confrontos de sábado passado para restringir manifestações de toda a população, inclusive de quem não participou de qualquer depredação.
Na capital, a polícia prorrogou até a manhã de segunda-feira (26/10) o toque de recolher noturno nas áreas da praça da República e de Les Halles. Reuniões não declaradas foram proibidas perto do Eliseu, do Parlamento, dos Campos Elísios e das estações ferroviárias. A prefeitura autorizou drones a filmar e transmitir imagens dos manifestantes durante a jornada de sábado. O veto alcança todos que se reunirem nas áreas e nos horários proibidos, tenham ou não participado de confrontos.
Um levantamento do Le Monde, atualizado em 23/10, registrou medidas excepcionais em cerca de uma dúzia de cidades. Há toques de recolher para menores desacompanhados e áreas onde nem adultos podem se manifestar. Em Nice, os atos foram vetados no centro. Em partes de Saint-Étienne e Roanne, foram proibidas reuniões reivindicativas com mais de cinco pessoas. Avignon e Cavaillon também anunciaram restrições de circulação para menores. Por decretos locais, o governo tenta cercar a jornada nacional.
A seção local do Partido Comunista Francês recorreu à Justiça contra a proibição em Lyon. Alega que a autoridade usa os acontecimentos de 17/10 como pretexto e omite o cerco policial aos manifestantes na praça Bellecour, montado antes de a passeata começar. Apesar da proibição, a administração metropolitana e a Câmara de Comércio anunciaram 40 agentes de segurança privada para proteger as áreas comerciais. O comércio recebe proteção, mas a população precisa ir à Justiça para defender o direito de protestar.
A Liga dos Direitos do Homem pediu ao Comitê dos Direitos da Criança da ONU e ao Alto Comissariado para os Direitos Humanos que acompanhem os próximos protestos. A entidade quer observadores capazes de verificar a liberdade de manifestação e a integridade física de quem vai às ruas. As operações policiais já deixaram jovens mutilados: em Lens, um estudante perdeu a mão após a explosão de uma granada; em Argenteuil, outro perdeu um olho; em Saint-Ouen-l’Aumône, um adolescente teve a mandíbula destroçada. Na jornada de 17/10, uma granada policial arrancou a mão de um manifestante em Saint-Étienne.
O Ministério do Interior informou 2.397 detenções em 17/10. Antes daquela jornada, a Justiça francesa já havia registrado 7.950 casos de custódia policial desde o início da revolta, 6.773 envolvendo menores. A escala das detenções mostra como o governo responde aos adolescentes que exigem condições de estudo.
A repressão chegou também às universidades. Na quinta-feira (22/10), policiais invadiram e retiraram estudantes que ocupavam parte da Universidade Paul-Valéry, em Montpellier. Os jovens reivindicavam o fim das taxas diferenciadas para estrangeiros e do Parcoursup. A direção chamou a polícia porque os ocupantes pretendiam passar a noite no local. Sindicatos de professores e estudantes condenaram a ação; segundo uma fonte citada pela imprensa francesa, os agentes usaram três granadas de gás lacrimogêneo.
Na sexta-feira (23/10), Macron recebeu cerca de 20 representantes secundaristas no Eliseu, sua primeira reunião com as organizações do movimento após mais de um mês de protestos. Os jovens pediram a reforma dos prédios escolares, professores, melhores condições de estudo e a extinção do Parcoursup. Suas entidades haviam apresentado ao governo dez medidas estimadas em 10 bilhões de euros, entre elas mudanças nas bolsas e a criação de 250 mil vagas universitárias. Macron falou em reformular o Parcoursup e a chamada democracia escolar. Não anunciou verbas para os prédios nem a contratação dos professores exigidos pelos estudantes.
A conversa durou três horas. Na saída, Nathanaël Combary, do Renouveau lycéen, reconheceu que o presidente os ouviu, mas afirmou: “não estamos satisfeitos”. Os estudantes ainda aguardam a reunião marcada para segunda-feira (26/10) com Lecornu. Louis Letoublon, da organização Les Lycéens!, disse que permanecem desconfiados de Macron por sua política para o ensino público. Os representantes chamaram os colegas a continuar os protestos durante as negociações.
Na mesma sexta-feira, Macron anunciou que visitaria policiais no 19º distrito de Paris para reafirmar sua confiança neles antes do ato. Isto é, para os milhões de estudantes que sofrem com a política de sucateamento e devastação neoliberal no ensino, Macron manda a polícia ao invés de atender aos seus anseios. Foi preparar a repressão contra os que buscaram um diálogo no mesmo dia.
No dia anterior, Lecornu reunira os partidos políticos para falar sobretudo de ordem pública. Manuel Bompard, da França Insubmissa, denunciou que o primeiro-ministro deixou de discutir as reivindicações dos jovens e as razões da revolta. O governo condiciona respostas à suspensão dos atos enquanto reforça a polícia.
Toques de recolher, proibições de passeatas, drones, detenções e unidades policiais especiais formam a resposta de Macron a quem exige salários e escolas que funcionem. O presidente acusa os manifestantes de ameaçar a República, mas é seu governo que restringe liberdades para impedir uma mobilização popular. Os decretos e a operação de sábado dão forma concreta a essa política ditatorial.
Os estudantes saíram da reunião no Eliseu sem suspender os atos. Os coletes amarelos mantêm a convocação deste sábado, e os sindicatos organizam assembleias para a greve de 05/11. Mesmo com passeatas proibidas em cidades importantes, a juventude e os trabalhadores franceses procuram ampliar a luta nas escolas, nos locais de trabalho e nas ruas. Ao unir manifestações e preparação da greve, mostram aos trabalhadores de outros países o caminho para enfrentar os governos neoliberais ditos “civilizados” como o de Macron, cuja polícia aleja manifestantes.





